CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Ora (direis) ouvir estrelas! 

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…"

Olavo Bilac não usava Windows, mas já falava em ouvir estrelas abrindo janelas. "Todos conhecemos clientes que desejam um produto cinco estrelas, mas que possuem uma mentalidade três estrelas", afirmou Arnold Chan, especialista em iluminação de hotéis. Se vamos falar de clientes, vamos falar baixo, pois algum pode escutar. Portanto, feche a porta e a janela. Se estiver lendo esta crônica em seu micro, feche só a porta.

Será que há clientes três estrelas querendo serviços cinco estrelas? Bem, às vezes sim. Aquele garotão que critica o Brasil por estar no terceiro mundo, enquanto joga sua lata de cerveja vazia pela janela do carro, é um exemplo disso. Típico comedor de mortadela querendo arrotar peru. Mas mesmo que todos os clientes fossem assim, as empresas deveriam procurar exceder as exigências dos mais exigentes. Incluam-se aí os hotéis, de poucas ou muitas estrelas.

Não sou cliente exigente. Minha única exigência agora é uma tomada de telefone para conectar meu notebook à Internet. No hotel onde estou hospedado pensaram em tudo. Na TV a cabo, frigobar, som, secador de cabelo. Até no sabonetinho e no shampoozinho, desses que a gente coleciona, mas não admite. Pensaram em tudo, menos numa tomada de telefone. Acaba de me ocorrer uma dúvida. Para o hóspede, de que servem as estrelas?

O gerente informou que havia uma tomada extra, no banheiro. Imagine se vou trabalhar sentado na privada com meu notebook no colo! Seria um trabalho literalmente feito nas coxas. Aliás, expressão deturpada por quem não sabe que sua origem está nas antigas telhas coloniais, mal-feitas e irregulares por serem moldadas nas coxas dos escravos.

Meu faro me diz que banheiro não é lugar para se trabalhar. Descubro uma ligação para telefone atrás do criado-mudo. Afasto a cama. Êpa! Descobri o esconderijo da faxineira! Agora só falta ligar na corrente elétrica. Você adivinhou. A tomada de força fica na parede oposta. Por pouco o fio não dá. Agora exageraram — há duas! Posso escolher entre a da TV ou do frigobar.

Inauguro meu novo escritório equilibrando o notebook sobre uma pilha de travesseiros. Entre fios esticados, parece roupa no varal. Conecto num provedor grátis. Aguardo alguns e-mails importantes, enquanto arranco os cabelos do peito com pinça. É que meu modem apenas goteja as enormes mensagens de propaganda e motivacionais em Power Point que nunca solicitei. Estou desmotivado.

Será que os hotéis não estão preparados para o futuro do presente? Não. Nem as lojas, fábricas e empresas em geral. Que o digam os vendedores que já carregam um notebook e precisam transmitir pedidos para a matriz. Um amigo diz que muitos vendedores são avessos a tecnologia. Não saberiam o que fazer com uma tomada de telefone juntinha a uma de eletricidade. Devem ser profissionais três estrelas. Ou menos?

Talvez estejam traumatizados. Foram mal assessorados por técnicos de informática que fazem questão de manter o resto da empresa na mais tenebrosa e medieval ignorância. Você conhece pessoas assim. Não querem perder as honrarias que os nativos lhes rendem, quando se aproximam para consultar os oráculos recebidos diretamente da temível deusa Mainframe, no assustador Templo de CPD.

Do mundo acadêmico às empresas, passando por hotéis, deveria ser obrigatório simplificar, traduzir, descomplicar. E colocar tomadas de telefone e força sobre a escrivaninha. Pode ser mania, mas adoro simplificar e digerir as coisas antes de colocá-las para fora. Em meu último livro, "Crônicas de uma Internet de Verão", fiz isso com a tecnologia da informação aplicada aos negócios. Descontraí o que causa contrações em alguns. Daí o subtítulo na capa: "Um livro de negócios para ler na praia".

Numa entrevista, descrevi as crônicas do livro como ideais para leituras rápidas. Para aqueles momentos de "Pensador de Rodin" que todos temos. Cujo modelo devia ser analfabeto ou apressado, já que não levou nada para ler. Textos fluidos e na medida exata. Nem mais, nem menos, fisiologicamente falando. Que não nos façam ver estrelas, talvez ouvi-las apenas. Mas minha explicação não convenceu a jornalista, que cortou essa parte da entrevista. Fez bem, dirá você. Também não convenceu minha filha, que falou o que a jornalista talvez só tenha pensado:
— Mas pai, não era um livro para ler na praia? 

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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