A notícia chamou minha atenção: “Barnes & Nobles vai parar de vender e-books”. Pois é… o prazer do papel impresso parece desafiar as mais modernas tecnologias, muito embora eu adoraria ter um tablete fácil de ler, se decidissem qual vai ser o padrão que irá vingar e o preço que não irá salgar.

Falei disso em uma crônica chamada “O fim do livro” há alguns anos. Existe uma geração que precisa morrer antes que o prazer de saborear páginas termine. Eu me incluo nela. “Do alto desta pirâmide quarenta e oito anos vos contemplam”, eu diria se fosse Napoleão. Estou na idade dos bons restaurantes. Não conhece a piada? É velha, mas aqui vai:

Aos vinte, o rapaz volta da viagem à praia entusiasmado: Tinha cada gatinha!
Aos quarenta, o homem volta da viagem à praia com água na boca: Tinha cada restaurante!
Aos setenta, o veterano volta da viagem à praia decepcionado: Não tinha uma farmácia aberta!

Recentemente comprei uma revista com um dicionário em CD e de graça encontrei 200 livros, obras clássicas em e-book. Sabe que ainda não tive a curiosidade de abrir nenhuma delas? No entanto, terça-feira no aeroporto de Recife, não queria enfrentar as quatro horas de volta lendo o livro de negócios que levei. Queria algo mais saboroso.

Por isso entrei na livraria, mas quase sucumbi à compra de “Como as mulheres compram”, mas o preço e a voz da consciência dizendo “Cuidado! Esse é um livro de negócios também! Não quer descansar?” foram suficientes para eu devolvê-lo à estante. Então achei Machado de Assis, “Contos Escolhidos”, por menos de 8 reais, uma coleção ótima da Martin Claret em livros de bolso.

Vim sorvendo o texto de um autor que há mais de cem anos escrevia como escrevemos hoje, uma linguagem jornalística, ainda que rica em detalhes. Parágrafos curtos, sentenças breves, inversões completas no rumo e surpresas para tirar o leitor do caminho que pensou que iria percorrer. Ao contrário de autores estrangeiros que na mesma época escreviam parágrafos com mais de uma página.

Tinha alguma coisa em meu palm, mas nem pensar em ler. Queria um livro para dobrar o canto da página, sentir seu cheiro, rabiscar. E deixar as pessoas olharem para a capa para pensarem que sou um cara culto. Já viu quanta gente desfila livros por metrôs e ônibus? Existe um quê de prestígio em ser visto com um livro. Collor, em suas viagens, passava recados ao país e aos seus iguais pelo título do livro que carregava.

Quanto ao e-book, parece que seu papel mais importante tem sido na divulgação de algum produto ou serviço, como escrevi em “E-book: Você ainda vai escrever um”. A preocupação de que seria preciso travar de todos os lados o e-book para evitar perder dinheiro com cópias foi o assunto que tratei em “Músicas, livros e figurinhas” há alguns anos, mas parece que o hábito arraigado em pessoas como eu conspira contra o fim do livro como o conhecemos. Falo do livro para ler, não o de pesquisa ou consulta. Neste caso as enciclopédias continuarão indo para o vinagre, sem conseguirem competir com o volume de informação imediata e grátis para consulta na Internet.

Veja o que está acontecendo com uma das maiores livrarias do mundo que usa sistema de e-book do maior vendedor de software do mundo para seus e-books:

Barnes & Noble to Stop Selling Ebooks

Barnes & Noble stopped selling ebooks. Purchasers have about three months to download their previous purchases. The country’s largest retailer and distributor of books invested a great deal of money in ebook distribution starting in 1999 Microsoft signed a deal with the chain to promote its proprietary book format.