Crônicas para ler no café AA

Ex-Zécutivo

Oi Zé. Doutor José?! Deixe disso, cara, hoje vou tratá-lo de Zé mesmo, pois um dia você foi só isso. Quero falar com você. Pode me dar cinco minutos? Dois? Sei que não tem tempo, que está correndo feito louco, mas o que quero dizer é importante para você não ficar isso mesmo — louco — quando a correria acabar.

Verdade, a correria acaba. Nada dura para sempre. Quantas vezes nos últimos dias você ouviu a frase "Não trabalha mais aqui" ao ligar para alguém? Antigamente não tinha disso, né? Pois é, novos tempos. Seja humilde. Muito do que você pensa que tem não é seu.

Sabe o Júnior, aquele cheio de MBA disso e MBA daquilo, que fala até mandarim? Olha, Zé, é melhor você emagrecer que seu paletó vai para ele. Você já foi o rei da cocada preta, hoje não é mais. Isso mudou! Deu cem dias sem resultados e vai ter alguém atendendo seu telefone e dizendo: "Não trabalha mais aqui".

Tudo bem que você vai sair como quem sai e não como quem é saído. Executivos são jogados na rua com tapete vermelho, até para resguardar a imagem da empresa. Vão dizer que saiu para desenvolver projetos próprios — procurar emprego —, buscar novos desafios — pesquisar nos classificados — e se dedicar mais à família — viver às custas da mulher.

Por isso, comece a baixar a bola porque ela é emprestada. Dirija devagar o seu andor, porque você é de barro. Pode nem ser você quem está na reta, mas seu patrão. Empresários também são demitidos pelo mercado. Quando jovem, negociei com um empresário a renovação do aluguel de um imóvel seu, ocupado pelo banco para o qual eu trabalhava. Muito dinheiro.

Fumando charuto e entediado com a negociação na enorme mesa da enorme sala no enorme prédio de sua enorme empresa, baforou a conclusão nada humilde:

— Vá lá, fica por isso mesmo. Gasto isso num final de semana só de combustível para meu iate. —

Na certa também era enorme e devia beber muito. De tudo o que tinha, não restou nem iate, nem empresa, nem charuto. Só fumaça. Os tempos são outros, por isso seja humilde, Zé. Fuja do perfil do executivo que vi jogando golfe em um evento que participei. Prepotente, altivo, desses que culpam tudo e todos por seu próprio fracasso. Chamava a atenção com seus chiliques, lançando impropérios contra a grama e culpando-a por seus erros no taco. Isso foi há uns dois anos. Não sei se comeu grama melhor desde então.

É provável que você não se aposente como executivo. Pouca gente vai conseguir. Acostume-se com a idéia de não estar no próximo congresso para ver o Peter Drucker e outros gurus. Ele passou e você um dia vai passar. Por isso, seja humilde.

Aprenda desde já a viver como um simples mortal — pegar fila em banco, andar de ônibus, comer pastel de feira. Pode não ter o glamour com o qual está acostumado, mas é menos estressante do que a vida que você leva agora. Por sinal, lembre-se de deixar o glamour na portaria junto com o crachá. Pertence à empresa.

Não se iluda com sua rede de relacionamentos. Muitos são amigos apenas da donzela que viaja de Zepelim. Quando o balão se vai você volta a ser Geni. Para outros, daquela gaveta cheia de cartões de executivos que colecionou em eventos, você pode até ligar. "Não trabalha mais aqui".

Comece a desenvolver seu "Plano B" desde já, pois vai precisar dele. Pode virar consultor ou até palestrante. Você não imagina o currículo de pessoas que me procuram atrás de dicas. Fico sem acreditar que tenha algo a ensinar para pessoas com uma bagagem tão maior que a minha.

Existe algo que saiba fazer? Sei lá, cozinhar, costurar, fazer contas. Pode precisar, quando abrir seu restaurante por quilo, sua confecção de biquínis ou para fazer em casa a contabilidade de seus novos clientes. Tudo bem, pode se apresentar como "chef", "designer de moda" ou fazer a declaração do imposto de renda dos amigos em "home-office", se quiser acrescentar glamour às suas novas atividades. Mas se não souber fazer nada, seja humilde e volte a estudar.

