Brincando de Gato e Rato

CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Brincando de gato e rato

 

Brincando de gato e rato

Tirei uma fatia da pizza das pesquisas de alguns institutos norte-americanos* e percebi que o caroço começa a ficar maior que a azeitona. Os dados que engoli causaram um certo desconforto dentro de mim. Uma sensação de pressão crescente. Algo que parece aumentar cada vez mais, sem que haja uma saída fácil. Serão gases?

Não. São os índices da credibilidade de empregados para com seus empregadores. Numa fatia descobri que um em cada três empregados não confia no empregador. Dois terços consideram desonesta a comunicação interna das empresas. Enquanto isso, 13% se sentem intimidados, molestados ou com medo. Nesse relacionamento de Tom & Jerry, os números mostram que boa parte dos ratos desconfiam dos gatos.

A cobertura pode ser diferente, mas a massa adotada pela maioria das empresas tem sido a mesma. Aquele blá-blá-blá de lealdade que só serve para intumescer os ventres da equipe. Bombeia-se um oba-oba de patriotismo laboral que o empregado polidamente segura, ao menos enquanto circula na empresa. Mas que se transforma em altissonante insatisfação quando está ao ar livre da submissão corporativa.

Empregados não nascem leais. Lealdade é o orégano que pousa sobre uma reputação crível. De nada adianta acender o fogo de programas motivacionais se não existir recompensa plausível. Só defende a empresa quem é leal, só é leal quem acredita, só acredita quem vê o queijo. Sem ratoeira.

Em algumas empresas eventos de motivação parecem dar o resultado oposto. Desmotivando quem percebe a falta de quem estava no evento anterior. E é candidato a protagonista da próxima saudade. Tão importante quanto o motivacional dos empregados, é o comportamental dos empregadores. 

Algumas empresas tentam servir um discurso de catupiri para uma equipe que sabe que aquilo é gorgonzola. Quando tentei ensinar à minha filha algo sobre queijos, comecei por este, que já vem estragado. "Você sabe como foi que descobriram o gorgonzola?", perguntei, adotando uma postura sapiençal. "Pelo cheiro?", brincou ela, encerrando a aula.

Empregado percebe quando a promessa é vazia. A competição está feroz demais para garantir segurança. Hoje você está neste negócio, amanhã está em outro. Prometer carreira é ficção. No tempo de meu pai era real. Uma vida na mesma empresa, aposentadoria satisfatória e um dicionário onde não havia a palavra demissão. Que eu me lembre, só dois casos. Um deles porque deu um tiro no gerente.

Quando falta credibilidade e benefícios, só resta invocar o fantasma do desemprego. Para garantir retenção em clima de assombração. Mas o clima não compensa. Não espere que molhe a camisa por causa da empresa, aquele que você quer fazer molhar as calças por causa do emprego. Seu funcionário não se empenha por causa da empresa. O que o motiva é sua própria carreira, seja ela aí, aqui ou acolá.

E é aí que está a solução para a lealdade e a motivação. Você investe no empregado para lucrar. E ele sabe disso. Já pensou em investir para ele lucrar, ainda que seja além de seus muros? Já pensou em deixar que ele escolha os cursos, treinamentos, bolsas e tudo mais que achar bom para sua carreira, mesmo que não tenham relação com sua produção? É uma mudança de postura que pode sair pelo mesmo preço e aumentar o índice de lealdade, retenção e transparência na relação.

Relações nebulosas geram desconfiança, como aconteceu com o dono da padaria que conheci. Ao receber um telefonema, tirou o lápis da orelha e anotou tudo direitinho. O pedido era graúdo. Só no final perguntou quem era. "Aqui é o Rato", informou o dono do bar de apelido homônimo. "Quéim?!", indagou o padeiro carregando no sotaque e desconfiado de trote. "O Rato, do bar", repetiu o homem. "Pois tu fiques sabendo que aqui é o Gato, da padaria!", bradou, batendo o fone e perdendo a venda.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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