Susan Boyle e o Elo Perdido

Susan Boyle e o Elo Perdido
por Mario Persona



Das duas, uma: ou aquela figura neandertalesca, de cabelos desgrenhados e olhos miúdos entre sobrancelhas cerradas e maçãs salientes, é uma pegadinha, ou o programa “Britain’s Got Talent” acaba de encontrar o elo perdido.



http://www.youtube.com/watch?v=z1qSYP-dsZM

Das duas, nenhuma. Aquela caricatura de mulher é Susan Boyle e sua presença no palco abre um tonel de zombarias. Quando Susan revela seu sonho de ser cantora profissional, como Elaine Paige a canadense Ellen Page, com metade da sua idade e um terço do seu peso*, a plateia debocha.

No júri, a atriz Amanda Holden, emoldurada pelo cético Piers Morgan e pelo acético Simon Cowell, se esforça para fazer cara neutra de paisagem, mas seu belo rosto parece dizer: “Isso vai ser divertido”. Pelo menos até a voz de Susan acentar os primeiros acordes de “I dreamed a dream”. Aí o queixo de Amanda cai, literalmente.

A platéia vai ao delírio. Em poucos dias Susan Boyle é vista mais de cem milhões de vezes no Youtube e muito mais na mídia global. O título da obra de Victor Hugo, “Os miseráveis”, que a canção evoca é emblemático.

Susan Boyle é uma miserável cantando para miseráveis. Feia, deficiente e sem jamais ter tido um namorado, ela é tudo aquilo que nenhum de nós gostaria de ser, mas somos. Quando começa a cantar, porém, até Amanda Holden quer ser Susan. Ela aplaude de pé, e o jogo de câmeras contrasta o seu corpo esguio com a silhueta de canhão que ribomba no palco.

Talvez o correto não seja dizer que ‘somos’ miseráveis, mas sim que ‘estamos’ miseráveis, do mesmo modo que hoje Susan ‘está’ feia e Amanda ‘está’ linda. Em cinquenta anos o corpo de Amanda, hoje sensual, também será canhão, e sua pele, agora de pêssego, se transformará num maracujá de gaveta. Os miseráveis no júri e na plateia aplaudem porque torcem por Susan e por si mesmos, igualmente carentes de amor e perfeição, ainda que sob diferentes camadas cosméticas.

Estranho ser, esse humano! Almejamos padrões de bondade, justiça e beleza que sempre estão muito acima do que podemos alcançar. De onde será que vem isso? Vivemos na terra, mas de olho nas estrelas, porque trazemos em nós um sentimento de infinitude. É como se Deus tivesse plantado a eternidade em nossos corações. Se é que não plantou.

O paradoxo, porém, é que esse mesmo humano, capaz de proezas do talento e do pensamento infinitamente superiores a qualquer outro ser vivo, também é capaz de atrocidades nunca vistas na mais medonha fera irracional. Matamos nossos filhos para comê-los no jantar, mas também criamos um número infinito de filigranas a partir das mesmas e perfeitas sete notas musicais, como Susan faz no palco.

E ao cantar, ela nos lembra de que existe no humano uma dignidade além do que aparentamos ser. Trata-se do sopro divino, algo que nenhum animal recebeu. Por isso Deus não desistiu de sua criação e quis Se revelar em humanidade numa Pessoa perfeita, Jesus, ainda que miserável em sua tez exterior.

É por isso que torcemos por Susan Boyle, como quem torce pela Fera da Bela, pelo Corcunda de Notre Dame e pelo Frodo dos pés peludos de “O Senhor dos Anéis”, vivendo sob a contínua tentação do anel. Nós nos identificamos com heróis fracassados porque acreditamos que ainda podemos ser amados, resgatados e transformados desta miserável condição. É como se sentíssemos saudade do Paraíso.

Susan Boyle não é o elo perdido. Ela apenas revelou que o elo existe, mas não com algum símio ancestral. Sob aquela semelhança feia, miserável e transitória foi possível ver um ser criado à imagem de Deus. Quem estava no palco não era uma pessoa estranha. Naquele palco eu vi a mim mesmo, como Deus me vê e me ama. E também vi você.

“Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”. 1 Coríntios 13:12


* Errata: Ao contrário do que eu e milhares de sites e blogs disseram, Susan Boyle é fã de Elaine Paige e não de Ellen Page. O sotaque escocês dela me confundiu.

English version

Assista no site do programa Britain’s Got Talent a versão completa do programa com Susan Boyle.

Assista aqui a versão legendada em português.

Les misérables
Versão de Cláudio Botelho para a peça no Brasil

Já houve um tempo de homens bons
De palavras gentis
E de vozes mansas.

Já houve um tempo de outros tons
E de tantas canções
E de tantas lembranças
E tanto mais
Que já não há.

Eu tinha um sonho pra viver
Um sonho cheio de esperança
De que um amor não vai morrer
E deus perdoa e não se cansa
Eu era forte e sem temor
E os sonhos eram de verdade
Não tinham preço nem valor,
Canções e sons pela cidade.

Mas a noite então caiu
E na noite tantas feras
Me rasgaram o coração
E tudo aquilo que eu sonhei.

Foi num verão que surgiu
Me oferecendo a primavera
Me prometeu mas não cumpriu,
Pois foi embora e eu fiquei.

E hoje eu sonho que vem
E nos seus braços eu me entrego.

Mas sei que é sonho e nada além
Dos velhos sonhos que eu carrego.

Eu tinha um sonho pra viver
Mas eis que a vida foi mais forte
E de repente eu acordei
Mataram tudo o que eu sonhei.

