O seio da questão

O seio da questão
por Mario Persona



Uma jovem leitora escreveu dizendo que admira meu trabalho. Emocionei-me, pois não é todo dia que 30% de meus leitores escrevem para expressar tal admiração. No email ela dizia: “Quero ser como você, só que com seios”. O que respondi?


Prezada M.,

Recebi seu email dizendo que quer aprender comigo e ser igual a mim, só que com seios. Neste caso tenho uma boa notícia: em minha atual pouca forma física e excesso de gordura sob a pele, considere que parte de sua meta já foi alcançada.

Todavia, se você quiser ser também uma profissional do conhecimento, sua verdadeira meta deve estar bem acima dos seios. Não, um pouco mais. Aí ainda são os seios nasais.

Mas, deixando os seios de lado, não sou lá tudo isso que você imagina. Vi que ficou impressionada com meus textos, e eles realmente se impõem pelo volume de conhecimento. Mas devo confessar que ele é, em grande parte, postiço. Por falar nisso, o Google aqui ao meu lado pediu para lhe enviar um abraço.

Eu não seria o que sou sem as empresas implantadas no Silicon Valley, que já vi erroneamente traduzido como “Vale do Silicone”. Antes da era Internet eu era apenas um aspirante a escritor catando milho numa máquina de escrever portátil. Se quisesse buscar alguma informação era preciso achar o livro e a página, o que às vezes podia levar horas.

Agora pense em você, que já nasceu no regaço do videogame, cresceu nos braços do computador pessoal e foi amamentada pela Web. Na sua idade eu só via videogame nos fliperamas e usava a rede para dormir. Distração em casa era ler, jogar palito, ou fazer palavras cruzadas, passatempo que conservo até hoje. Eu sei que os médicos indicam palavras cruzadas para quem já passou dos cinquenta, mas eu faço assim mesmo.

É claro que a formação eclética que tive e as diferentes atividades que exerci foram de grande utilidade para minha carreira atual. Se na época elas não ajudaram a ganhar dinheiro, ao menos contribuíram para a coleção de histórias que conto em minhas palestras. E você disse que é exatamente este o seu sonho: ser palestrante.

A maioria dos palestrantes que você vê por aí jamais sonhou com isso, mesmo porque há alguns anos fazer palestras não era profissão. Hoje vivo praticamente de minhas palestras e treinamentos, mas nem nos meus sonhos mais pirados eu teria pensado numa profissão assim. Agora imagine as atividades que ainda poderão surgir, com as quais você nem sonhou!

É importante você ficar atenta às possibilidades e oportunidades e, a partir daí, estabelecer um foco e se apegar a ele. Nelson Mandela me disse que deve ser assim. Não que ele tenha dito isso a mim, com quem nunca falou, mas foi basicamente a idéia que o susteve ao longo dos 27 anos em que esteve preso.

Durante todo aquele tempo ele nunca perdeu seu foco, fazendo da prisão uma universidade que ele e seus amigos chamavam de “Robben Island University”. Nos livros, ele escrutinava o conhecimento; no contato com os guardas brancos, o comportamento. Foi essa soma que o deixou afiado no modo de pensar do adversário, para mais tarde negociar com seus opositores.

Além disso Mandela não só mantinha o foco e seguia à risca seu propósito de transformar suas circunstâncias em tempo de aprendizagem, como também insistia com cada prisioneiro que chegava à ilha: “Um dia teremos de dirigir este país. Vamos aproveitar o tempo aqui para nos prepararmos”.

O que ele não esperava era que, no intervalo entre sua saída da “universidade-prisão” em 1990, e sua eleição como presidente da África do Sul em 1994, Mandela ainda teria de fazer um curso de pós-graduação em “Decepções Domésticas”. Sua esposa Winnie, antes companheira de uma mesma causa, havia perdido o foco. E foi com profunda tristeza que Mandela descobriu que o seio de sua esposa tinha sido dado a outro.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

Mandela: Retrato Autorizado
Mac Maharaj

Mandela: Retrato Autorizado – é a mais recente biografia realmente autorizada de Nelson Mandela, Com prefácio de Kofi Annan, ex-secretário geral da ONU, e introdução do Arcebispo Anglicano Emérito da Cidade do Cabo, Desmond Tutu, o livro conta com 60 entrevistados em todo o mundo. São, portanto, 60 pontos de vista diferentes sobre Mandela, além de destacar as mais variadas facetas de um dos grandes homens do século 20, que promoveu a reconexão entre a justiça e a política. Mac Maharaj e Ahmed Kathrada localizaram todas essas fontes e realizaram uma pesquisa de conteúdo e fotográfica intensa que resultou em uma coletânea de imagens raras e algumas inéditas.

Amigos, familiares e pessoas que tiveram alguma ligação com Mandela no âmbito político e religioso, como Bono, vocalista da banda U2, o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton e Tony Blair, primeiro-ministro inglês, deram seus depoimentos. Porém, segundo Mac Maharaj, “o que tornou este livro tão especial foi que ele não mencionou apenas os grandes nomes, permitindo que Mandela seja visto de diferentes perspectivas e experiências, sentidas particularmente”.

Mandela: Retrato Autorizado se tornou um complemento da autobiografia de Nelson Mandela, “Longo Caminho para a Liberdade” (Companhia das Letras), feita com escritos produzidos durante o tempo em que ficou preso. Mac Maharaj, que passou 12 anos preso em Robben Island, lendária ilha-prisão de segurança máxima ao largo da Cidade do Cabo, com Mandela, comenta que “o livro reuniu um conteúdo tão concreto que materializou a constatação de que os fatos passados durante a transição da África democrata são exatos”.

Editora: Alles Trade
Autor: MAC MAHARAJ & AHMED KATHRADA
ISBN: 9788589854153
Origem: Nacional
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 355
Acabamento: Capa Dura
Formato: Grande



De volta para o futuro

De volta para o futuro
por Mario Persona



Dependendo do modo como você procura por uma palavra no Google, o sistema pode abrir um menu “drop down” com sugestões de busca. Quando digitei “France Telecom” o resultado foi macabro.


Dentre as possibilidades sugeridas estavam “france telecom suicídio”, “france telecom suicídios”, “france telecom suicides” e “france telecom sob pressão com onda de suicídios”.

Clicando num link qualquer, descobri que mais de 20 pessoas se suicidaram naquela empresa em um ano, uma fatia considerável das estatísticas francesas para suicídios em ambiente de trabalho. Quem escolhe a empresa como palco para seu ato desesperado acredita que o trabalho seja mais importante do que a própria vida.

Em uma ação inédita, a Renault francesa foi responsabilizada pelo suicídio de um funcionário. A empresa foi condenada a pagar uma indenização simbólica à família, além de garantir uma pensão privilegiada. Isso pode virar jurisprudência, como já ocorre no Brasil com questões envolvendo o assédio moral. Empresas que causam constrangimento a um funcionário podem pagar caro por isso. E suicídio?

