CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Espere que está subindo um piano

Não sei quem inventou as expressões de Internet. Download e upload são duas delas. Significam fazer descer os dados até seu micro, e fazer subir seus dados até algum outro computador na rede. A rigor, os dados não sobem nem descem. Só trafegam pela rede. Portanto não adianta colocar seu micro no chão. O download não ficará mais rápido. 

Talvez "down" expresse nosso estado de espírito, enquanto aguardamos o demorado "load" da página. Se dependesse de mim, o download se chamaria upload. Como a Terra é redonda, e a gente sempre acha que está no topo do mundo, todos os outros computadores acabam ficando abaixo de nós. A demora fica por conta do esforço que os dados fazem para subir até nós. Um problema que não existia no passado, quando a Terra era plana. 

Como não acredito que você tenha acreditado em minha explicação, vamos voltar à realidade. O tempo que leva para aparecer algo na tela de seu computador depende de seu micro, do modem, da linha telefônica, da fiação nos postes, do provedor e de fatores semelhantes na outra ponta. Há ainda causas de lentidão não explicadas. Por exemplo, as páginas Web demoram mais para aparecer quando sua mãe está ao seu lado esperando para poder usar o telefone. 

O telefone! Quase ia me esquecendo dele. Quem tem Internet em casa não tem telefone. É ilusão dar o número para os outros. Está sempre ocupado. Lembro-me de quando estava na rua e precisei ligar para casa. Vinte e um insucessos seguidos. Acabei entrando em uma escola de línguas, pedi licença para usar a Internet e enviei um e-mail para meu filho: "Sai da Internet que preciso falar com sua mãe". Depois liguei.

Felizmente já dá para acelerar a Internet. Quem tem a minha idade não pode mais se dar ao luxo de perder tempo. Por isso decidi pelo cabo. Não o da Boa Esperança, que devo dobrar em breve. Refiro-me à Internet a cabo. Ao cabo de poucas semanas, minha TV a cabo vira também Internet a cabo. Assim dou cabo do problema e levo a cabo um plano antigo de acabar com a linha ocupada. De forma cabal. 

Outros fatores me levaram a decidir. Num cálculo rápido vi que o custo se equiparava. O que vou pagar a mais com a Internet a cabo vou pagar a menos com a conta telefônica. Na empresa tenho Internet 24 horas. Mas costumo voltar para casa antes disso. É aí que sinto a diferença. Embora todos exaltem o aumento da velocidade, acho que o mais importante está na mudança de comportamento. Não precisar conectar para estar conectado. 

Quando escrevo minhas crônicas, uso a Internet exaustivamente para pesquisar. Na dúvida entre escrever, por exemplo, "universidade" e "univercidade", grafia que recebi no e-mail de um "univercitário", lanço as palavras em um site de busca. A que tiver o maior número de ocorrências ganha. Segundo um amigo, o método não é confiável. Se fosse, deveríamos comer fezes. Cem trilhões de moscas não podem estar erradas. 

Não vou sentir saudade do ruído do modem. Nem do dedilhar no tampo da escrivaninha, enquanto esperava uma página carregar. Talvez eu sinta saudade do silêncio do telefone. Porque sempre é chato navegar com o telefone tocando e alguém querendo conversar. Se for o caso, eu tiro do gancho. Aí se alguém ligar para mim, só vai conseguir linha se for engano. 

Fazer download de um arquivo não será mais como esperar subir um piano. Como aconteceu com um amigo no ônibus. O motorista, impaciente, ameaçava deixar o ponto quando o cobrador gritou: "Espere que está subindo um piano". Todos riram da senhora, que tentava embarcar todas as curvas de seu corpanzil. Calmamente, ela se aproximou do cobrador e anunciou: "Agora o piano vai tocar". E o ônibus seguiu ao som das gargalhadas. Enquanto o cobrador tentava esconder a marca dos cinco dedos gordos que enfeitavam seu rosto.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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