Vende-se sucata

É madrugada. Se não estivesse vestido num confortável moletom eu diria que estou pensando com meus botões, tentando descobrir se o parafuso solto fica no hemisfério esquerdo ou direito de meu cérebro. Ou, quem sabe, nos dois. Acima de minha cabeça vejo uma estrutura metálica com seus parafusos nos devidos lugares. E ontem vi pernas e pés caminhando sobre mim. 

Eram pernas levando pares de olhares curiosos para passear por um teto transparente sobre minha cabeça de parafusos soltos. Alguns paravam para fotografar. Outros sorriam e acenavam. Todos tão surpresos quanto eu, que moro agora numa casa de 400 metros quadrados, uma incrível gaiola de aço, acrílico, vidro, tecnologia e decoração – muita decoração. Habitação provisória e passageira, como o que eu sou e sei.

Fui escolhido para esse projeto do Salão de Novos Negócios. Morar por cinco dias numa Casa Contêiner, construída dentro do pavilhão de exposições. Sete pessoas e respectivos parafusos também moram aqui: uma arquiteta, uma designer, uma jornalista, uma estilista de moda, um publicitário, um empresário e um padre, todos teletrabalhadores domésticos. Além de nós, quatro jornalistas se revezam no morar e observar a experiência de home-office ou teletrabalho – hoje três deles são estrangeiros.

A casa é um sonho de tecnologia, arquitetura e decoração. Suítes com projetos assinados por grifes famosas circundam uma magnífica sala de estar coroada por um teto transparente em forma de pirâmide. Nem vou falar da cozinha, academia de ginástica, sauna, sala de imprensa, capela e home-theater, ou você pensará que estou exagerando. É melhor que veja com seus próprios olhos no próximo exemplar das revistas de arquitetura e decoração.

Por que participar? Para experimentar o novo, criar referência, ser pioneiro. Não há pagamento, mas continuamos ganhando nosso pão – graças à Internet, passamos o dia trabalhando como faríamos em casa. O importante é o contexto e a bandeira que empunhamos, de viabilização e valorização do trabalho em casa. Mais inteligente, mais seguro, mais racional para profissões como a minha.

Mas qual é mesmo a minha profissão? Bem, aqui dentro sou escritor e consultor. Na próxima semana sou palestrante e professor, sem deixar de ser o que hoje sou. Mas não foi para isso que me formei arquiteto, o que hoje não sou. Ou trabalhei dez anos como editor, depois de ser vendedor e negociador, deixando para trás o desenhista e pintor. Antes mesmo do período de agricultor, embora continue tradutor, dia sim, dia não. Mas nunca vou contar que já vendi verduras com uma carroça, pois há quem pense ser isso uma mancha na reputação.

Tom Peters escreveu: "Nunca contrate alguém sem uma aberração em seu background". Sua pena incentiva o profissional a ser diferente, distinto, memorável. Também sugere que seja uma marca, trabalhada, melhorada e divulgada, de forma dinâmica, mutante, jamais passiva ou acomodada. Que se sobressaia, aprenda sempre, corra risco e sonde o insondável. Sem jamais se contentar em viver como náufrago profissional, morando na ilha da especialização.

Quem se dá por contente com o que já faz, fica para trás. Vivemos num mundo de novas profissões, atividades e versões. A atividade mais moderna hoje será amanhã tão velha quanto uma viagem à Lua. É preciso embarcar nela enquanto ainda é ficção. Reciclar, renovar, recarregar as baterias. Ou até descartá-las, se ficarem para trás. É o que Wallace deveria ter feito.

Ele era o pai da casa norte-americana onde morei quando adolescente. O programa de intercâmbio escolheu um lar para eu morar, mas não previu o meu pé frio: quando cheguei, Wallace perdeu o emprego. Sem abrir mão da hospitalidade, me aturou seis meses sem salário. E mais de um ano depois continuava sem um novo emprego. Seu sustento vinha de três casas de aluguel e um pequeno negócio de sucatas. Que ele demorou a perceber que incluía sua especialização.

Wallace era engenheiro elétrico aeroespacial, especializado nas baterias que os astronautas levavam para trabalhar na Lua. Quando o programa Apollo descarregou, aquilo deixou de ser um bom negócio, mas Wallace demorou a perceber. Só conseguiu trabalho quando se livrou da sucata de sua especialização e decidiu ousar algo novo. Aí o sol raiou para ele outra vez. Como deve estar raiando agora, fora do pavilhão.

Logo esta casa efêmera será invadida por um batalhão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, caso se repita o que vimos ontem. Quando a notícia aparecer nos jornais, rádio, TV e Internet é provável que toda essa estrutura já esteja sendo desmontada e boa parte dela seja transformada em sucata, enquanto o conceito sobrevive. Logo agora que eu já estava me acostumando com essa vida, sentindo-me seguro e com todos os meus parafusos bem apertados. O jeito é soltar algum e embarcar noutro arrojo, pois há sempre fronteiras para se desbravar. Se no processo sobrar algum parafuso, é provável que não passe de sucata.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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