A família do funcionário pleiteava que o caso fosse tratado como acidente de trabalho. Dependendo do tipo de atividade ou da insalubridade do ambiente, o trabalho pode efetivamente representar um risco de vida. No caso ocorrido na França, pressão e estresse foram os fatores de risco.

Qualquer um sabe que chefe ruim causa úlcera, mas nenhum chefe, por pior que seja, imagina ver seu funcionário encerrar uma discussão saindo pela janela do quinto andar. Foi o que aconteceu com o chefe do homem que se suicidou. Eu não gostaria de estar na pele de nenhum dos dois.

A onda de suicídios na França pode ser consequência da globalização. Técnicas gerenciais importadas dos disciplinados japoneses podem causar rejeição quando transplantadas em outras culturas. Cada povo reage de maneira diferente à pressão. Em que país você acha que surgiu a expressão “bon vivant”?

Além disso, ao importar uma filosofia gerencial do Japão, existe o risco de se importar também o suicídio. Afinal, o Japão é quase um inventor do suicídio associado a uma causa. Muito antes dos radicais muçulmanos saírem se explodindo por aí você já tinha ouvido falar em Kamikaze e Hara-kiri.

Uma grande parcela dos suicídios no Japão tem mais a ver com a falta de trabalho do que com o excesso deste. Para um japonês é uma desonra ficar desempregado, e não raro o pai de família continua saindo e voltando para casa no horário habitual só para esconder que foi mandado embora. Isso quando volta.

Morrer do trabalho não é exatamente uma forma inteligente de resolver o problema. Se eu trabalho para viver, como posso deixar meu meio de vida se transformar em meio de morte?

Pessoas que se matam por causa do trabalho, ou por qualquer outro motivo presente, se esquecem de que o problema, que hoje parece uma bomba atômica, no futuro pode não passar de um traque. Winston Churchill disse: “Se arranjarmos briga entre o passado e o presente, descobriremos que perdemos o futuro”. Se você ler o livro de Jó, ícone do sofrimento humano, verá que muitas vezes ele quis morrer, mas nunca cogitou tirar a própria vida. Essa decisão – ele sabia – cabia a Deus.

Não há nada melhor do que o tempo para nos dar uma perspectiva real das coisas. Eu não acredito que Romeu e Julieta teriam se matado cinquenta anos depois. Uma Julieta flácida e um Romeu careca e barrigudo não seriam um motivo forte o suficiente para alguém tomar veneno.

Não são apenas as circunstâncias que mudam com o tempo. Nós mudamos e nossa maneira de encarar as coisas também. Às vezes tento imaginar o que aconteceria se eu viajasse numa máquina do tempo para me encontrar comigo no passado. Só de pensar me vem à memória uma cena do filme “A dona da história”, na qual o cinquentão Antonio Fagundes diz a Marieta Severo algo mais ou menos assim:

“Você quer mesmo que eu me divorcie de você e arranje uma menina de vinte anos que vai me deixar louco em um mês?”

O mesmo aconteceria se eu me encontrasse comigo no passado. Eu me deixaria louco. Das duas, uma: ou eu acabaria comigo, ou viajaria imediatamente de volta para o futuro. Fico com a segunda opção. O futuro é sempre um lugar melhor.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

Quando a Vida nos Machuca
Philip Yancey


O seu coração grita por Deus, por causa da agonia da perda. Você cai de joelhos sob o peso da dor insuportável. O seu sofrimento rouba a beleza e o prazer da vida, deixando a tristeza, a decepção e a dúvida.

Ó Deus, como tu permites que isso aconteça? És, de fato, tão poderoso? Será que tu te preocupas, realmente, com a minha dor? Onde estás quando mais preciso de ti?
Philip Yancey conhece bem essas perguntas. Ele as têm feito a si mesmo. Tem também experimentado que o abraço de Deus pode ser mais forte nos momentos de dor.

Você está enfrentando a dor emocional ou física? As suas dúvidas podem ser um convite à esperança – uma porta para os generosos dons divinos.


Editora: United Press
Autor: PHILIP YANCEY
ISBN: 8524302607
Origem: Nacional
Ano: 2003
Edição: 1
Número de páginas: 58
Acabamento: Capa Dura
Formato: Médio



E a gorjeta, doutor?


Publique aqui seu Comentário. Ele ficará visível nesta página. Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião do autor deste blog.

Quer falar em particular? Envie um e-mail para
contato@mariopersona.com.br




*Nome (obrigatório):


E-Mail (opcional):


Site (opcional):


Comentário

Feliz infância

Feliz infância
por Mario Persona

Quer saber o que desejo para você no ano novo? Que você não cresça, não evolua e nem progrida. Desejo, mais do que tudo, que você regrida.

Desejo que, no ano que se inicia, ao invés de prometer que vai perder peso, você prometa que vai perder anos de vida. Quero que volte a ser criança.

Pode parecer frase feita, tipo especial de Natal na TV, mas não é. Também não estou desejando que você se infecte da síndrome de Peter Pan ou Cinderela para fugir das responsabilidades da vida adulta. Quero apenas que deixe de ser um adulto chato, azedo e racional.

Já imaginou que droga seria um mundo sem crianças? O problema é que esta é a tendência do mundo moderno. Duvida? É só ver as estatísticas. Nos países considerados mais evoluídos, onde vivem as pessoas que se acham as mais inteligentes, cultas e sofisticadas, as taxas de natalidade estão caindo assustadoramente.

Em países assim nem todo casal moderninho quer ter filhos, pois o barato é cada um garantir a sua individualidade e não criar vínculos duradouros. Você já viu algum comercial de perfume chique com um bebê berrando no “loft” do casalzinho apaixonado? Sorte dos poodles.

Enquanto muitos não têm filhos para se sentirem livres, outros preferem se livrar deles. À meia noite do dia 31, quando abortarmos o ano velho e engendrarmos o novo, nosso inventário trará 50 milhões de crianças deliberadamente findadas no ano que finda. Então, com o contador zerado, voltaremos a produzir descartáveis à média de cinco mil por minuto.

Mas, o que dizer dos abortos justificados, como nos casos de estupro? Não sei o que dizer, pois nunca estive na pele de uma mulher sob a tortura de uma situação assim. Mas, por descender de italianos e portugueses, sei que não tenho DNA 100% europeu.

Quando os exércitos mouros invadiram o sul da Itália e a Península Ibérica, você acredita mesmo que aqueles soldados se divertiram jogando dominó após meses cavalgando ao lado de colegas barbados?

E se você for judeu, de olhos azuis e cabelos vermelhos, devo avisá-lo que sua tatataravó não bebeu tintura e nem engoliu lentes de contato para você nascer assim. Ela pode ter sido estuprada pelos bárbaros nórdicos que assolavam as aldeias de refugiados da diáspora. Se você for nordestino, moreno e de olhos verdes, já deve ter ouvido falar da invasão holandesa.

