Posso roubar um minuto do seu tempo?

CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Posso roubar um minuto do seu tempo?

Agora não tenho tempo. Desculpa famosa, para um agora que dura o mesmo para todos. Culpamos o excesso de informação. Mas ela sempre esteve por aí, assediando nossos poucos cinco sentidos. Informação visual é o que impregna sua retina. Com tato você descobre a maciez do toque. Enquanto sorve um ar de peculiares aromas. Regurgitando o sabor do último torresmo. De ouvidos atentos. Quantas imagens, quantas sensações, quantos perfumes, quantos sabores, quantos sons, quanta perda de tempo. 

Excesso de informação já tínhamos. O que aumentou foi o número de canais que congestionam os mesmos cinco sentidos de um cérebro cativo em limitado crânio. Que anseia por tempo para assimilar tudo o que lhe bate à porta. E engrossa as fileiras de ricos e pobres que, qual crianças mendigas nos semáforos da vida, suplicam: "Tio, dá um tempo?" 

Mas quem assalta nosso tempo é a variedade de escolha. Dou um exemplo. Há alguns anos, tínhamos cinco canais de TV. Gastávamos 5 minutos para escolher o que assistir na hora seguinte. Hoje temos TV por assinatura com uma centena de canais. Começamos uma hora antes a escolher o que veremos nos cinco minutos seguintes. 

O tempo que temos é a porção que nos foi dada, sem direito a "refill". Impossível ter mais. O importante é usar tecnologia para economizar. Ler esta sentença, por exemplo, faz você perder tempo. Ler esta sentença, por exemplo, faz você perder tempo. Percebeu? Você perde tempo com tarefas repetitivas. Algo que aquele software que tem, e nunca usou, poderia resolver. 

Nas transações entre empresas, gasta-se um tempo enorme com processos inadequados, comunicação deficiente e retrabalho. É o que chamo de atrito nos processos, dissipando tempo na forma de calor. Rubores da raiva causada pelo tempo que se foi. 

Administrar o tempo não é apenas fazer mais rápido o que você já faz, mas simplificar. Reduzir suas opções de escolha. Empresas estão fazendo isto ao trabalhar com menor número de fornecedores, porém integrados e fiéis. Mesmo que custe mais, no longo prazo perde-se menos. 

A tecnologia da informação promete duas coisas. Reduzir o tempo gasto com o trabalho e reduzir o tempo gasto com o trabalho. Não, eu não me enganei. As duas são as mais importantes. E a terceira é economia de tempo. Antigamente eu incluiria alguns chavões como "aumento de lucro", "redução de custos" ou "melhoria da qualidade". Mas hoje dou o maior valor ao tempo. Deve ser a idade. 

Li numa dessas estatísticas sem fonte que o americano médio gasta hoje menos tempo em shopping centers. Está menos interessado em pesquisar preço e mais interessado em comodidade. Ele se casa com algumas lojas e vive feliz até que a falência os separe. A pesquisa falava do americano médio, mas acho que vale para todos os tamanhos. 

Evitar perda de tempo virou sinônimo de comodidade. Daí o sucesso das lojas de conveniência e fast-food. Pagamos mais para economizar tempo, por não querermos pesquisar mais para economizar dinheiro. Reduzimos o número de opções. Um homem com um relógio sempre tem a hora. Com dois relógios, não tem certeza. 

Diz o ditado que tempo é dinheiro. Se fosse, eu seria o primeiro a pedir aumento. Iria guardar tempo, investir tempo e até emprestar tempo. Com ágio. Para me precaver contra a desvalorização. Mas aí o nosso tempo valeria mais que o tempo norte-americano. Afinal, numa sociedade conectada e apressada, melhor do que ter Dollar-Time é investir em Real-Time. 

Se tempo fosse dinheiro, Brasília ganharia um Ministério da Economia do Tempo, abrigado num luxuoso edifício de cristal na forma de ampulheta. Para justificar o que foi feito do nosso tempo. Seria um ministério econômico, já que o ministro acumularia também a função de homem do tempo. Com igual índice de acerto nas previsões. 

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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