CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Infodifusão — A mídia ao rés do chão

Minha amiga estava apaixonada. O americano seria o par ideal. Ele pensava o mesmo ao escolher a primeira poltrona do vôo que o faria chegar primeiro ao Brasil. O vôo voou e ele achou que foi o amor. O piloto dizia ser vento de cauda. Não via a hora de pedir, ao pai da garota, a mão e tudo o que estivesse ligado a ela.

Foi só colocar os pés no chão e descobriu o Brasil. Do português ele não sabia nem piada. Até "Brazil" só sabia falar com "z". Nem dava tempo de estudar. Qualquer curso, por mais dinâmico, intensivo e inventivo, seria incapaz de competir com a velocidade da paixão. Coisas do coração.

O futuro sogro queria ouvir português claro. Não deixaria ir a filha nem o resto dos cabelos, sem todos os pingos nos "is". Além das crases, cedilhas e tils, cuja falta faria acentuar ainda mais os caracteres da fronte grave do circunflexo e itálico ancião.

Se comunicação era um problema para o jovem do norte, hoje é uma questão que envolve pontos mais cardeais. Principalmente numa época em que o norte não mais norteia e o ocidente morde a língua em meio à confusão que permeia. De línguas, povos e costumes que ganham voz.

O poder da infodifusão — o broadcast universal — outrora privilégio de magnatas, desceu ao rés do chão. Ora veja você — ouça você, leia você — caiu no colo do mais comum cidadão. Quem de globo ontem só tinha o ocular, hoje pode ser nacional sem ser jornal. Qualquer cidadão.

Minha mãe dizia que eu seria escritor, mas como poderia sem ter editor? A única coisa que tinha em comum com a mídia inacessível era meu apelido de infância: "Marinho". Era um tempo em que as crianças aprendiam a escrever. Hoje aprendem a publicar.

Acabo de receber um e-mail do editor de um boletim eletrônico semanal dizendo que minha coluna publicada ali está entre as mais lidas. Tiragem? Mais de um milhão de exemplares semanais enviados a assinantes. E já nem sou Marinho.

O privilégio não é só meu. Qualquer adolescente pode catalisar a atenção de uma audiência maior do que a de muitos jornais diários em seu despretensioso blog — seu diário na Web. Mesmo que não tenha dinheiro para comprar um jornal.

Não é novidade que a audiência dos noticiários vem caindo. As pessoas não querem o fato, mas o tato. Cheio de cores e paixões, exatamente o que o adolescente consegue passar, à sua maneira e para a sua audiência.

A ânsia por um jornalismo imparcial gelou a alma do dito. Ninguém agüenta engolir fatos a seco, sem um gole de estilo, opinião e fantasia. Principalmente fantasia. Mesmo porque todos sabemos que não existe notícia imparcial. Só por alguém decidir se o fato é notícia já deixa de ser imparcial de fato.

O adolescente que fala de seu dia-a-dia em um blog caseiro consegue anexar a alma ao que escreve. Sem ser big nem brother, revela a intimidade da vida sem os esteróides de uma falsa informalidade. Notícia banal? Não mais do que aquela de ontem, que hoje jaz sobre o balcão do açougue. Vestida daquela imparcialidade de estátua vendada que finge não estar vendida.

Enquanto a mídia convencional tenta resgatar audiência, uma nova geração doa o sangue para as veias da informação. No ataque ao World Trade Center, blogs bateram recordes de audiência transmitindo notas ao vivo. Digitadas por olhos úmidos que viam tudo em cores de uma janela sem comerciais.

A solução para a mídia convencional — antes que mude o que é ser mídia por convenção — parece estar, não no resgate da audiência, mas no resgate da alma. Não numa reles transcrição fria do "quem, quando, onde, como e por que" mas na tradução dos fatos,

É claro que essa tradução não deve fugir da fidelidade, ou vitimará incautos, como vitimou o jovem e americano apaixonado, longe dos atentados, mas perto de um futuro cunhado. Que traduziu o que devia falar para pedir a mão.

Antes de entrar na sala, decorou outra vez. Quando todos fizeram aquele silêncio de zunir, encheu o peito, tomou coragem, engoliu, olhou nos olhos do sogro, engoliu mais três vezes e caprichou no script ensinado pelo cunhado: "Sua careca é bonita".

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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