CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Percalços viandantes
por Mario Persona

Escrevo enquanto viajo. E como viajo! Já pensei em manter um mapa na parede, alfinetando onde já estive, mas preocupei-me com o custo dos alfinetes. Então descobri um serviço na Internet onde finco alfinetes virtuais no mapa do Google. O próximo passo é vestir uma camisa com listras vermelhas e brancas e lançar minha versão de "Onde está Wally""Por onde anda o Mario Persona?"

Se aprender a dançar posso até lançar uma versão mais dinâmica de minha TV Barbante, como fez o Matt com seu "Where the hell is Matt?", o rapaz que é patrocinado por um fabricante de chicletes para ficar viajando e dançando pelo mundo. Ele já deve estar com o mesmo problema que eu. Fico em tantos hotéis diferentes que já desisti de decorar o número do quarto. Sempre pergunto na recepção quem sou e onde estou.

Ficar pulando de hotel em hotel cria uma espécie de instinto para o perigo. Por exemplo, nunca entro no banho sem verificar se o piso do box é piso. Em um hotel que se gabava de ter hospedado Juscelino Kubitschek, o piso do box se transformou numa argamassa de sujeira assim que entrou em contato com a água do chuveiro. Acho que não limpavam desde a visita presidencial. Do assento oco e rachado da privada e do que ele aprontava quando sob pressão, é melhor nem falar.

Para chegar a hotéis assim passo por vôos, estradas e situações das quais só não reclamo porque são elas que me abastecem de histórias. O que seria desta crônica se eu não tivesse viajado de ônibus pelo acostamento de uma estrada no interior de Pernambuco? O motorista não saía do acostamento, tantos eram os buracos no leito asfaltado. Ele dizia que a solução era tapá-los. Eu retrucava que bastava abrir mais alguns para a estrada ficar plana.

Descobri que há buracos também em viagens aéreas. Com uma passagem comprada por um cliente econômico, embarquei num antigo Boeing 727 de uma companhia desconhecida só para descobrir que naquele avião existe um buraco no piso do corredor — uma espécie de janela sob o carpete — por onde se enxerga o trem de pouso.

Pelo menos foi o que deduzi durante uma tentativa de pouso, quando a aeromoça ficou verificando se o trem de pouso havia travado corretamente. Deitada de bruços no chão entre passageiros pasmos, por quase uma hora ela ficou berrando para o piloto lá na cabine:

— Não travou! Tenta outra vez!

Se a infra-estrutura para viajar decepciona, o talento do brasileiro surpreende. Paulo, o motorista que me apanhou no aeroporto de Curitiba para uma viagem de três horas, tinha preparado, no banco de trás do táxi, uma cesta com água, refrigerantes, bombons, jornais e revistas. A surpresa maior estava por vir.

Conversando descobri que o rapaz era formado em geografia com mestrado em turismo, lecionava numa universidade e tinha uma agência de turismo. Aspirante a ser um Comandante Rolim do transporte rodoviário, Paulo costuma dirigir suas vans com visão de marketing, recebendo pessoalmente seus clientes para detectar suas necessidades e desejos, e supri-las com um atendimento cinco estrelas.

Eu disse cinco estrelas? Bem, existem percalços também nas constelações. O cenário agora é um resort cinco estrelas numa praia paradisíaca, coisa prá lá de primeiro mundo. Encerro a palestra, esgotado de tantas viagens, noites mal dormidas e barrinhas de cereais das companhias aéreas. Tudo o que quero é tirar a tarde inteira para dormir e me recompor.

Meus sonhos são interrompidos pela campainha. Levanto-me de um salto e corro para o olho-mágico da porta. Lá fora, o mensageiro do hotel segura um recado na mão. O que será? Alguma emergência? Cubro a cueca com a primeira calça que encontro, abro a porta com o rosto ainda amassado e os cabelos espetados, só para ouvir um jovem empertigado e com pose de eficiência anunciar:

— Recado para o senhor, Doutor Araújo.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Veja emwww.mariopersona.com.br