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A Fé na Era do Ceticismo – Timothy Keller
Apesar de uma minoria continuar a atacar a fé cristã, para a maioria das pessoas, a fé ocupa uma grande parte de suas vidas. Durante anos, Tim Keller formulou uma lista das dúvidas mais freqüentes dos céticos que freqüentam sua igreja em Manhattan. Em The Reason for God, ele destrincha e explica cada uma delas. Pensando nos ateus, agnósticos e céticos, Keller também construiu um pilar contra o qual os verdadeiros fiéis podem se apoiar quando forem bombardeados pelos que contestam sua fé. Por que há tanto sofrimento no mundo? Como pode um Deus amoroso deixar seus filhos irem para o inferno? Um Deus cristão não deveria ser um Deus de amor. The Reason for God vai ao cerne dessa questão religiosa e aponta o verdadeiro caminho e objetivo do Cristianismo.

Editora: Campus
Autor: TIMOTHY KELLER
ISBN: 9788535231045
Origem: Nacional
Ano: 2008
Edição: 1
Número de páginas: 300
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



Café com o presidente e comigo

Café com o presidente e comigo
por Mario Persona



Ontem muita gente que não era nada acordou jornalista, inclusive eu. Bem, a verdade é que nos últimos anos já fui jornalista, ora sim, ora não, por ser detentor de um registro de jornalista a título precário no MTB. Tudo começou quando me preocupei com as colunas que escrevia para jornais e revistas sem ser jornalista formado, mas arquiteto e urbanista.


Uma consulta feita por uma amiga a um sindicato de jornalistas retornou assim:

“Você só poderia estar legalmente escrevendo sobre arquitetura ou assuntos relacionados com a sua área de conhecimento… Portanto, você não poderia estar escrevendo em nenhum veículo de comunicação. Assim, recomenda-se o curso de Jornalismo, ou seja, a graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, para futuramente requerer o seu registro no MTB.” Minha amiga ainda perguntou se isso incluía a Internet e a advogada respondeu que sim.

Por isso quando em 2001 uma liminar suspendeu a exigência de diploma, corri entrar com um pedido de registro no MTB, anexando recortes de minhas colunas em jornais e revistas. Preocupava-me a possibilidade de algum sindicato decidir me amordaçar. Afinal de contas, se os concursos públicos utilizam meus textos na seleção de profissionais de diferentes profissões, não é só minha mãe que achava que eu levava jeito para a coisa.

O Google me ajudou a descobrir que meus textos já caíram em concursos para engenheiros, professores, enfermeiros e até médicos psiquiatras. Não me pergunte o que pediam as questões. Nem procurei saber, com medo de não conseguir respondê-las ou descobrir algo como “Encontre os erros no texto de Mario Persona”.

Mas a partir de hoje já posso dizer que sou jornalista, pois se o Supremo Tribunal Federal diz que sou, acabou aquela história de ser ou não ser, e ninguém vai contestar a questão. É claro que o anúncio do Planalto feito na véspera, de que o presidente Lula escreverá uma coluna para os jornais a partir de julho, foi apenas coincidência. Agora eu e o presidente, que já atuava como radialista, somos colegas de profissão. Penso até em convidá-lo para uma parceria. Não se espante se o “Mario Persona Café” virar “Café com o presidente e comigo”.

Teve jornalista que saiu da pauta com o presidente do Supremo Tribunal Federal, por este ter comparado jornalistas a chefes de cozinha. Eu jamais me intrometeria nessa discussão, mas já que sou jornalista sinto-me no dever de fazê-lo em defesa dos interesses da classe.

Quer saber? Também não gostei de ser comparado a um chefe de cozinha, porque chefe de cozinha pode ser qualquer um que manda o empregado da pastelaria fritar pastéis. Nada contra os pastéis.

Mas eu acho que o presidente do STF quis dizer “chef”, em francês, um artista do sabor, desses que vejo na TV preparando pratos cinematográficos enquanto como meu miojo. Aí sim, adorei. Um chef e um jornalista têm muitas coisas em comum que não são aprendidas na escola, mas dependem de talento.

Ambos têm senso artístico para esculpir pratos e textos saborosos. Se o chef é capaz de discernir temperos apenas com o paladar, o cérebro do jornalista é dotado de papilas gustativas que discernem a informação. Os dois são capazes de depurar o que há de melhor na matéria bruta de cada profissão e servir apenas o que importa. A isto se dá o nome de poder de síntese. O jornalista está mais para chef, artista ou músico, do que para engenheiro, físico ou advogado.

– E a ética?! – gritará alguém. Você já viu diploma transformar picareta em caneta? Ética e responsabilidade têm mais a ver com berço do que com terço, portanto decorar Sócrates, Aristóteles e Platão não irá adiantar. De criatividade, então, nem preciso falar. O ensino cartesiano é um grande lobotomizador de hemisférios direitos.

Quem faz faculdade ou deu duro para terminá-la está agora chorando num canto da fila do emprego ou da Caixa Econômica Federal, onde fez um empréstimo para pagar o curso. Sei o que é isso, pois um dia também vi meu diploma virar fumaça, não por uma decisão do STF, mas pelas circunstâncias do mercado de trabalho. Quer saber? Hoje estou bem melhor trabalhando como consultor, palestrante e escritor.

Mas isto não significa que não possa mudar de profissão. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal e as declarações de seus ministros fiquei muito animado a tentar uma nova e lucrativa carreira. Vou abrir um restaurante.

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Arte de Escrever Bem: um Guia para Jornalistas e Profissionais do Texto – DAD SQUARISI & ARLETE SALVADOR
Escrever é fundamental. Afinal, quem, nos dias de hoje, não precisa mandar mensagens pelo correio eletrônico, escrever relatórios, fazer vestibular, ou produzir uma matéria jornalística? Este livro, inicialmente destinado a jornalistas e profissionais do texto, é o mais claro e bem humorado que qualquer um que precise escrever bem pode obter. Donas de texto impecável, agradável e atual, Dad Squarisi e Arlete Salvador mostram como é possível redigir de modo adequado e despretensioso.

Editora: Contexto
Autor: DAD SQUARISI & ARLETE SALVADOR
ISBN: 8572442790
Origem: Nacional
Ano: 2004
Edição: 1
Número de páginas: 112
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



Parem as máquinas!

