CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

As novas economias

Nunca se economizou tanto. A cada dia inventam uma nova economia. É economia de água, economia de eletricidade, economia de gente. Que o diga o número de demissões no mundo todo. Se continuar assim, logo teremos economia de talentos, economia de entusiasmo e economia de resultados. Até a fatal economia de lucratividade. 

Tanta economia leva a pensar que o único negócio de futuro é o de furar cintos. Transformá-los em torniquetes de cintura para sobreviver em um mercado que oferece oportunidades demais para gastar, e oportunidades de menos para ganhar. Mas poucos vêem que cada nova economia é uma nova oportunidade para a tecnologia da informação mostrar como pode otimizar recursos reduzindo as perdas por fricção na cadeia produtiva. 

Há empresas criando novas economias com as velhas ferramentas de economias menos econômicas. Deviam usar os óculos das novas tecnologias para detectar por onde seus recursos estão sendo drenados. É óbvio que o maior volume de dinheiro sai da empresa pela área de suprimentos. E isto não é por ser uma área onde trabalhem esposas, mas por ser a porta de entrada da matéria prima que será transformada em produto. Nada mais lógico do que começar por aí, otimizando processos com a criatividade que as ferramentas de Internet oferecem. 

Quem usou de criatividade para economizar foi a prefeitura de uma cidadezinha americana, assolada pela falta d’água. Reduziu o consumo das caixas de descarga, acopladas aos vasos sanitários, usando algo de concreto. Um tijolo. Cada cidadão ganhou um tijolo de concreto para colocar dentro de cada caixa. Volume suficiente para reduzir o estoque e controlar a vazão sem reprimir a demanda. 

Mas nem sempre o problema está na vazão, mas no volume de retenção. Lembro-me de um rapaz em sua primeira visita à casa da família da namorada. A dor de barriga causada pelo nervosismo foi aliviada no imaculado banheiro da sogra. Satisfeito, ele deu a descarga, a válvula travou e a vazão não ajudou. O nível de estoque foi subindo, subindo… rumo ao prejuízo! 

Na empresa, aumenta-se a vazão da demanda com o aumento das vendas. O tijolo na caixa de descarga é a criatividade que reduz o estoque. Numa cadeia de suprimentos – ou supply chain – informação e materiais fluem como água em vasos comunicantes. Ou deveriam fluir. O problema é que os vasos não são tão comunicantes. Ou, quando se comunicam, não o fazem com a rapidez necessária, aumentando os custos. 

A Internet trouxe algo de concreto para resolver o problema. E não é um tijolo. Se a velocidade da troca de informações numa cadeia produtiva aumenta rapidamente, é porque as oportunidades de negócios surgem e desaparecem na mesma proporção. Economizar tempo é vital para evitar o desperdício de negócios. Tanto as informações que geram vazão, como as que permitem o suprimento, devem fluir soltas. 

Hoje a cadeia de suprimentos pode integrar-se à cadeia de demanda como pescoço em corpo de cobra. Usando sistemas de SRM, ou Supplier Relationship Management via Web, é possível criar a fluidez exigida no processo demanda-planejamento-suprimentos-produção, para permitir um ambiente colaborativo de negócios. Isto aumenta a previsibilidade na cadeia produtiva e reduz o risco de quedas por oscilações na economia. 

Vítima das quedas causadas pela economia de recursos era um rapaz que conheci. Responsável por uma pequena hidrelétrica em Goiás, controlava o velho gerador que mantinha tremulantes as lâmpadas do vilarejo. Luz, só em noites escuras. Ele passava as noites sentado em uma banqueta e pilotando um registro do tamanho de um volante. Atento ao amperímetro, virando o volante para a direita reduzia o fluxo d’água e a tensão. Para a esquerda, aumentava. Graças à monotonia do trabalho, era comum ele cair no sono. E cair do banco. Então toda a cidade sabia, pela intensidade da luz ou falta dela, para que lado ele havia caído. 

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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