É, meu caro, eu e você temos grandes chances de sermos descendentes de um estupro. Agora tente se colocar na pele da criança descartada. Uma vez embarcado no bonde da gestação, será que você gostaria que outra pessoa o obrigasse a descer antes do ponto final?

Mas não pense que eu queira transformar esta mensagem de “Feliz Ano Novo” em algo tétrico. Não quero. Desejo apenas que no ano que se inicia você olhe as crianças com outros olhos e queira ser desencucado como elas para ser feliz.

Crianças acreditam em todas as possibilidades, riem com facilidade e não gostam de coisas azedas. Jesus deu às crianças livre acesso a ele, e ainda sugeriu que devíamos ser como elas. Você não vai querer discutir com ele, vai?

As crianças se tornam ainda mais especiais quando nos tornamos avós. Alguém disse que quando somos jovens temos filhos, mas depois de velhos ganhamos cúmplices.

Tenho um neto de dois anos que volta e meia me surpreende com alguma pérola do comportamento infantil. Há menos de três meses eu o visitei nos Estados Unidos, onde costumava levá-lo todas as manhãs para brincar no playground do condomínio onde mora.

Ontem, quando ele me viu na tela do Skype conversando em áudio e vídeo com minha filha, os milhares de quilômetros que nos separam não pareciam representar problema. O garoto simplesmente correu pegar seu casaco e pediu para eu levá-lo ao playground.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

O Livro Perigoso para Garotos
Conn Iggulden
 

O LIVRO PERIGOSO PARA GAROTOS, de Conn e Hal Iggulden, resgata brincadeiras antigas, truques, jogos, revela curiosidades sobre o sistema solar, batalhas famosas e histórias de personagens que são exemplos de coragem e bravura.

Com mais de 1 milhão de exemplares vendidos, é um best seller na Inglaterra e nos Estados Unidos e teve seus direitos para o cinema adquiridos pela Disney depois de uma acirrada disputada entre quatro grandes produtoras.

Editora: Galera
Autor: CONN IGGULDEN & HAL IGGULDEN
ISBN: 9788501078001
Origem: Nacional
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 320
Acabamento: Brochura
Formato: Médio

 

Little Brother is Watching You!

Little Brother is Watching You!
por Mario Persona



Quando Eric Arthur Blair, que nunca foi primeiro ministro, escreveu “1984” sob o pseudônimo de George Orwell, ele não imaginou que o “Big Brother” acabaria virando reality show.


No livro, o bordão “Big Brother is Watching You” oprimia o povo através das onipresentes teletelas bidirecionais do regime totalitário. Em 1949, quando o livro saiu, a TV já existia, mas a ideia de vir com câmera era novidade e causava pavor. Hoje ficaríamos apavorados por saber que ela vinha sem controle remoto.

Se você me perguntar se tenho medo de um regime totalitário vigiando seus cidadãos, minha resposta é não. O que me apavora é um regime totalitário cujos cidadãos vigiem uns aos outros. Se George tivesse conhecido a Internet, a frase do terror teria sido “Little Brother is Watching You!”.

Governos totalitários surgem com o apoio do povo. Foi assim com Stalin, Hitler, Mussolini, Salazar, Tito, Saddam, Fidel… Enquanto o povo estiver unido, o ditador jamais será vencido. O ditador é apenas a personificação de anseios coletivos.

Quando o Rei Davi cometeu um pecado e Deus deixou que ele escolhesse seu castigo, sua resposta foi: “Prefiro cair nas mãos do Senhor, pois é grande a sua misericórdia, e não nas mãos dos homens”. O povo é sempre mais implacável.

Na mesma Bíblia o profeta Daniel sonha com uma estátua de diferentes metais. Do mais macio ao mais resistente – ouro, prata, bronze e ferro – eles representam sucessivamente cinco reinos históricos. O quinto, e mais terrível, é uma mistura de ferro e barro – poder e humanidade.

A Internet deu poder ao povo, que agora está equipado para massacrar. Se você duvida, veja o que aconteceu com Boris Casoy. Na última noite do ano ele fez um comentário ofensivo aos garis em “off”, sem saber que estava em “on”. Horas depois o vídeo batia recordes de audiência no Youtube, enquanto milhares de blogs preparavam a corda para o âncora do telejornal.

Ninguém nunca pensou em boicotar o programa do Chaves ou pedir a demissão do Kiko por gritar “Gentalha! Gentalha!”. Mas com o Boris é diferente. Ele não é um mero apresentador de telejornal. Ele é um juiz da notícia, armado do bordão “Isto é uma vergonha!”. No gramado há 22 jogadores que cometem toda sorte de erros, mas é a cabeça do juiz que o povo quer.

Há um certo prazer ao flagrarmos um delito, pois isso oblitera nossas próprias faltas. Quando esse prazer vem em uníssono ocorre o linchamento, que tanto pode ser de uma estudante de saia curta, como de um jornalista numa saia justa. É o efeito “estouro da boiada”, conhecido até dos investidores. Empresas inteiras já foram linchadas assim.

Em um mundo de 6 bilhões de “Little Brothers”, sem nenhuma ideia na cabeça e com uma Internet na mão, a intifada moderna agora apedreja via Twitter. O cenário está perfeito para a ascensão do ditador que souber manipular uma turba de consciências mortas.

Aliás, “Consciências Mortas” é o título do filme que marcou demais minha mente adolescente e me ensinou a ficar longe das turbas. Estrelado por Henry Fonda, conta a história real de um linchamento injusto. Não vou contar mais, pois a Cristine Martin faz isso muito bem em seu blog “Rato de Biblioteca”.

Voltando ao Boris, que atire o primeiro Twitter quem nunca fez um comentário ofensivo contra sexo, etnia ou condição social. Se fez em “off”, saiba que na era do celular e da Internet seus comentários são sempre em “on”.

No primeiro dia do ano, enquanto o Boris amargava a ressaca de seu comentário, eu saboreava a deliciosa paelha que meu cunhado preparou. Quebrando o silêncio que sempre acompanha a primeira garfada de uma iguaria, minha irmã comentou:

– Parece que o polvo precisava cozinhar mais.

– O importante é que o polvo esteja unido – comentei eu.

O mais distraído dos comensais fez a pergunta-escada que eu esperava, e eu, o mais infame dos humoristas, expliquei:

– Porque o polvo unido jamais será vencido.

Todos olharam para mim e pude sentir o que sente um condenado antes de ser linchado.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

DVD Consciências Mortas
Henry Fonda * William A. Wellman

Quando um rancheiro é dado como morto por ladrões de gado, o povo de Ox-Bow decide fazer justiça com as próprias mãos e linchar os supostos assassinos. Henry Fonda interpreta um andarilho que tenta defendê-los nesse provocativo filme, considerado por muitos como o melhor western de Henry Fonda.