Parem as máquinas!
por Mario Persona



Quando eu era criança, se alguém me perguntasse qual seria o futuro do jornal eu saberia responder: o açougue. É que na época eu achava que jornal eram aquelas folhas enormes que entravam em nossa casa de duas maneiras: para meu pai ler ou embrulhando a carne.


Hoje sei que jornal não é a plataforma que ora transporta as letras, ora a carne. Ainda que o jornal de papel desapareça, o papel do jornal não vai desaparecer, pois o jornal é o blog da História. É nele que dona História registra diariamente aquilo que depois será estudado na academia.

Há alguns anos um grande jornal pediu uma proposta para uma palestra. Os diretores queriam conhecer minha opinião sobre o impacto das novas tecnologias em seu negócio. Enviei a eles uma proposta contendo os tópicos abaixo, que podem servir de axiomas para o futuro do jornal impresso. Fique avisado de que escrevi mais nas entrelinhas do que nas linhas.

– NEGÓCIOS –
O negócio do jornal não é imprimir papel, mas causar impressões com sua investigação, análise e interpretação dos fatos.

– VEÍCULOS –
O fabricante do Cadillac não conseguia entender a razão da queda nas vendas, até perceber que os donos de Cadillac estavam morrendo.

– HORÓSCOPO –
As expressões “the future of the radio”, “the future of the television” e “the future of the newspaper” aparecem, respectivamente, 30 mil, 90 mil e 990 mil vezes numa busca no Google. Quando tem muita gente olhando para o telhado é porque sua gata deve ter subido lá.

– POLÍCIA –
É difícil competir com a lesão ao vivo e em cores dos meios multimídia. Finalmente o jornal conseguiu se livrar do estigma da máxima que diz que “se não sangrar, não tem audiência”. Pior para ele.

– TEEN –
A geração atual aprendeu a ler no videogame, mas quando a pesquisa pergunta ao jovem se ele lê jornal de papel ele diz que sim com pinta de intelectual. Pesquisados são mentirosos e pesquisas são ingênuas.

– ECONOMIA –
A verba de propaganda foi tão pulverizada que agora a briga por ela é entre o conglomerado com 10 mil funcionários e o blog do Zezinho, aquele seu sobrinho.

– ESPORTES –
O consumo de banda e computação móvel cresce. É covardia deixar seus caracteres de tinta correrem na mesma raia dos pixels multimídia.

– CLASSIFICADOS –
Os classificados foram desclassificados e reclassificados pelo Google e pelo eBay. O balcão de anúncios foi colocado à venda lá.

– TURISMO –
Insistir que a informação continue limitada ao papel é obrigar os aviões a viajarem em trilhos. Questão de bom senso na logística de distribuição.

– CULTURA –
Na era do RSS (Real Simple Syndication) e da remixagem digital, a tecnologia desbanca a autoria individual, quando genérica e sem sal, e cria colchas de retalhos de informação em cores mais vibrantes.

– OBITUÁRIO –
Vale para o jornal impresso o que vale para o rei: “O jornal morreu. Viva o jornal!”

Você deve estar curioso para saber se aquele jornal gostou da proposta. Provavelmente não, porque não me contratou. Às vezes você precisa dizer aquilo que seu cliente quer ouvir, às vezes não.

Existe uma tendência perigosa no ser humano de buscar por opiniões que não dêem trombada em sua opinião formada. Perguntado sobre a razão do desinteresse da nova geração em comprar jornais, um especialista que presta serviços para grandes conglomerados respondeu: “Deve ser porque os jovens estão lendo o jornal comprado pelos pais”. Ingenuidade ou conveniência?

Não, eu não sei informar se foi esse que o jornal contratou para a palestra.



Será que a solução para os jornais está no novo Kindle DX com página tamanho grande?


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O Destino do Jornal – Lourival Sant´anna

Resultado de uma excelente combinação de rigor jornalístico e metodologia acadêmica na análise de um dos fenômenos mais fascinantes da comunicação social. Lourival Sant´Anna registra a situação dos grandes jornais brasileiros num momento histórico para o meio, que sofre uma crise sem precedentes em várias partes do mundo devido à presença da internet.

Do site “Master em Jornalismo”: “A obra contribui sobremaneira para o entendimento do cenário por que passam os grandes jornais brasileiros em mais um momento de transição, profundamente afetado com a massificação da internet. Mais do que oferecer uma “crônica da morte anunciada” dos jornais, Lourival procura analisar a questão a partir de três fatos estruturais: a concorrência cada vez mais acirrada do meio digital; a mudança nos hábitos de leitura, o que explica o consumo de informação dos jovens ser bem maior diante da tela do computador; e a inovação tecnológica, que permite uma interatividade a uma velocidade e custo absolutamente impossíveis no impresso.” Continua aqui

Editora: Record
Autor: LOURIVAL SANT´ANNA
ISBN: 9788501081506
Origem: Nacional
Ano: 2008
Edição: 1
Número de páginas: 272
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



Vagamente oportuno

Vagamente oportuno
por Mario Persona



Na TV os noticiários apontam para baixo. Os sete anos de fartura do Egito norte americano terminaram e, ao contrário do que fez o José do Egito dos faraós, a turma do George se esqueceu de poupar para a carestia que virá.


Uns perdem, outros ganham. Aquela que foi a ruína para muitos povos do mundo antigo foi a gênese de Israel. Curiosamente, enquanto escrevo as bolsas do mundo despencam e a de Tel-Aviv sobe. Será que entendi errado o gráfico? Pode ser. De qualquer modo tenho certeza de que daqui pra frente tudo vai ser diferente.

Os comentaristas e economistas se revezam tentando explicar o que vai acontecer. Alguém sabe? Presidentes prometem que medidas serão tomadas. Vão começar pelo busto, pela cintura ou pelo pescoço? O telefone dos consultores que mandaram os norte-americanos poupar para a aposentadoria comprando ações de empresas centenárias não atende. O pessoal que faz horta orgânica está correndo de pá e carriola para Wall Street. Dizem que lá tem um touro que produziu um bocado.

