CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

A gênese de um livro

Meu editor estava entusiasmado. Enquanto o escutava ao telefone, pensei em meus alunos de marketing na faculdade. Precisaria correr, se quisesse chegar na hora. Mas não dava para perder todo aquele entusiasmo. Se ele vibrava, imagine eu!

O momento era especial. Dávamos as últimas pinceladas na estratégia de lançamento de meu livro. Meu primeiro, após muitas árvores e três filhos. Mesmo tendo trabalhado por dez anos em uma editora, aquela era uma nova emoção. Quando o livro é de outro, você é parteira e doutor. Quando é seu você é o genitor.

O rebento nascia de minha experiência de escriba e palestrante de negócios, marketing e Internet. Enxugado em uma criteriosa toalha que deixava de fora todo e qualquer muco de um entusiasmo infundado. Que não poderia fazer parte de um livro sobre Internet para uma economia pós-onda. Quando até surfista já tinha vendido a prancha.

Queria abordar os vários estágios da onda e filtrar sua espuma e as sujidades oportunistas. Para revelar toda a profundidade do mar de negócios, que permanece o mesmo depois de toda aquela agitação. Deixando o leitor à vontade, para sorver com prazer os conceitos sempre atuais de negócios e até humor. Muito humor.

Além de ser um livro imune ao envelhecimento, teria que ser adequado à nossa época. Para qualquer um, em qualquer lugar, ler e entender. O sempre atual estilo de crônica seria perfeito. Uma crônica tem o poder de tornar perene aquilo que é mutante, efêmero e volátil. Como ondas, por exemplo.

Lourenço Diaféria, de quem cresci fã, descreveu o gênero assim: "Rápido, mas não apressado; leve, mas não volátil; rasteiro, mas não desmazelado… capaz de transmitir sentimentos pessoais, até íntimos, mas ao mesmo tempo transferíveis a qualquer leitor… para ser lido, com complacência, e até prazer, pelo dono do jornal, pela mulher do dono do jornal e pela mãe do dono do jornal. Essa é a crônica perfeita."*

O livro teria que ser um jardim de variedades, atraente para quem chegasse de qualquer lado. Para ser lido do começo, do fim, do meio, não importa. E adequado para se parar de ler, com pausas sombreadas para pensar. Suas páginas translúcidas deveriam ser traspassáveis ao olhar de quem quisesse contemplar o vazio. Que já não seria mais, quando o olhar chegasse lá. Um livro para visionários com sandálias que não soltam as tiras. Querem voar, mas com os pés no chão.

Se eu iria alcançar esses objetivos, não sei. Com ousadia ou sem ela, o trabalho seria o mesmo. Só sei que tanta pretensão carecia de capa e da magia da ilustração. Escolhi Murilo Maluf, cujo traço me fazia recordar a nordestina literatura de cordel. Aquele estilo anguloso, que come o espírito da história e o cospe no entalhe. Não de madeira xilográfica, mas de bits e bytes. Imagem perfeita para se pendurar no varal de uma rede mundial.

Faltava um título. Mas não um qualquer. Devia carregar todo o romantismo de uma época efêmera. E soar familiar. "Serve Shakespeare?", pensei em voz alta. "Serve!", respondi para mim. E foi aí que surgiu "Crônicas de uma Internet de verão". Subtítulo? "Um livro de negócios para ler na praia". O olhar marketeiro percebeu que o lançamento precederia as férias de verão.

Por isso tudo fico entusiasmado, mas não embriagado. Meu livro é só mais um entre milhões. Minha preferência continuará depositada em outro livro, que por mais de duas décadas tem sido a vela de minha nau temporária. Tecida de pontos temporais com linha eterna. A Bíblia. Falar deste livro traz mais que entusiasmo.

Mas embora eu seja um homem de comunicação, nem sempre consigo comunicar o seu valor. Certa vez errei ao querer impressionar um humilde agricultor. Apontei para o exemplar que tinha em mãos, impostei a voz, e declarei:"Valdevino, este livro tem mais de quatro mil anos". Só para ouvir seu comentário, de genuína simplicidade: "E até que está bem conservado, sô!".

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* Lourenço Diaféria em entrevista a Rony Farto Pereira para o Proleitura, publicação do Grupo Acadêmico "Leitura e Literatura na Escola" – Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras – UNESP, Campus de Assis.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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