Dirigido por William Wellman e co-estrelado por Dana Andrews, Mary Beth Hughes e Anthony Quinn, Consciências Mortas é uma incessante busca por justiça, um filme que venceu a barreira do tempo e é aclamado como um dos melhores momentos de Hollywood.

Estúdio: Classic Line (Fox)
Título Original: The Ox-Bow Incident
Elenco: HENRY FONDA
Direção: WILLIAM A. WELLMAN
Região do DVD: Região 4
Legendas: Inglês, Espanhol, Português
Idiomas / Sistema de som: Inglês – Mono
Formato de tela: FullScreen



Leu o livro? Vi.

Leu o livro? Vi.
por Mario Persona



Assim como o disco há muito não gira na vitrola, o livro convencional pode virar página virada. No atual andar da carruagem eletrônica, logo deixaremos de ler em papel para ler e-papel. Mas não se preocupe. O livro impresso, que você gosta de tocar, folhear e cheirar, continuará existindo. Como aconteceu com o disco de vinil.


Ele continuou girando mesmo depois da invenção da fita cassete. E esta ainda girou um bocado com o CD ao lado. Agora o CD convive com os iPods e iPobres de MP3. Exceto no meu carro. Troquei o tocador de CDs por um tocador de cartões de memória.

No Natal de 2009 o e-reader Kindle foi o presente mais presenteado do site da Amazon. No mesmo período a empresa vendeu mais e-books para serem lidos no mesmo Kindle, do que livros impressos no mesmo papel. A coisa está mudando mesmo.

Talvez você não esteja entre os mais saudosistas, que gostam de cheirar cola, tinta e papel. Seu argumento é mais racional, tipo “o Kindle é caro”. Sim, ele custa hoje nos EUA o mesmo que uns 25 livros de papel, e a Amazon vende o livro digital por quase o preço do impresso.

Mas, apesar de eu e você não sabermos ler o chinês, o chinês sabe ler essa tendência e não vai demorar para você encontrar um e-reader na caixa de sucrilhos. De graça, contanto que você não se importe de ter uma animação do personagem da marca virando a página para você.

O e-reader tem um imenso potencial como plataforma promocional. Os e-books poderão ser baixados a preço irrisório ou até de graça, patrocinados por alguma marca. É claro que entre um capítulo e outro o fabricante irá inserir um comercial em texto, áudio ou vídeo.

Quer mais? Que tal ler um romance ambientado na Itália enquanto escuta o Andrea Bocelli? Já pensou se a página que descreve os apaixonados na praia vier com som de ondas e gaivotas? O autor poderia economizar toda a tinta que gasta para descrever os sons de cada cenário.

Agora aguente, pois quando começo a viajar na maionese, tentar me impedir é debalde. Feche os olhos e deixe que o e-reader leia para você na voz de seu artista predileto. O futuro do livro é voltar à sua essência de contador de histórias. Aperte o botão “Fast-Forward” e seu e-reader do futuro irá interpretar o texto como o seu cérebro hoje faz.

Quando você pensa no livro que leu, não é do texto que você se lembra, mas das imagens e sensações que o seu cérebro criou em sua tela mental. Acaso não é a mesma coisa que o seu videogame faz? Ele lê um texto – a linguagem de programação – e cria as cenas. O e-reader de amanhã transformará um mero texto em uma história visual tão realista quanto “Avatar”.

Impossível? Não creio. O problema é que avaliamos as coisas por nossos paradigmas atuais. As novas gerações podem pensar de um modo muito diferente. Imagine a Dona Escolástica, com as mãos ressecadas de giz, tentando ler para seus alunos no Kindle que ganhou do bisneto.

Péssimo! – comenta ela. – Muito pior do que o livro impresso!

Aí o aluno todo emo, que nunca leu um livro impresso na vida, lê algumas linhas através de uma fresta de seu cabelo, e exclama:

Meu! Que maneiro! Muito melhor que a tela de meu notebook!

A velha geração compara com o papel, a nova com a tela. O que é interessante para a Dona Escolástica pode não interessar meu neto de dois anos, e vice-versa.

Outro dia, em um zoológico dos EUA, o garoto esteve frente a frente com dois ursos enormes. Apenas alguns milímetros de vidro à prova de balas separavam a criança das garras dos animais, em um ambiente que custou milhares de dólares para entreter grandes e pequenos.

Ao contrário dos adultos, meu neto ficou o tempo todo olhando para um ventilador que girava preguiçosamente no teto do lugar.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários


Kindle

. Livros em apenas 60 segundos
. Wireless: 3G wireless permite que você baixe livros direto para seu Kindle sem custo mensal ou aquisição de planos de acesso.
. Mais de 340 mil livros em inglês, além de jornais norte-americanos e internacionais. Títulos em outros idiomas continuam sendo acrescentados.
. Os best-sellers custam US$ 11,99, mas você encontra mais de 125 mil títulos por menos de US$ 5,99 cada

Velho e bom atendimento

Velho e bom atendimento
por Mario Persona

O PROCON na Babilônia tratava com rigor os oftalmologistas que falhassem no atendimento ao cliente. Aparentemente o código de defesa do consumidor vigente lá não era na base do “olho por olho”, e sim do “olho por mão”.

“Se um médico trata alguém de uma grave ferida com a lanceta de bronze e o mata ou lhe abre uma incisão com a lanceta de bronze e o olho fica perdido, se lhe deverão cortar as mãos”, escreveu Hamurabi há 3.700 anos.

Todo oftalmologista sabe que não deve cobrar o olho da cara, pois na melhor das hipóteses só ganhará duas vezes. O deus nórdico Odin foi quem inventou a expressão, ao pagar um olho por um gole de sabedoria do poço de Mimir. A partir daí ele passou a perguntar de antemão o preço das consultas.

Mas o que nem todo oftalmologista sabe é que talvez precise procurar uma fonoaudióloga. Você sabia que o tom de voz de um cirurgião durante as consultas de rotina pode determinar se ele será processado ou não em caso de erro médico? Esta é a conclusão de um estudo denominado “Surgeons’ tone of voice: A clue to malpractice history”, publicado em 2002 na revista “Surgery”.

E não é só a entonação que pode entornar um atendimento. Ao ministrar um treinamento para profissionais de saúde descobri que havia quase um consenso entre os participantes daquilo que gostamos e odiamos em um atendimento ao cliente. A coisa é tão antiga que até Hamurabi já sabia.

A genial crônica de Max Gehringer em um de seus programas na Rádio CBN revela que muita novidade tem milênios de idade. Max começa dando dicas supostamente de um guru moderno e termina revelando que elas foram tiradas do livro de Eclesiastes, na Bíblia. O mesmo que diz que “o que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: ‘Veja! Isto é novo!’? Não! Já existiu há muito tempo; bem antes da nossa época” (Ec 1:9, 10).