Enquanto os alemães saem para comprar cofrinhos residenciais, os britânicos perguntam onde foi parar o dinheiro que depositaram na Islândia, país que fica em cima de um vulcão, tem uma população igual à de Caucáia no Ceará e um PIB menor que o rombo de seu sistema bancário. Já que em inglês Islândia é Iceland, meu palpite é que o dinheiro está no freezer.

O mundo inteiro põe a culpa em Dona Ganância, que mora entre o México e o Canadá, mas ninguém quer admitir que desfrutou de sua companhia. Seus gigolôs grisalhos, que até outro dia ocupavam as capas das revistas com títulos de CEO, devem voltar a aparecer nelas na condição de réus.

Aqui o consulado dos EUA faz mutirão para emitir vistos, e eu me pergunto se é urgência de fazer caixa. Lá a campanha presidencial segue ao som de “Caminhão na Banguela”, e ambos os candidatos à Casa Branca prometem ter a solução para o problema. Por que não elegem os dois?

No intervalo do noticiário da CNN entra o patrocinador do quadro “Inside Africa”, um banco da Nigéria, convidando os investidores a migrarem para lá. Não, não tem nada a ver com aqueles e-mails que você recebe prometendo parceria na herança de um ex-dignatário africano. É coisa séria e a África promete. Como promete o Brasil.

Que loucura, de repente me sinto no país mais seguro do mundo, com um sistema bancário que não se deixou corromper, e com um dos maiores mercados internos do futuro. Será que o futuro chegou? É o que dizem. Quem sabe agora os investidores brasileiros aprendem que a grana do vizinho não é mais verde e decidem investir aqui.

Toda crise gera oportunidades e acaba virando uma dança das cadeiras. Numa crise mundial até as cadeiras desaparecem, mas sempre tem alguém atento para perceber isso e fabricá-las. Se alguma empresa daqui vai quebrar? Vai. As que funcionavam com a versão antiga do mercado e não rodam a versão nova vão travar. Outras irão ocupar seu lugar.

Uma empresa me consultou sobre uma palestra para incentivar seus vendedores a enxergarem as oportunidades que irão surgir quando seu principal concorrente desaparecer. Isso é o que eu chamo de ficar de olho nas oportunidades.

Não se preocupe, nessa hora não vou fazer discurso motivacional ufanista, desses que falam do verde de nossas matas, do azul de nosso céu, do amarelo de nosso ouro e do branco… O que era o branco mesmo? O momento é de humildade e de caminhar sobre ovos, mesmo na busca por oportunidades. Por isso coloquei o título “Vagamente oportuno”.

Afinal, a Bovespa daqui também está caindo, apesar de nosso presidente ter declarado há alguns dias que a crise dos EUA ainda não tinha atravessado o Atlântico. Pelo jeito agora atravessou, mas tenho uma dúvida. A crise fez esse caminho por estar desnorteada ou porque o Brasil agora fica na África?

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O Boom e a Bolha: os Estados Unidos na Economia Mundial – ROBERT BRENNER

“Em O BOOM E A BOLHA, Robert Brenner analisa como a economia globalizada e seus poderes dominantes formataram um ao outro. Com argumentação saborosa e solidez acadêmica, Brenner aponta a fragilidade da atual linha de comportamento do capital, tomando por base as crises financeiras que abalaram a Coréia do Sul, Rússia e Brasil, no final de 1998.

Tudo teria começado com a competição de rivais de indústrias americanas, baseados na Alemanha e no Japão, e fundamentado com níveis absurdos de empréstimos e supervalorização no mercado de ações. Um esquema que contou com a cortesia de dinheiro fácil, disponibilizado pelo Federal Reserve e operações de compra e recompra de ações entre as corporações dos Estados Unidos.

Um período de constante crescimento econômico nos Estados Unidos parecia salvar a situação contra todas as expectativas. A aparência desta missão de resgate americana foi tão impressionante que proclamou-se o advento de uma ´Nova economia´, trazendo um novo paradigma de crescimento ilimitado e harmônico. Mas este sistema nunca se livrou da síndrome da superprodução, que continua a afligir a economia global.

Quando a recessão impôs-se como fato consumado, o entusiasmo com os start-ups da internet foi reavaliado como uma onda passageira, e as ações das empresas de alta tecnologia despencaram. Mesmo assim, os especialistas ainda estão longe de entender o que realmente motivou este boom, porque este boom tornou-se uma bolha e porque a bolha murchou.



Conectividade

Conectividade
por Mario Persona



No balcão da lanchonete do aeroporto, dois cartazes enormes anunciavam: “Café No. 1: café, leite, pão etc.” e “Café No. 2: chá, suco, frutas etc.” Acomodei-me numa mesinha e a garçonete se aproximou.


– Por gentileza, um “Café No. 2” – pedi, preferindo me manter light antes do vôo.

– Hein?! Café para dois?! – espantou-se a garçonete por eu estar sozinho.

– Não, minha filha, “Ca-fé Nú-me-ro DOIS!” – soletrei, carregando no número.

– O que é isso? – perguntou surpresa.

– Me diga você. É o que está anunciado naquele cartaz ali, ó… – apontei para o balcão.

– Ah! Não tinha visto o cartaz.

Será que para trabalhar entre empresas aéreas as lanchonetes contratam garçonetes aéreas? Acho que não. Ou a garota era desligada ou era indiferente.

Pessoas desligadas perdem a visão periférica. Pessoas indiferentes preferem não tê-la. Relapsos são indiferentes; artistas são desligados. Se a garçonete era uma artista em potencial eu não sei. Talvez seu sonho fosse ser aeromoça, daí estar tão avoada.

