CONFIDENCIAS DE UM PROFISSIONAL Mario Persona – Consultoria de Comunicação

CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Confidências de um profissional ponto-com

Mario Persona

Querido Diário, 

São quase 5 da matina. Perdi o sono há uma hora. Tudo porque fui inventar uma lista de discussão por e-mail. Sabe como é, um fórum de debates. Comunidade de negócios. Uma tal de WideBiz, que acabou cheia de loucos. Loucos de entusiasmo. 

A idéia era reunir meia dúzia de profissionais para debater e-business. Eu seria o "GM" do fórum. O "Grande Moderador". Sacou, querido Diário? O mais igual dentre os iguais. Mas deu tudo errado. De meia dúzia, a comunidade chegou a mais de mil pessoas, nas duas versões da lista. E para estragar minha festa, surgiram vários talentos. De "GM" passei a "PM" – "Pretenso Moderador". Enquanto eu pretendia moderar, o pessoal já tinha dado conta do recado. Não sobrava nem um pouquinho para o ego dizer: "Olhaí, pessoal, quem manda aqui sou eu!" Que nada. A coisa tomou vida própria. 

Com tanta gente escrevendo bem, a saída foi convidar o pessoal para escrever para o site da empresa. Matava dois coelhos com uma cajadada. Ou com uma teclada. Eles tinham seus nomes e talentos promovidos e o site da empresa ganhava conteúdo. Fifty-Fifty. Ganha-Ganha. Bom-Para-os-Dois. Ou qualquer chavão de negócios que você prefira usar. 

Mas isso também deu errado. Você conhece aquela história do rapaz que era tão feio, mas tão feio, que os vizinhos diziam que havia sido um erro médico? Que tinham jogado fora o filho e criado a placenta? Pois é. Aconteceu parecido. Não jogamos nada fora, e nem o resultado foi feio, mas o filho não planejado ficou grande demais para continuar no site corporativo. Começou a interferir na imagem da empresa. 

Foi aí que surgiu o WideBiz.com.br. Um site que passou a derramar conhecimento pelas bordas e criou vários relacionamentos de negócios. Uma dessas comunidades que todo mundo diz que vale ouro na Internet. Apareceu até na TV, com status de "ponto-com", como a Amazon. Mas o site WideBiz ainda não deu lucro. Como a Amazon. 

Criamos até o WideBiz Network, para empresas e profissionais da comunidade mostrarem a cara. Com a promessa de uma versão WAP. Para ser usada naquele celular que no começo quase ninguém comprou, e menos gente usou. Mas que todo mundo dizia que um dia iria comprar. Como BMW. Ninguém tem. Mas que vai ter, vai! 

Mas você pensa que os widebizers ficaram sentadinhos, comportados, enquanto a gente corria por aqui? Nada! Foi só eu virar as costas e o pessoal já estava zumbindo que nem abelha em orelha de criança. Organizaram uma tal de First Tuesday WideBiz. Que alguém até sugeriu que deveria acontecer numa Last Friday. A coisa vingou e aconteceram encontros de widebizers em algumas capitais. Perdi o controle! 

Sinto-me atropelado, querido Diário. Como se estivesse passando em frente ao portão do estádio quando alguém decidiu que o jogo do Corinthians iria ser grátis. Portões abertos. E eu, que nem gosto de futebol, já no meio do campo, empurrado pela multidão. 

Como desgraça pouca é bobagem, hoje o teclado de meu notebook parou de conversar. Ou de teclar. Eu estava no ICQ batendo papo com um russo que insistia ser bom negócio trazer para o Brasil um serviço de diagnósticos via Web. Eu disse que se fizer isso aqui, vai ficar ruço. Ele não entendeu. Aqui, nem médicos, nem advogados podem trabalhar via Web. Só se for com teclado mudo. Como o do meu notebook. 

Depois do russo entrou um rapaz do Egito. Quase nem conversei porque foi aí que o teclado travou. Deve ter entrado areia. Teclou suas últimas teclas e morreu. Mumificou. Agora preciso descobrir como tirar do notebook a apresentação que preparei para uma palestra que vou fazer. Tenho certeza de que vai dar tudo ao contrário. O microfone vai pifar. O projetor vai apagar. O Windows vai funcionar. 

Vou ficando por aqui, Diário. Não conte a ninguém o que confidenciei aqui. Nem que ainda não descobri uma fórmula do WideBiz dar lucro. Pelo menos do lado de cá. Porque do lado de lá, os widebizers estão rindo à toa com negócios e parcerias conseguidas na comunidade. E eu, que vivo dando conselhos de negócios, não consigo fazer este render! Se descobrirem, ninguém vai ler meus artigos. Irão pensar que não entendo do assunto. Mas… entendo?

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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