CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

I want to go back to Bahia

Em meus tempos de estudante, teatro universitário só falava da pobreza do nordeste. Temas clássicos sobre o sertão, a fome e a migração, permitiam aos atores denunciar as desigualdades sociais e evitar hematomas. Quem arriscasse temas mais explícitos corria o risco de ser convidado a participar da peça "O ciclo da borracha", muito popular nos quartéis.

Virou clichê a imagem de um nordeste sem água, saúde ou esperança. Uma espécie de peso morto para o Brasil. Na cabeça do brasileiro só tinha um jeito de nordestino ficar rico. Ganhando na sena ou indo para São Paulo. Como a sena ainda não existia, o jeito era ir para São Paulo.

E foi o que aconteceu. Muitos desceram para vencer em São Paulo. Outros venceram na própria terra. Poucos foram emplacar em Brasília. O dinheiro suado que cada Severino genuíno enviava à mãe no sertão foi crescendo, crescendo, e virando novos e nordestinos negócios. Era a vez da mulher rendeira ensinar investidor sulista a fazer renda. Numa terra de enamorar.

Cada viagem que faço ao nordeste é uma nova descoberta. Se antes a paisagem me encantava, hoje é o desenvolvimento que me impressiona. O êxodo virou migração de retorno. A volta para um nordeste que acena com oportunidades e qualidade de vida. A volta é de nordestinos, mas é também a volta dos que não foram. Tenho um amigo paulista que foi ver o que é que a baiana tem e nunca mais voltou. 

Voltar é palavra de ordem também para alguns profissionais de Internet. Foram tentar a sorte grande e encontraram o infortúnio antes da fortuna. Desprezando conselheiros, seguiram gurus estrangeiros e naufragaram quando o mar virou sertão. Agora sacolejam no pau-de-arara da volta, na esperança de encontrar vaga no balde que um dia chutaram. Se ficou uma lição, é a de que nunca se deve destruir pontes. Podemos ter de voltar por elas.

Mas ter trabalhado nas falidas ponto-com pode ser vantagem. Marinheiros de valor são os que exibem cicatrizes de antigos naufrágios. Estiveram onde muitos queriam estar, mas jamais ousaram tentar. Enfrentaram a onda, viram tudo virar espuma, e naufragaram. Mais por culpa da onda do que por falta de habilidade em navegar.

Se na volta as pessoas olharem para você como olham para um náufrago, não se preocupe. Gostamos de náufragos. Pagamos para ler seus livros. Fazemos fila para ver seus filmes. Todos querem aprender de suas experiências. Não tente destruir a imagem que fazem de você. Você não é contratado pelo que pensa ser, mas pelo que pensam que você é. A você cabe atender e exceder essa expectativa.

Aprendi isto na Bahia, quando ainda jovem. Trabalhando para um grande banco, recebi a tarefa de comprar um imóvel de um grande grupo industrial do nordeste, numa das áreas mais valorizadas de Salvador. Viajei vestido em um de meus dois melhores ternos, calçando um Vulcabrás 757 e, de peito cheio e maleta vazia, invadi com passo firme a recepção da empresa. Quando a recepcionista pediu o nome, por pouco não soltei um "Bond – James Bond". 

Na sala refrigerada, empertigados diretores não esperavam que alguém menor que o dono do banco aparecesse para cuidar do negócio. Desconfiavam de alguém com menos de trinta anos. Fui apalpado dos pés à cabeça pelo olhar gélido dos que tentavam adivinhar o calibre de minhas armas. Então o presidente rompeu o silêncio da revista com a pergunta que eu temia: "O doutor Mario é diretor de qual área do banco?" 

Meu registro na carteira profissional ainda trazia um simples e genérico "escriturário". Que escapou num fio de voz: "Não sou diretor, sou escriturário". E sorri um sorriso de réu. O presidente riu de gargalhar. E os diretores riram de gargalhar, só porque o presidente riu de gargalhar. "Muito brincalhão esse doutor Mario", concluiu o presidente, antes de passarmos às negociações.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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