Já o indiferente é diferente. Ele ignora deliberadamente o que acontece ao redor e traz uma mensagem tatuada na língua: “Não sou eu o responsável”. Não é mesmo. O responsável vive atento para detectar problemas, trabalhar em soluções e apontar oportunidades. O indiferente prefere ficar na dele até quando o barco está afundando. Pra que se preocupar se o furo não está sob o seu assento?

Se você acha que pessoas assim não conseguem emprego está enganado. Tem muito chefe por aí que adora contratar indiferentes. São chefes que preferem subordinados que não enxerguem além do campo de visão do tapa-olhos que recebem junto com o crachá. Ter subordinados de visão é arriscado. Eles podem ver aquilo que o chefe não vê, não quer ver ou não quer que outros vejam.

Mas não é isso que o mercado exige de um bom profissional. O mercado está tão complexo, rápido e mutante, que é preciso ter pescoço de coruja para enxergar 360 graus, ouvidos de morcego para voar no escuro e focinho de cão perdigueiro para não perder o alvo. Além de conectividade, muita conectividade, para andar a par e passo com a equipe.

Uma boa equipe não precisa fazer uma reunião de duas horas para decidir a melhor data para a próxima reunião. Basta um olhar, um sinal ou uma senha para todos saberem o que está acontecendo e o que cada um deve fazer. Chame a isso de sintonia ou sincronismo se quiser, ou modernize o conceito para conectividade.

Palestrantes sabem o quanto essa conectividade é importante quando dependem de alguém para fazer a troca dos slides e descobrem que a pessoa designada para isso passou a noite trabalhando em outro evento. Pode apostar que ele será o primeiro a dormir na palestra.

A conectividade da equipe é importante em todas as atividades que exigem sincronismo, mas em alguns segmentos ela se torna vital, já que qualquer distração traz conseqüências mais graves do que apenas saltar um slide. É o caso de um estúdio de TV, onde as pessoas precisam estar afinadíssimas, especialmente quando o programa é um telejornal ao vivo transmitido para milhões de espectadores em todo o mundo.

O telejornal da BBC de Londres que assisti ontem à noite era assim. Ou deveria. O âncora estava com a corda toda, mas o responsável pelo vídeo estava tão aéreo quanto a garçonete. Enquanto a voz do âncora anunciava que um homem e uma mulher da Grã-Bretanha tinham sido presos numa praia em Dubai por atentado ao pudor, o vídeo que foi ao ar mostrava um dos donos do Google ao lado da Rainha Elizabeth.



P.S. Se você acha essa situação surreal, imagine um motorista de táxi chamado Guy Goma entrar no estúdio da BBC em Londres à procura de emprego e ser confundido com Guy Kewney, especialista em tecnologia que aguardava para ser entrevistado sobre o mercado de música on-line. O vídeo da entrevista com o motorista de táxi falando do mercado de música on-line, e a tradução do que rolou, você vê a seguir:


http://www.youtube.com/watch?v=zWAvHnfJsOQ

Entrevistadora: Guy Kewney é editor do site de tecnologia da Newswireless. Olá, bom dia para você.

Motorista: Bom dia.

Entrevistadora: Você ficou surpreso com a decisão de hoje?

Motorista: Estou muito surpreso com… essa decisão a meu respeito, pois não esperava por ela. Quando vim aqui disseram que havia algo, por isso estou aqui. Portanto é uma grande surpresa de qualquer modo.

Entrevistadora: Sim, uma grande surpresa.

Motorista: Exatamente.

Entrevistadora: Considerando os custos envolvidos, você acha que mais pessoas farão download de música on-line?

Motorista: Na verdade aonde quer que você vá você vê pessoas fazendo download da Internet e do site e de tudo o que precisam. Mas eu acho que isso é muito melhor para o desenvolvimento e para informar as pessoas sobre o que elas querem e dar a elas uma maneira fácil de rápida se for aquilo que procuram.

Entrevistadora: Realmente parece que o caminho seguido pelo segmento de música agora é querer que as pessoas entrem no website para baixar música.

Motorista: Exatamente, você pode ir a qualquer lugar, ao cybercafé, e pode baixar, pode fazer isso facilmente. Vai ser uma maneira fácil para qualquer um conseguir algo pela Internet.

Entrevistadora: Obrigada. Muito obrigada.

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O 8º Hábito: da Eficácia à Grandeza – Stephen R. Covey

” Hoje em dia, não basta somente ser uma pessoa ou uma organização eficaz, mas são necessárias a realização, a execução apaixonada e a contribuição significativa, em uma ordem de grandeza e dimensão diferentes.

Os sete hábitos para as pessoas altamente eficazes continuam relevantes mas Covey afirma que os novos desafios e a complexidade com que nos deparamos em nossas vidas e relacionamentos pessoais, em nossas famílias, em nossas vidas profissionais e em nossas organizações são de uma ordem de grandeza diferente e exigem uma nova atitude mental, uma nova habilidade, um novo conjunto de ferramentas… um novo hábito. Esse 8º Hábito é o de encontrar a própria voz e inspirar outros a encontrar a deles.

Há um anseio profundo, inato, quase inexprimível dentro de cada um de nós para encontrar a própria voz na vida. O propósito deste livro é dar ao leitor um mapa do caminho que o leve dessa dor e frustração à verdadeira realização, à relevância, ao significado e à contribuição no novo panorama de nossos dias – não apenas no trabalho e na organização, mas em toda sua vida. Em resumo, ele o conduzirá até encontrar sua voz. Se o leitor assim quiser, ele também o levará a um grande aumento de sua influência, qualquer que seja sua posição – inspirando outros a quem prezamos, sua equipe e sua organização a encontrarem suas vozes e aumentarem várias vezes sua eficácia, crescimento e impacto. O leitor descobrirá que essa influência e essa liderança nascem da escolha, não da posição ou do status.

O DVD que acompanha o livro inclui uma série de filmes curtos, muitos dos quais mereceram prestigiados prêmios nacionais e internacionais, e permitirão ao leitor ver, sentir e entender melhor o conteúdo do livro. Inclui DVD



E a gorjeta, doutor?