Até o iPad? Sim, mesmo o iPad. Quero dizer, pelo menos o conceito do tablete já era usado na antiga Babilônia. A diferença é que os tabletes de então eram de argila, a escrita era cuneiforme e para salvar o que escreveu você precisava levar ao forno. Mas não precisava de bateria. O que Steve Jobs fez foi transformar isso numa experiência moderna de satisfação.

Hoje, sem saber que eu viajaria no tempo, decidi pesquisar um bom filtro de água para minha cozinha. Fui parar no www.metaefficient.com, um site que se intitula “Guia Para Coisas Altamente Eficientes”. Seus autores fazem testes para determinar os produtos mais eficientes em termos de energia, toxidez, custo-benefício e durabilidade.

Qual você acha que foi o filtro eficiente que o site sugeriu? Um filtro de argila da marca “Stefani” fabricado no Brasil.

Fui excepcionalmente atendido numa loja onde fui comprar o filtro. Em questão de segundos a vendedora digitou meus dados, emitiu o pedido e indicou para eu pagar no caixa. Enquanto ela me atendia, os outros vendedores pareciam passar em câmera lenta. Mas depois de um bom atendimento veio o gargalo no pagamento para mostrar que não basta um elo ser eficiente. O que importa é toda a corrente.

A fila que tinha só uma senhora aguardando era para aposentados e gestantes, e a senhora estava mais para a primeira categoria do que para a segunda, enquanto eu não me qualificava em nenhuma delas. Num sincronismo perfeito, um dos cantores da dupla “Victor e Léo” – não me pergunte qual – que cantava em um mega-show na TV de 42 polegadas ao lado, adivinhou meus pensamentos.

O Victor – ou o Léo, não me pergunte – fez uma pausa e, olhando para a platéia, exclamou: “Nossa! Quanta gente!” Parecia até que ele podia enxergar a fila que eu estava para pegar.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

Uma luta pela vida
Lia Persona

Em uma “Luta pela Vida” Lia Persona compartilha suas emoções e memórias como irmã e enfermeira de seu irmão adotivo portador de paralisia cerebral. A autora intercala seu passado com seu presente; história com realidade; a luta de seu irmão pela vida, com a luta de seus pacientes por suas vidas.

Concorrendo com mais de 650 obras inscritas, esse romance baseado em fatos reais, foi vencedor do Concurso Literário Anjos de Branco e escolhido por uma comissão formada pelos escritores Antonio Olinto, José Louzeiro e Arnaldo Niskier da Academia Brasileira de Letras. A primeira edição de “Uma Luta pela Vida” foi publicada como parte da Coleção Anjos de Branco que inclui os autores Antonio Olinto, José Louzeiro, Helena Parente Cunha, Carlos Nejar, Arnaldo Niskier, Marcos Santarrita, Patch Adams e Maureen Mylander.

Lia persona é enfermeira formada pela Unicamp e atualmente reside com seu marido e seu filho nos Estados Unidos.

Editoras: Clube de Autores, Createspace e AGBook
Ano: 2010
Edição: 2
Número de páginas: 220
Acabamento: Brochura
Formato: Médio

 

Cerebro liquido

Cerebro liquido
por Mario Persona

O médico disse que meu cérebro é 80% água. Será que é por isso que meus pensamentos fluem em um turbilhão de idéias geradas por ondas cerebrais? Pode ser. Ele disse que não preciso andar com tampões nos ouvidos, porque não existe perigo de vazar.

Mesmo assim fiquei preocupado. Dizem que vai faltar água e eu fico pensando se com isso vão faltar cérebros. Ou será que é a falta de cérebros que vai fazer a água desaparecer do planeta? Pode ser, e aí vamos sentir saudade.

Não que o excesso de água não seja um problema. Quando a banheira do vizinho do terceiro andar rachou, pensei até em abrir um pesque-pague em meu corredor. Fez lembrar da outra vez, quando o reservatório do aquecedor do quarto andar explodiu e escaldou o terceiro e o meu.

Precavido, resolvi eliminar a banheira e o aquecedor de meu apartamento, e voltei ao velho e bom chuveiro elétrico. Já viu o tanto de água que uma ducha gasta? Se você for à Europa, pode dar adeus a esse seu banho de caminhão-pipa instalado no teto do banheiro. Lá o chuveiro não esguicha água, solta neblina.

Quando eu disse que ia tomar banho, vi a família da casa européia onde estava hospedado trocar olhares de apreensão. Perguntaram-me três vezes se era isso mesmo que eu queria. Conheciam a fama do brasileiro, que gasta cinco vezes mais água do que a quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde, metade só no banho.

De volta ao Brasil, fiquei em um hotel desses modernos e econômicos. Tudo é mínimo, até a TV é pouco maior que a tela de meu celular. Meu passado de arquiteto achou o modelo inteligente, mas só até a hora do banho. A ducha era de tirar o couro cabeludo, por isso abri só um pouquinho para evitar que meus neurônios saíssem pelo ralo. Afinal, um dia vou precisar daquela água para umedecer meus pensamentos.

O botão da descarga é outro vilão do desperdício. Uma privada antiga gasta de doze a quinze litros de água, enquanto as modernas usam seis litros ou até menos. Em outro hotel vi uma idéia que pretendo adotar na próxima reforma do banheiro. Uma caixa de descarga com dois botões: um para grandes obras e outro para pequenas iniciativas.

Como água é um recurso finito, e a que vai embora é a mesma que irá reabastecer 80% de meu cérebro no futuro, hoje penso duas vezes antes de apertar o botão do adeus. Considero uma insensatez disparar as Cataratas do Iguaçu quando o que vou lançar ao mar às vezes não passa de um mini-submarino. Um leve toque é suficiente para despedir o submersível.

Mas nem todo mundo pensa assim. A preocupação com a pressão do botão evidentemente vai depender da quantidade de massa cinzenta de cada um. Uma coisa, porém, é certa: as longas despedidas só farão aumentar a saudade.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

Agua: Pacto Azul
Maude Barlow

Três cenários conspiram em direção à calamidade…

Cenário um: O mundo está ficando sem água doce. Não é apenas uma questão de encontrar dinheiro para salvar os dois bilhões de pessoas que moram em regiões do mundo que apresentam estresse hídrico. A humanidade está poluindo, desviando e esgotando as fontes finitas de água da Terra, em um ritmo perigoso que aumenta constantemente. O uso excessivo e o deslocamento da água são o equivalente, em terra, às emissões de gases de efeito estufa e, provavelmente, uma das causas mais importantes da mudança climática.