Não tenho mais dicas para dar. Ah, sim! Mais uma: seja humilde. Eu já disse? Tudo bem, é a idade. Por falar nisso, qual é a sua? Sabe que isso influi, não sabe? Pois é. Já que falei, por falar em humildade, conheço empresários e executivos que já trabalham assim. Durante o almoço em um evento, o dono do grupo de indústrias que me contratou interrompeu o que estava fazendo para me cumprimentar. Estava servindo as mesas.

Outro, presidente de uma multinacional, agarrou minha mala e carregou-a até meu carro no estacionamento do hotel, diante dos olhares atônitos dos que seguem suas ordens no dia-a-dia. Executivos malas vão desaparecer. Os que não têm vergonha de carregá-las irão sobreviver. Portanto, seja humilde. Eu sei, eu já disse.


Recebi vários e-mails comentando esta crônica. Mas nenhum expressou tão bem o sentimento de um ex-executivo. Por isso publico o texto abaixo:

Foi isso que me aconteceu — a transmutação de executivo para ex-Zécutivo — foi bem isso mesmo, uma transmutação. Bem na linha dos alquimistas, que tentavam transmutar metal comum em ouro, aconteceu comigo de transformar-me noutro indivíduo.

Não em um indivíduo-ouro, que ainda estou a anos-luz disso, mas certamente noutro tipo de pessoa — mais consciente de suas deficiências; mais lúcida quanto ao seu significado no mundo, longe daquela prepotência antiga, mais capaz de ser efetivamente útil — mesmo que ainda não o esteja sendo a pleno potencial — mais, muito mais humilde e, por conseqüência desse último ponto, envergonhado das atitudes e comportamentos de antes. Se eu fosse meu funcionário, nos velhos tempos, teria me mandado à @#$*&%, já reconheci para alguns ex-colegas (ou ex-vítimas, como preferir).

O afastamento dos pseudo-amigos foi motivo de sofrimento e angústia num primeiro momento. Hoje, é motivo de alívio, como se perigos ocultos tivessem se distanciado. Em contrapartida, a identificação dos "amigos de fé", aqueles com quem se pode contar, é motivo de alegria e novas certezas.

A mordida da "pobreza" (não chega a tanto, longe disso, mas financeiramente minha situação é muito diferente do que era — tenho o suficiente para viver com dignidade, enquanto antes superabundava o excesso) me forçou a um reajuste nos padrões de consumo, priorizando o que realmente importa e o resto, se sobrar… ótimo! Posicionou-me mais próximo da maioria esmagadora das pessoas que me cercam, e desinflou minha bola egoísta e vaidosa. Doeu? Claro, mas não me matou e me fez mais humano.

Ainda sinto falta da vida de antes — o carrão totalmente bancado pela empresa, a moradia, a comilança, as viagens, os hotéis de primeira, e o puxa-saquismo dos da equipe, os salamaleques dos fornecedores, os happy-hours, os tapetes macios, o ar-condicionado dos escritórios, e vai por aí afora. Um monte de coisas que me afastavam da realidade, com as quais criei uma redoma de poder ilusório e… tolo.

Mas essa saudade está cada vez mais longe. Hoje, sinceramente, peço a Deus que não apareça nenhum convite ou oportunidade antes que meu organismo moral, se posso dizer assim, esteja devidamente imunizado contra a mosca azul.

Não sei se meus valores mudaram. Se hoje persigo referenciais melhores, não creio que surgiram agora, mas estavam amortecidos pela ilusão de antes. Se corria atrás das bolas coloridas da vaidade e do supérfluo, hoje busco coisas mais efetivas. Quero virar o jogo sim, como você mesmo disse, mas "virar" mesmo — não voltar ao que era, mas passar para algo melhor, e creio que você entende do que estou falando. E certamente não é o que era o antes…

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

Esta crônica de Mario Persona pode ser publicada gratuitamente como colaboração em seu site, jornal, revista ou boletim, desde que mantidas na íntegra as referências acima.