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Comentário

Não cheira nem fede? Melhor assim.

Não cheira nem fede? Melhor assim.
por Mario Persona



Há negócios que não cheiram nem fedem. O estacionamento onde parei meu carro era assim. O velho barracão atrás de um velho casarão podia passar despercebido, não fosse pela velha placa. Se cheirava mal? A placa não.


Ou melhor, não sei, pois meu nariz não alcançou o topo do poste. Tudo o que escrevo costuma ser verdade. E mesmo que alcançasse, já viu propaganda cheirar? Bem, algumas cheiram. É o caso do perfume que a promotora borrifa na sua mão no shopping e sua mulher sente quando você chega em casa e você diz que é propaganda.

Mas em geral as propagandas não cheiram nem fedem, por ser difícil usar aromas nas mensagens. A primeira dificuldade está no meio eletrônico. Seria preciso ter olfato de cão perdigueiro e morar perto da emissora de rádio ou TV para sentir algo.

Na propaganda impressa é possível usar tinta aromática ou cápsulas microscópicas que são ativadas quando o papel é esfregado com a mão. O Wall Street Journal já oferece esta possibilidade aos anunciantes. Mas não preciso ir tão longe para sentir o aroma de um anúncio: o Jornal de Limeira, cidade onde moro, já publicou dois anúncios aromáticos, um de bolo e outro de café. Por outro lado um jornal britânico anunciou que sua edição tinha sido impressa com tinta perfumada e milhares de leitores levaram o jornal ao nariz naquela manhã de primeiro de abril.

Já li de experiências em cinemas, como o Smell-O-Vision usado na década de sessenta com mais de 30 cheiros saindo das poltronas. Nos cinemas que freqüento as poltronas sempre cheiram a pipoca, mas nos aviões é comum sentir um cheiro diferente vindo da poltrona ao lado.

O Smell-O-Vision soltava cheiro de flores na cena do campo e de comida na cena da cozinha. O problema era que o cheiro de gorgonzola da cena do aperitivo ainda estava no ar quando chegava a cena do beijo. Não creio que o sistema funcionasse em filmes de ação. Você continuaria no cinema se sentisse cheiro de queimado?

A NTT Communications desenvolveu uma tecnologia para aparelhos eletrônicos exalarem fragrâncias usando cartuchos como os das impressoras, só que com essências. Você já pode mandar um torpedo pelo celular e o destinatário sentir o cheiro quando um código na mensagem ativa o respectivo aroma no celular do receptor. Mande uma mensagem às seis da tarde de dentro de um busão a quarenta graus e sua namorada nunca mais vai querer saber de você.

A propaganda pode usar tecnologias assim, mas não sem riscos. O problema está na forma como o cérebro processa as mensagens captadas pelos sentidos. Ao contrário da visão, o olfato costuma acionar um tipo de memória sensorial que dá acesso a lembranças que podem ser tanto boas como ruins.

A foto de uma casa de campo numa propaganda não tem o objetivo de resgatar uma casa igual de seu passado, mas de fazer você desejar um lugar assim no futuro. Você nunca viu a casa da foto antes. Porém, se a foto vier acompanhada de cheiro de mato, isso trará à tona uma experiência gravada em sua memória sensorial. Pode ser boa, mas pode também ser a lembrança da noite que você foi obrigado a dormir no mato com o carro atolado.

Isso não significa que uma venda não possa apelar para todos os sentidos. O comprador de um carro tem sua visão atraída por suas linhas, o tato estimulado pela maciez do assento e a audição impressionada pelo ronco do motor. Ou pelo seu silêncio, se o comprador for meio surdo como eu. Cabe ao vendedor explorar tudo isso.

É claro que o cliente não vai poder comer o carro para sentir seu gosto, mas um café ou aperitivo durante a venda costuma agradar o paladar. O cheiro? Nem preciso dizer que cheiro de carro novo é um dos grandes aliados de quem vende.

O tempo que você levou para ler até aqui é o mesmo que levei para voltar ao meu carro no estacionamento, o qual já não é tão novo assim para cheirar. O manobrista parecia surpreso com meu retorno rápido e insistia em puxar conversa. Percebi que estava tentando me impedir de chegar ao carro que ele acabara de estacionar numa vaga, mas não consegui imaginar a razão.

Foi só ao entrar no carro, cujos vidros ele fechara ao estacionar poucos minutos antes, que entendi o seu desespero em manter-me fora do veículo. Fui obrigado a abrir todos os vidros e ligar o ventilador no máximo para o carro voltar a ter, não cheiro de novo, mas cheiro nenhum.

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Propaganda: Teoria – Técnica – Prática – Armando Sant’anna
Desde o aparecimento de sua 1a. edição, este livro vem se constituindo no melhor e mais completo trabalho já publicado no campo da Propaganda, em nosso idioma, tornando-se leitura imprescindível para os estudantes dos cursos de Propaganda, e de consulta permanente para os profissionais de Propaganda, Relações Públicas e Marketing. Uma das razões do grande sucesso desta obra é a sua constante atualização, não só no que se refere aos dados estatísticos mas, sobretudo, no que diz respeito ao desenvolvimento, mudanças, técnicas e estratégias que caracterizam essa dinâmica atividade.



Quase enganosa

Quase enganosa
por Mario Persona



Quando vi o site do hotel na Internet fiquei animado. Já podia me enxergar ali, largado à beira da piscina, a dois passos da praia, e comendo metade das espécies de peixes e crustáceos do Atlântico ao som do pipocar do gás da cerveja. Não foi bem assim.


Se visitar o site de um hotel na Internet, desconfie. Com a lente correta e algum conhecimento de Photoshop, qualquer garoto é capaz de transformar a marginal do Rio Tietê, em São Paulo, em avenida beira-mar. É o que chamo de propaganda quase enganosa. A realidade é mesmo aquela, só que distorcida pela lente do artista.