Cenário dois: A cada dia, mais e mais pessoas estão vivendo sem acesso à água limpa. À medida que a crise ecológica se aprofunda, a crise humana também o faz. O número de crianças mortas devido à água suja supera o de mortes por guerra, malária, AIDS e acidentes de trânsito. A crise global da água se tornou um símbolo muito poderoso da crescente desigualdade no mundo. Enquanto os ricos bebem água de alto nível de qualidade sempre que desejam, milhares de pessoas pobres têm acesso apenas à água contaminada de rios e de poços locais.

Cenário três: Um poderoso cartel corporativo da água surgiu para assumir o controle de todos os aspectos da água a fim de obter lucro em benefício próprio. As corporações fornecem água para beber e recolhem a água residual; colocam enormes quantidades de água em garrafas plásticas e nos vendem a preços exorbitantes; as corporações estão desenvolvendo tecnologias novas e sofisticadas para reciclar nossa água suja e vendê-la de volta para nós; elas extraem e movimentam a água através de enormes dutos, retirando-a de bacias hidrográficas e aqüíferos com o objetivo de vendê-la para grandes cidades e indústrias; as corporações compram, armazenam e vendem água no mercado aberto, como se fosse um novo modelo de tênis de corrida.

Imagine o mundo em vinte anos, em que nenhum progresso substancial tenha sido feito para fornecer serviços básicos de água para o Terceiro Mundo; ou para criar leis de proteção à água de fonte e que obriguem a indústria e a agricultura industrial a pararem de poluir os sistemas hídricos; ou para conter a movimentação maciça de água por dutos, navios-tanques e outras formas de desvio, o que terá criado enormes faixas novas de deserto.

Isso não é ficção científica. É para lá que o mundo está se dirigindo, a menos que mudemos o curso – uma obrigação moral e ecológica.

Editora: M. Books
Autor: MAUDE BARLOW
ISBN: 9788576800682
Origem: Nacional
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 200
Acabamento: Brochura
Formato: Médio

 

E a gorjeta, doutor?

Cliente de cliente

Cliente de cliente
por Mario Persona



É fácil um cliente meu me transformar em cliente seu. Se você duvida, experimente me contratar. Deve ser influência de minha mãe, que me ensinou a ser grato ao Banco do Brasil que contratava meu pai. O banco garantia o salário que permitia pagarmos nossas contas e contrair outras.


Como o mesmo banco já me contratou várias vezes, devo muito a ele, inclusive a obrigação de falar bem. Gosto de falar bem de meus clientes, pois quando eles crescem, eu cresço também. Quanto melhor eles saem na foto, melhor saio eu, que faço parte de sua cena. A relação é simbiótica. Você não pensa assim? Conheço gente que não.

Outro dia ouvi um consultor dizer: “Meu cliente é burro, só faz besteira”. Se ele conseguisse ler meus pensamentos saberia que concordei imediatamente. Devia ser muito burro para contratar alguém assim.

Não apenas promovo meus clientes – acabo virando cliente deles. No supermercado, vou direto no café solúvel Iguaçu, que vem com o slogan “O mais cremoso”. Depois que fui contratado pela empresa, virei fã. E como poderia ser diferente, se para motivá-los a vender eu precisava acreditar no que vendem?

Por isso não atendo fabricantes de armas, munições e cigarros, ou organizações religiosas. Não me sinto motivado a promover suas marcas ou ajudá-los a crescer, pois não estou inclinado a usar seus produtos e serviços.

Devo confessar que não é fácil ser cliente fiel de quem me contrata. Quer um exemplo? Até agora pneu para mim é Goodyear, mas o que fazer se outros fabricantes me contratarem? Devo rodar com quatro pneus diferentes? Bem, eles vão precisar pagar para descobrir.

De alguns clientes sou cliente até por falta de opção – dos Correios, por exemplo. De outros eu não compro por motivos óbvios: uma colheitadeira John Deere não caberia em minha garagem. Mas sempre que posso eu indico e assino embaixo, como o próprio John Deere assinava seu nome em seus arados.

Quando atendo marcas concorrentes, prefiro que outros decidam em meu lugar. Por exemplo, é o meu médico da Unimed quem decide se o medicamento vai ser Astrazeneca, Aché, Merck Sharp & Dohme, Novartis ou Pfizer. Por que tantos laboratórios me contratam? Deve ser por ter passado dos cinquenta e me considerarem um cliente com potencial.

Às vezes dependo de um cliente para ser cliente de outro. É o caso da Caixa Econômica Federal, que ainda vai me ajudar a comprar um carro da Volvo que atendi. Apesar de meu carro atual não ser um, deve ter sido feito com aço Gerdau ou Villares e usar rolamentos SKF. A Petrobrás faz ele rodar até o Pão de Açúcar para eu comprar o panetone Bauducco, que chega ali num caminhão Volkswagen. Sim, todos também estão na lista de clientes em meu site na Locaweb.

Ainda não uso aparelhos auditivos Phonak, mas tudo indica que um dia eu chego lá. Sempre que treino sua equipe, revelo ter uma perda auditiva que me qualifica como cliente em potencial. Você precisa ver como a turma presta atenção no treinamento e se esmera em aplicar em mim as técnicas de vendas que ensino.

Eu não tinha preferência por xampu, até ser contratado para um ciclo de palestras da linha “Seda Cocriações”. Até na Caras a minha foto foi parar. Adivinha o que acabo de usar no banho? Felizmente ainda tenho cabelos para ser fiel à marca, mas minha frustração é com os pés – são grandes demais para calçar um Pimpolho.

Se leu até aqui não o culpo por torcer para eu ser logo contratado por um hospital psiquiátrico. Pode apostar que tem sido difícil viver com essa mania de usar produtos e serviços de empresas que me contratam. Chega a ser aterrorizante.

Não faz muito tempo fui consultado para uma palestra para funcionários de uma penitenciária. Outro pedido veio de um evento para donos de funerárias. Não me neguei a atendê-los, mas fiquei aliviado por não me contratarem. Agora, cada vez que o telefone toca, eu tenho um sobressalto. E se for a De Millus?

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

O Que Você Faz que Agrada os Seus Clientes?
David Freemantle

Este livro baseia-se em um estudo de diversas empresas em dezenove países sobre o que leva ao sucesso ou ao fracasso no serviço de atendimento ao cliente. As empresas que se destacaram constantemente agregaram valor emocional com três atributos: Criatividade, Conectividade Emocional e Integridade.

David Freemantle examina estes atributos inter-relacionados com a psicologia subjacente necessária ao seu desenvolvimento. Ao fazê-lo realça os três motivadores-chave – Energia, Direcionamento Emocional e Espírito – que permitem às pessoas da linha de frente agregar valor emocional ao serviço que prestam.

O Que Você Faz Que Agrada aos Seus Clientes? provará ser uma leitura essencial para todos que desejam descobrir os elos que faltam para fornecer o melhor serviço de atendimento ao cliente. Como todos os best-sellers anteriores de David Freemantle este livro é excepcionalmente fácil de ler e altamente prático.

