“Eu sem você”

Enquanto escrevo ouço “Eu sem você”, dedilhado por Paulinho Nogueira. Foi na semana passada que ficamos sem ele. E também sem Sam Philips. Os brasileiros conhecem o Paulinho Nogueira, mas quem foi Sam Philips?

Assim como Colombo está para a América, Sam Philips está para Elvis Presley. Foi ele quem descobriu Elvis Presley e contei a história dos dois em uma crônica, “Love me tender, love me true”, publicada em meu livro “Gestão de mudanças em tempos de oportunidades”.

Philips conheceu Elvis e marcou uma gravação para testar as baladas que Elvis cantava. Gravariam um compacto simples para ver no que dava. Elvis era um cantor de baladas. Pelo menos era isso que Philips pensava, e Elvis também.

Naquele 5 de julho de 1954 tudo dava errado durante a gravação, por isso decidiram fazer uma pausa. Foi quando Elvis começou a brincar com um blues chamado “That’s All Right, Mama”. Bill Black, no baixo, entrou na brincadeira. O guitarrista Scotty Moore também. E Philips ouviu da cabine de controle e deixou rolar a gravação. Elvis não era cantor de baladas. Era diferente.

Daquele intervalo descontraído saiu o compacto com “That’s All Right, Mama” de um lado e “Blue Moon of Kentucky” do outro. Foi quando tudo começou. Acho que Elvis estava certo quando disse: “Não entendo muito de música; nessa minha linha você não precisa entender”. Elvis era um especialista? Não.

É por isso que enviei um e-mail à Veja esta semana discordando da conclusão que Stephen Kanitz chega em seu Ponto de Vista com o título “Estamos emburrecendo”. Por gostar do que o Kanitz escreve, sinto-me à vontade para comentar, e sei que ele vai entender. Quem conhece meu estilo sabe que não sou de criticar, mas gosto de estimular neurônios.

Discordei foi de sua conclusão: “O segredo não é mais ser um intelectual que sabe um pouquinho de tudo, mas ser um ignorante que sabe tudo sobre um pouquinho” (Veja 06/08/03 pg. 20). É óbvio que ninguém jamais conseguirá saber tudo de tudo, mas também é uma loucura se especializar a ponto de saber tudo sobre um pouco e ser ignorante do resto. A velocidade das mudanças é tão grande que quando me sentir especialista, virei sucata (escrevi sobre isso em minha crônica “Vende-se sucata”).

O que vale é saber onde encontrar o que precisar. É verdade. Se eu achar que sei, ainda que um pouquinho, acho errado. Mas se sei como achar, tenho todo o conhecimento humano à minha disposição, já que tecnologia para resolver isso de modo rápido é o que não falta. Portanto, não é saber tudo nem saber nada, mas saber o suficiente para descobrir tudo.

Como Colombo descobriu a América, sem saber. Ou Sam Philips descobriu Elvis, sem entender. Se Elvis fosse especialista em baladas e as tocasse quadradinho, ou Sam Philips fosse especialista em baladas e mandasse Elvis parar de brincar de blues, a América do rock não teria sido descoberta.

Mas, o que tem o Paulinho Nogueira com a história? Vou deixar que ele responda, copiando um trecho de uma entrevista que está no site da Livraria Saraiva. Ele comenta a morte de outros grandes músicos, Rafael Rabello, Baden Powel e Luis Bonfá. Da morte de Baden ele diz: “Um artista nunca substitui o outro. Cada um tem a sua personalidade. Substituição não existe. Ele vai somar com os outros porque ele é muito bom, realmente.”

Paulinho Nogueira era um especialista no violão que tocava. Baden, Bonfá e Rabello, idem, no jeito de cada um. E agora, Mario, como é que fica o que você disse sobre não ser especialista? Fica que Paulinho era diferente no que fazia. Como eram Rafael Rabello, Baden Powel, Luís Bonfá, Elvis Presley e Sam Philips. Cada um deles foi especialista naquilo que criaram, não no que aprenderam. Foram especialistas em ser diferentes para fazer a diferença. Porque se tivessem sido literalmente especialistas, teriam sido iguais.

A música que agora toca é “Um cantinho, um violão”. E como toca.

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