Nunca me esqueço do evento de uma semana em um hotel que a empresa que eu atendia contratou pela Internet. No site, a sala de convenções parecia o estádio do Maracanã, graças às fotos com lente olho-de-peixe. Uma vez lá, foi difícil manter naquela lata as cento e poucas sardinhas participantes.

No caso do hotel de onde escrevo, só descobri que era uma pousada quando cheguei aqui. Algumas pousadas são organismos vivos, que nascem de uma pequena casa e crescem graças ao transplante de cômodos e casas vizinhas. Tenho um palpite de que daqui a cem anos esta será comparada a uma obra de Gaudí, como o templo da “Sagrada Família” de Barcelona, tamanha a variedade de ladrilhos, pisos e azulejos.

O site que me trouxe até aqui criou em mim a falsa impressão de que ficaria hospedado em uma vila no Mediterrâneo, com as ondas batendo sob a janela de um quarto com vista para o mar. Tudo o que consigo ver são quintais e cachorros que não param de latir. No site havia uma foto do hotel bem ao lado dos iates da foto de uma marina local. A foto dos feios quarteirões que separam uma coisa da outra não estava lá.

No apartamento tudo é improvisado, até os quadros. Assim que entrei fui tomado por um sentimento de nostalgia e imediatamente me lembrei dos natais dos tempos de criança. Não, não são quadros de paisagens natalinas, mas apenas pedaços de papel de presente emoldurados. Você deve conhecer, desses que mostram instrumentos de navegação, cachimbos, bússolas, mapas antigos e coisas do tipo.

Há vantagens, porém. Eu quase não sinto o cheiro de esgoto que sai da pia e dos ralos do banheiro, graças à naftalina. As bolinhas estão em toda parte. Meu medo é sair daqui viciado e a família me internar em uma clínica de desintoxicação.

A cidadezinha litorânea é minúscula, mas não se iluda achando que isso significa tranqüilidade. Um trem de carga atravessa o lugar a poucas quadras do hotel, e tantas quantas são as ruas que os trilhos cortam, tantos são os apitos que ele dá de dia e de noite.

Mas é claro que o trem não passa o tempo todo. Nos intervalos entra o som dos candidatos a vereador em plena campanha eleitoral. Como a cidade é pequenininha e só escuto um candidato de cada vez, acredito que os carros tenham combinado sair como fazem nos sambódromos, um a um, para evitar misturar as propagandas. Ou então a cidade só tem um carro de som para preencher as lacunas entre os apitos do trem.

O hotel não serve refeições, por isso comi um peixe no primeiro lugar que encontrei. Minha impressão é que aquele peixe era reincidente e tinha sido frito duas ou mais vezes. No alto falante do lugar o Roberto cantava “Eu voltei”. Eu sei que existe uma campanha para não comermos peixes em extinção, mas será que ela inclui os extintos? Começo a achar que esse peixe vai voltar à noite para me assombrar.

Minha preocupação com o peixe se agravou quando voltei à pousada e decidi procurar na Internet informações sobre a cidadezinha. Sabe como é, não vi nada de interessante, mas pode ser que eu tenha perdido alguma coisa ao atravessar o lugar em cinco minutos caminhando a passos lentos.

Encontrei um site de informações turísticas que falava das duas ou três atrações do lugar:

“Quando estiver na cidade, escolha um dos muitos quiosques instalados no cais para petiscar um peixinho frito. Para fazer a digestão, visite a igrejinha de Nossa Senhora…”

É, definitivamente vou ter problemas com o peixe.

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Marketing de Turismo – Victor Middleton
Esta terceira edição da obra explica os princípios e a prática de marketing em suas crescentes aplicações na indústria do turismo global. Com base no sucesso das edições anteriores, os autores revisaram totalmente o texto a fim de apresentar as mudanças na indústria de viagens e turismo no século vinte e um, especialmente as oportunidades e ameaças surgidas com a Tecnologia da Comunicação e Informação (ICT).
Visando refletir seu alcance internacional, o conteúdo e as diversas ilustrações do livro foram escolhidos por suas aplicações mundiais. Dentre os estudos de cases internacionais específicos, destacamos: As Ilhas Baleares, Hotéis econômicos (Travel Inn), Timeshare (RCI Europa), Micro-empresas e o papel da Internet nas estratégias internacionais da NTO.



Um presidente negro na Casa Branca

Um presidente negro na Casa Branca
por Mario Persona



Achei estranho, muito estranho. Aquilo não era para estar acontecendo. Na minha opinião os Estados Unidos cometiam um grande erro ao enterrar seus cidadãos daquele jeito.


Coloquei mais força nos pedais da bicicleta para deixar para trás a rua que dividia os mortos. Eu tinha acabado de descobrir, no cemitério perto de casa, em Carthage, Missouri, que de um lado da rua enterravam os brancos e do outro os negros. Em 1972, aos 16 anos, segregação assim era novidade para mim.

Eu sei que no Brasil existia, só que não amparada por lei ou religião. Nos EUA a segregação tinha sido abolida no papel dois anos antes, mas continuava na prática. Na McAuley High School, escola particular católica onde eu estudava, não encontrei um aluno negro.

A supremacia branca, defendida por alguns cristãos norte-americanos, teve sua origem na mitologia pagã anglo-saxônica e influenciou o pensamento de personalidades tão diferentes quanto Hitler, Monteiro Lobato e Allan Kardec. Mas na Roma de Constantino a mistura de elementos cristãos e pagãos já era incentivada, visando homogeneizar a religião no império. Quem visita o Vaticano encontra imagens que nada mais são do que representações ou estátuas recicladas de deuses pagãos, como a de Júpiter, que ocupa o lugar de São Pedro.