Ele mostra que, agregando-se valor emocional (e-value) a tudo que uma empresa e seu pessoal fazem, a probabilidade de agradar aos clientes aumenta, juntamente com a rentabilidade. Em um mundo competitivo é relativamente fácil copiar produtos e preços, mas é praticamente impossível copiar pessoas e marcas.

O acréscimo do valor emocional está no cerne do debate sobre gerenciamento de pessoal e serviços de atendimento ao cliente. Os clientes querem ser apreciados pelas pessoas que os servem.

Editora: Makron Books
Autor: DAVID FREEMANTLE
ISBN: 8534612234
Origem: Nacional
Ano: 2001
Edição: 1
Número de páginas: 304
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



Minha bicicleta high-tech

Minha bicicleta high-tech
por Mario Persona



Quando vi pela primeira vez aquele tudo-em-um do iPhone, fiquei com um pé atrás. Será que me acostumo com esse negócio de cineminha e telefone no mesmo aparelho? Se tem uma coisa que detesto é telefone tocando no meio do filme. Você já correu atender um telefone que tocou no filme da TV? Eu também.


Outra coisa me preocupa. Quando todo mundo tiver um iPhone, vai ficar todo mundo igual, como aconteceu com o iPod e seu fonezinho branco. Massificou. Com o iPhone ninguém mais será diferente.

Além disso, o que fazer com aquele monte de apetrechos que hoje carrego? Sim, minha coleção só aumenta! Tenho um celular básico, Palm, câmera fotográfica, filmadora, gravador de mp3, pen drive… Você precisa ver a inveja que causa espalhar tudo isso sobre a mesa numa reunião. Com um iPhone eu não causaria o mesmo impacto.

Tudo bem que não estou mais na idade de querer impressionar, mas e a garotada? Como um garoto vai se diferenciar se todos os garotos forem iguais? No meu tempo eu teria odiado se fizessem isso com as bicicletas.

Naquela época as magrelas vinham peladas e a diversão era enchê-las de penduricalhos. A minha era uma Phillips, do tempo da 2ª Guerra, mas não era preta como a maioria das bicicletas da época. Meu pai mandou pintá-la de vermelho para minha irmã. Ela se cansou e eu herdei a dita.

Bicicleta vermelha, de mulher e sem aquela barra horizontal masculina. Dá pra imaginar? Era sair de casa e atrair a gozação da garotada. Por isso passei a gastar a mesada em acessórios para deixar a bicicleta tão diferente que os meninos se esquecessem de que era de mulher.

Comecei com a campainha que fazia “trrrim-trrrim”. Depois foram os canudinhos de plástico coloridos, cortados em pedacinhos e pacientemente colocados nos 72 raios das rodas. Faziam “shek-shek”. O garfo dianteiro ganhou um pedaço de radiografia que lambia os raios e fazia “Prrrréééé”, igual ao da motocicleta Java do vizinho. Pelo menos eu achava.

“Prrrréééé”, “shek-shek”, “trrrim-trrrim”, “biii-biii!”. Não falei do “biii-biii”? Pois é, foi minha próxima aquisição: uma buzina verde movida a pilha que fazia inveja à campainha do outro lado do guidão, junto ao retrovisor. Depois veio o farol com dínamo, todo cromado, que parecia a nave do Flash Gordon. Minha bicicleta ficava cada vez mais high-tech.

Minha volúpia por acessórios não parou aí. Manoplas de borracha com fitinhas coloridas e uma caixinha de ferramentas pendurada atrás do selim vieram em seguida. A cada novo acessório os garotos cercavam minha bicicleta na escola para comentar e invejar. Meu conceito subia.

Quase me esqueci da capa do selim com o símbolo do Palmeiras. Não que eu fosse torcedor, apenas comprei porque combinava com a buzina. A capa era a última palavra em cafonice, com apliques de purpurina e pingentes de cordão de seda. Os palmeirenses pensavam que eu era fã e os corinthianos achavam o contrário. Que fã iria pedalar com o símbolo do clube naquele lugar?

Naquele tempo não havia duas bicicletas iguais, pois o mau gosto dos meninos era bem eclético. Na época, comprar algo com tudo instalado, como o iPhone, seria como comprar um álbum com as figurinhas já coladas. Cadê a graça? Cadê a surpresa? Como se gabar de ter a figurinha do Amarildo, da Seleção de 62, que ninguém tinha?

Agora imagine tudo num aparelhinho só: música, fotos, filmes, celular, câmera, Web, e-mails, mapas… É claro que estou falando da garotada, que quer ser diferente. Para alguém como eu, que não pedala e nem coleciona figurinhas, um iPhone pode até interessar.

Vou poder assistir um filme, enquanto filmo outro, ouço bossa-nova, ligo para os amigos, navego na Web, leio meus e-mails e dirijo procurando o endereço no mapa on-line. Não contei que estava dirigindo? Melhor não…

Mas ainda estou em dúvida se devo ou não comprar um iPhone. É que para mim não ficou claro uma coisa: se o meu iPhone tocar no meio do filme que estou assistindo no próprio iPhone, quem deve atender? Eu ou o ator?

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

Domine Seu iPhone
Marcelo Castro

O iPhone está sendo considerado a maior invenção tecnológica dos últimos tempos. Desde seu anúncio, não pára de encantar as pessoas. Os usuários deparam-se com um verdadeiro arsenal de recursos e programas que o tornam muito mais que um simples telefone, como também uma ferramenta indispensável para as atividades do dia a dia. A navegabilidade das aplicações foi desenvolvida de maneira fácil e intuitiva para atender um público cada vez mais exigente. Você perceberá o grande potencial do iPhone à medida que se familiarizar com os dispositivos dele.

O aparelho e seus aplicativos oferecem diversos recursos, porém as informações e dicas de como melhor utilizá-los encontram-se espalhadas na web e no idioma inglês. Dessa forma, a maioria dos usuários no Brasil não pode ainda encontrar todas essas dicas em um único local e em português. Foi pensando em apresentar esses recursos do iPhone com uma linguagem amigável, clara e direta que decidimos escrever este livro. Seu objetivo é oferecer aos usuários, de forma ilustrada e detalhada, as dicas que maximizam o potencial do aparelho. Esperamos que as informações que você encontrar ajudem-no a dominar seu iPhone.

Editora: Novatec
Autor: MARCELO CASTRO
ISBN: 9788575221853
Origem: Nacional
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 112
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



Um avatar no meu quintal

Um avatar no meu quintal
por Mario Persona



Juntando os comentários na Web sobre o ativismo ecológico de James Cameron na Amazônia, a mensagem de quem reclama é uma só: O cara não tem nada que se intrometer no meio-ambiente daqui. Será?


