Do ostracismo ao Marketing Pessoal

CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Do ostracismo ao Marketing Pessoal

Ostras são sempre as mesmas. Pelo menos por fora. A diferença está no que algumas trazem dentro de si. Pérolas. Só reveladas por bocas abertas a golpes de faca. 

O mundo está cheio de ostras profissionais. Cascas horrendas, de rudes e ásperas. Perolizando informações sugadas de uma vida de estudos e experiências. Mas que mantém bocas teimosamente fechadas para as pérolas reclusas de seu conhecimento profissional. Perdidas no muco de suas camadas cerebrais.

À medida que o mercado passa a valorizar o conhecimento, as ostras começam a se agitar. Umas, mais afoitas e vulgares, espirram sujidades que só turvam a água em redor. Deixando suas pérolas embaciadas pela falta de distinção.

Outras investem em um meticuloso e polido marketing pessoal, transluzindo a preciosidade através da madrepérola da casca. Numa revelação discreta e quase sensual de seu interior, despertam no mercado o desejo de ver mais. E pagar para tal.

Existe em nós um desejo natural de revelar o que sabemos na forma de opiniões. E insistir para que outros as comprem, ainda que o único pagamento seja a satisfação do reconhecimento público de que estamos com a razão.

Você encontra esses vendedores de opiniões em todos os lugares. Nos cafés, nos cabeleireiros, na fila do banco e nos estádios. Todos procurando conquistar o mercado das atenções e fazer prevalecer a sua marca.

Mas na hora de expor aquilo em nós que é vendável, viramos ostras. Mesmo o mais eloqüente vendedor de seu conhecimento futebolístico ou político acaba se retraindo ao falar de sua capacidade profissional. Acha que expor seu produto é ser esnobe e inconveniente.

Talvez isto aconteça por existir uma linha muito tênue entre o marketing pessoal e a altivez. Essa odiosa tendência de acharmos que o universo orbita ao nosso redor. Não é incomum a vanglória ser fruto da insegurança gerada pela incompetência. Que transforma coroas de lata em títulos de nobreza e um ego que late em pedigree.

Quando falo de marketing pessoal, estou me referindo à exposição fria e comercial de um produto acabado. O conhecimento que é colocado em prática na forma de competência.

A grande área de exposição promocional de baixo custo que a Internet oferece, permite que profissionais se posicionem como produtos para o mercado. São currículos que trocam envelopes pardos por um lugar de eminência nada parda nos sites de recursos humanos. Ou em elaboradas home-pages pessoais.

A princípio pode parecer complicado administrar esse dois-em-um, pessoa e produto. Ou mais-de-dois-em-um, se tiver múltiplas capacidades. Mas não é, se souber separar a pessoa do profissional, e o produto do ego. 

O diretor da faculdade onde estudei exagerava no dualismo profissional causado pelos cargos que ocupava. Um de diretor e outro de professor da mesma escola. Ao enviar os telegramas convocando os professores para as reuniões mensais, dois iam para o seu próprio endereço. Um para o diretor e outro para o professor.

Como não podia deixar de ser, quando um ia à reunião, o outro não faltava. E lá se desdobravam em uma terceira e anônima personalidade que, como mestre de cerimônias, anunciava:"Aqui quem vos fala é o Diretor Oswaldo". Terminada a fala do principal, vinha o anúncio: "Agora quem vos fala é o Professor Oswaldo". Que curiosamente costumava discordar do Diretor.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

Esta crônica de Mario Persona pode ser publicada gratuitamente como colaboração em seu site, jornal, revista ou boletim, desde que mantidas na íntegra as referências acima.