Giselda vai às compras

CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Giselda vai às compras

Mario Persona

Giselda vai às compras. Mas desta vez não precisará sair de casa. Está conectada à Internet, usando o micro novinho em folha que o Aníbal instalou na penteadeira. No monitor, um mundo novo está prestes a surgir diante de seus olhos. No espelho da penteadeira, um rosto cansado sugere a primeira compra virtual: creme para rugas. Giselda está ansiosa. Quer ser ponto-com, como ordenam os "reclames" nos intervalos da novela. Ajeita o teclado apoiado sobre a gaveta aberta e começa a digitar. Pára no terceiro "W" do endereço que viu na revista, só para examinar a unha descascada. Talvez também compre um esmalte. 

Minutos depois surge o nome da empresa na tela. O espelho acusa uma sobrancelha direita ligeiramente franzida. Onde deveria haver uma loja, há um botão que diz: "Clique para entrar". A ingênua Giselda pensava que era só entrar no endereço para estar dentro. Fica intrigada em precisar fazer algo para entrar onde já deveria ter entrado. Com o canto do olho Giselda vê uma nova ruga surgindo entre os olhos. De concentração. Precisa aprender a raciocinar como um designer, e não como um cliente. Obedece ao aviso e clica no botão para entrar. 

Mas não entra. Surge nova mensagem. "Flash" ou "Html"? Uh?! Giselda sente o mesmo que sentiu quando foi com o Aníbal a um restaurante francês. Chama o marido. Se naquela ocasião ele conseguiu decifrar o cardápio, deve ser capaz de fazer o mesmo agora. "Flash Gordon?", indaga Aníbal, observado pela Giselda no retrovisor gigante que a penteadeira oferece. 

Ela decide brincar de "minha mãe mandou clicar neste daqui" e pede "Flash". Um novo aviso, agora dizendo que deverá instalar um "plugin". "Plu-jin?", pronuncia errado Aníbal que nunca foi bom de inglês. Seu olhar encontra o de Giselda no espelho. Pensou que fosse assistir Flash Gordon, mas agora precisa descobrir o que é "plugin". Ele conhece gim. Mas nunca tomou com "plu". Só tônica. 

"Complicada essa Internet. Deve ser por isso que designer ganha bem", raciocina ela. "Pessoal criativo esse! Não é fácil inventar tantos obstáculos." Começa um desenho animado e o maior som. E bota som nisso, porque Giselda esqueceu-se de diminuir o volume das caixas acústicas. Aníbal perde a animação para tentar acalmar o bebê, assustado com o barulho. A mão de Giselda molha o mouse. O bebê molha o Aníbal. Giselda clica onde pode e pára o show multimídia. 

Voltou ao ponto de partida. "Flash ou Html?", pergunta o texto outra vez. Não quer arriscar o tal de Html. O Flash ela já conhece. Quem sabe o que lhes reserva o outro? Aníbal senta-se na beira da cama para assistir. Giselda aproveita para examinar o rosto no espelho. Ela pode jurar que novas rugas surgiram na última meia hora. 

Giselda e Aníbal não acreditam quando finalmente a loja aparece na tela. Será algum truque? Deve ser, porque não há qualquer indicação da direção a tomar. Só fotos coloridas. Giselda demora a descobrir que deve passar o cursor sobre as imagens. Só assim os menus saem do esconderijo. Aníbal não consegue conter a indignação: "Esses caras querem vender ou o quê?!" 

Giselda insiste. Passeia por páginas com rostos sorridentes que parecem zombar de sua ignorância. Agora hesita antes de clicar em cada opção que vê na tela. Será que vai demorar como a outra? O rosto está tenso e o espelho é prova disso. Nem uma argamassa de cremes iria conseguir tapar os sulcos que surgiram na testa úmida. Desiste do esmalte. Vai comprar só o creme para não sair de mouse abanando. 

Surge o formulário de pedido. E o medo? A TV não falou que os hackers roubam cartões de crédito? "Se algum moleque roubar meu cartão eu estrangulo!", pensa ela em voz alta, enquanto enterra a unha no botão do mouse para enviar o pedido. 

Vinte e oito dias depois Giselda recebe o frete pelo qual pagou. Junto vem um pote de creme. "É a primeira vez que compra pela Internet?", pergunta a vizinha curiosa. "Não… a última", grunhe Giselda. "E aí?", continua a outra. Giselda responde enquanto cheira o minúsculo pote que tem na mão: "O creme não compensa."

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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