A verdade é que as questões ambientais não têm fronteiras. Como na Pandora do filme Avatar, vivemos num mesmo planeta onde tudo afeta a todos. Uma erupção na longínqua Islândia vai parar no seu pulmão, quer você consiga pronunciar o nome do vulcão ou não.

Sem tirar de James Cameron o direito de defender índios e flechar hidrelétricas, eu só diria a ele: “Menos, James, menos…”

Por que? Porque ele está com o rabo preso em uma sociedade de consumo que polui para sobreviver. É admirável sua disposição para defender nativos de pele vermelha ou azul, mas também admiro quem defende as hidrelétricas como opção de energia limpa e barata.

É claro que colocar uma rolha no Rio Xingu gera impacto sócio-ambiental, mas não existe opção rápida para pessoas ávidas para assistir Avatar numa nova TV em 3D, como eu e você. Pouco a pouco vamos aprendendo a ordenhar o vento e o sol, mas ainda é debalde para a atual demanda de energia. Por um bom tempo continuaremos dependendo da hidrelétrica, do átomo e dos combustíveis fósseis para quase tudo, inclusive para fazer filmes

Sabia que Hollywood é a segunda indústria mais poluente da região? Pois é, e o governador da Califórnia está empenhado em reverter isso. É o mínimo que pode fazer quem já foi o exterminador do futuro. Somos tão dependentes da indústria petroquímica, que até para protestar contra o combustível fóssil dependemos do dito sujo. Os motores dos navios do Greenpeace não são movidos a boas intenções, e aqueles caras não fazem rapel com cordas de sisal biodegradáveis.

O calor do protesto pode aquecer a opinião pública global, mas as soluções costumam vir de quem fala menos e faz mais. Mesmo assim, quem fala deve continuar falando, consciente de que estamos todos de rabo preso no atual modelo de desenvolvimento. Inclusive você, que usa a Internet. De acordo com o Daily Telegraph, a cada duas buscas no Google você gera tanto CO2 quanto para ferver seu chá.

Ativistas radicais sugerem deixar o mato crescer, esquecer as hidrelétricas e não mexer com o índio. A questão é que o índio não é tonto. Hoje ele também quer transporte, luz, Internet e celular. Querer viver índio com cabeça de consumo é repetir a tragédia asteca. Pode funcionar para uma tribo de meia dúzia, mas não funciona para uma tribo de meia dúzia de bilhão.

A visão romântica de meus anos de ativista universitário, com cada um morando numa casinha branca no mato e assando seu próprio pão, é pura ilusão. Na época, fui morar no mato e fiz até uma canção para embalar meu sonho. Mas não é preciso ser muito inteligente para entender que mil pães assados num único forno gastam menos energia do que mil fornos assando cada um o seu pão.

É por isso que cidades empilhadas e apinhadas ainda são mais eficientes do que condomínios horizontais, com casas esparsamente polvilhadas em extensos gramados. Apartamentos gastam menos energia, encanamento, fiação, superfície impermeabilizada, transporte etc. Quanto mais gente você empilhar, menos energia vai gastar.

Mas não se torture se morar numa mansão. James Cameron mora em uma construída e mantida às custas de muito combustível fóssil em um oásis artificial no deserto. Como eu já disse, todos nós temos o rabo preso, mas se for para o bem do planeta, até vale adotar o Avatar mais adequado ao papel de salvador da Pandora amazônica.

Até eu tenho o rabo preso nos atuais meios de transporte altamente poluentes, pois para fazer palestras de meio-ambiente e outros assuntos, viajo de carro ou avião. Não posso viajar nos cavalos de seis pernas de Pandora, ou voando em seus dragões alados. E ainda que pudesse, não seria diferente dos habitantes de lá. Afinal, no filme eles também só conseguem viajar quando estão com o rabo preso.

resenha resenhas resumo resumos livro livros crítica críticas opinião opiniões literatura literaturas comentário comentários

Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso
Jared Diamond

O que é mais assustador do que o espectro do colapso de uma civilização ? os restos dos templos abandonados de Angkor Wat, no território do Camboja, das cidades maias tomadas pela selva ou a vigília sombria das estátuas da ilha de Páscoa? A imagem dessas ruínas sugerem a pergunta: Será que isso também não pode acontecer conosco?

Em seu best seller ganhador do Prêmio Pulitzer, “Armas, germes e aço”, Jared Diamond investiga como e por que as civilizações ocidentais desenvolveram tecnologias e imunidades que permitiram que dominassem a maior parte do mundo. Em Colapso ? Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso, Diamond analisa a outra face da moeda: o que fez com que algumas das grandes civilizações do passado entrassem em colapso e o que podemos extrair disso.

Assim como em sua obra anterior, Armas, germes e aço, Diamond tece uma tese global abrangente através de uma série de fascinantes narrativas histórico-culturais. Abordando desde a cultura da Polinésia pré-histórica na ilha de Páscoa às outrora florescentes civilizações nativo-americanas dos anasazis e maias, o autor analisa as causas da decadência da colônia viking medieval na Groenlândia e chega ao mundo moderno.

Com isso, traça um panorama catastrófico e mostra o que acontece quando desperdiçamos nossos recursos, ignoramos os sinais de nosso meio ambiente, quando nos reproduzimos rápido demais ou cortamos árvores em excesso. Danos ambientais, mudanças climáticas, rápido crescimento populacional, parceiros comerciais instáveis e pressões de inimigos foram fatores na queda de algumas sociedades, contudo outras sociedades encontraram soluções para esses mesmos problemas e subsistiram.

O que torna um ambiente mais frágil que outro? Por que algumas sociedades, e não outras, incorrem na autodestruição? Problemas similares nos ameaçam hoje e já acarretaram desastres em Ruanda e no Haiti; enquanto China e Austrália tentam responder aos desafios de modo inovador. Apesar da aparentemente inesgotável riqueza de nossa sociedade e poder político incomparável, sinais de alerta começam a emergir em áreas ecologicamente saudáveis, como nos vales de Montana, nos Estados Unidos. Que escolhas econômicas, sociais e políticas ainda podemos fazer para não termos o mesmo fim?

Diamond mostra como o colapso global pode ser evitado, analisando civilizações do último milênio, e investiga por que umas se extinguiram enquanto outras prosperam. Mostra como as causas ambientais (mudança climática causada pelo homem acúmulo de lixo químico, falta de energia e superutilização da capacidade de fotossíntese), mais que guerras de povos e culturas. Explica o que seriam as decisões autodestrutivas mais recorrentes na História, com o objetivo de evitar catástrofes coletivas e reverter valores incorporados às sociedades.

Editora: Record
Autor: JARED DIAMOND
ISBN: 8501065943
Origem: Nacional
Ano: 2005
Edição: 1
Número de páginas: 685
Acabamento: Brochura
Formato: Médio