A segregação também tem o respaldo de interpretações equivocadas da Bíblia, em especial da história dos filhos de Noé. Séculos antes de católicos e protestantes usarem seu texto para endossar práticas escravagistas, judeus e muçulmanos já interpretavam o Antigo Testamento assim. Os árabes foram os primeiros a escravizar negros etíopes, criando um precedente para a escravidão ditada pela cor da pele.

A própria Bíblia coloca em xeque essas interpretações, quando descobrimos que a esposa de Moisés era negra. O bebê Moisés foi salvo das águas por uma princesa egípcia, cuja aparência estava mais para a da irmã de Barack Obama do que para a holandesa Nina Foch, que interpretou a princesa no hollywoodiano “Os Dez Mandamentos” de Cecil B. DeMille. E não podemos nos esquecer de que José, Maria e o bebê Jesus encontraram abrigo entre os habitantes do norte da África.

Mas o maior embaraço para qualquer caucasiano que pretenda usar a Bíblia para justificar a supremacia branca está na história da conversão do eunuco, oficial da rainha da Etiópia, no livro de Atos. O primeiro não-judeu a se converter à fé cristã e a propagar o cristianismo na África foi um negro. Numa época quando os bárbaros brancos da Europa ainda ofereciam sacrifícios humanos aos seus deuses, muitos africanos já falavam de Jesus.

A eleição de Barack Hussein Obama à presidência da maior potência do planeta muda muita coisa. Para começar, será preciso rever alguns conceitos de marca e pesquisas de opinião. Há alguns anos qualquer pesquisa daria como zero a probabilidade de um negro ser presidente dos EUA.

Depois do 11 de setembro, então, alguém chamado Hussein ou Obama tinha mais chances de ir parar em Guantánamo do que na Casa Branca. Ora, os norte-americanos chegaram até a boicotar a mostarda French’s, só porque os franceses não apoiaram a invasão do Iraque. A questão é que “French” não vem de “francês”, mas é o sobrenome do criador da marca norte-americana de temperos.

O primeiro desafio de Obama foi vencer a segregação dos brancos. Agora vai precisar vencer a decepção de alguns negros que esperam uma reversão no tratamento preferencial. Ralph Nader, o perdedor independente, já insinuou que Obama está mais para “Uncle Tom” do que para “Uncle Sam”. Lá a expressão “Uncle Tom” é pejorativa, e significa um negro subserviente ao domínio do branco.

Venha o que vier, acho que Abraham Lincoln teria gostado de viver estes dias. Ele, que combatia a escravidão, um dia encontrou um político que reclamou de suas idéias. Lincoln argumentou mais ou menos assim:

“Se você diz que o de pele mais clara pode escravizar o de pele mais escura, é melhor tomar cuidado. Você pode acabar escravo do primeiro que encontrar que tiver a pele mais clara do que a sua. Se não for apenas uma questão de cor, mas de superioridade intelectual, que você acredita ser característica dos brancos, então você pode acabar escravizado por alguém mais inteligente do que você.”

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A Audácia da Esperança – Barack Obama
O senador democrata Barack Obama, eleito no final de 2008 presidente dos Estados Unidos analisa o governo Bush, a vida política atual no seu país, a atuação do Congresso, as tensões religiosas e raciais, a intervenção norte-americana no Iraque e também outras questões mundiais, como o terrorismo e as pandemias nas páginas desta magnífica obra. Apesar de não ser exatamente uma autobiografia, a trajetória e experiência do senador também é exposta. Conheça um pouco mais sobre as idéias deste homem que em 2009 será o presidente do país mais podereso do mundo.



O princípio da dádiva no networking

O princípio da dádiva no networking
por Mario Persona



Mario Persona conversa consigo mesmo sobre um assunto bem presente: a dádiva. Esse favor imerecido que nada teimosamente contra a corrente do instinto humano é abordado da perspectiva do networking e do relacionamento com o cliente.

P. Fala-se muito em gerar relacionamentos, não só com clientes mas com qualquer pessoa. Como criar um relacionamento?

Um relacionamento você cria com base no princípio da dádiva. Quando você dá algo a alguém, ou faz algo por essa pessoa, você dá o primeiro passo que promove um relacionamento. Mas essa dádiva não pode ser condicional.

P. A dádiva não gera algum tipo de angústia em quem recebe?

Em um certo sentido sim. A dádiva cria uma responsabilidade em quem recebe. É claro que a primeira coisa que a dádiva gera é gratidão, que nós expressamos com a palavra “obrigado”, que é uma espécie de vínculo, de amarra, que se traduz como uma obrigação de reciprocidade.

P. Quer dizer então que essa história de networking, de criar relacionamentos apenas pela troca de cartões não funciona? Um cartão não passa de um papel sem valor.

Bem, a troca de cartões pode levar ao princípio da dádiva, mas veja que quando falamos de valor, isso não significa necessariamente preço. Uma coisa pode não ter custo algum, como um cartão, mas ter um valor tão grande que a torna sem preço, impagável. Um cartão recebido, por exemplo, de uma pessoa influente pode ser interpretado como uma dádiva por abrir portas. Geralmente as dádivas mais caras são as que não têm preço.

P. E o que pode agregar valor à dádiva?

A necessidade de quem recebe, seu interesse por aquilo, as circunstâncias, o momento… várias coisas podem ajudar a criar valor. É interessante, mas parece que o valor das melhores dádivas está na aura emocional que a envolve. Um papel de bala, por exemplo, é lixo, mas se tiver sido dado pelo namorado ele vale ouro. A garota vai guardá-lo para sempre.

P. Então a essência do networking e do marketing de relacionamento não está na troca de cartões?

Isso, a mera troca de cartões está cercada de interesses de ganho, e carrega uma mensagem do tipo “compre de mim”, “estou de olho no seu dinheiro”, “pague e eu farei algo por você”. O verdadeiro relacionamento começa com a iniciativa de dar de forma desinteressada, não de receber.

P. Qual o papel da emoção nesse contexto?

O clima emocional é muito importante. O momento, o cenário, o estado emocional, tudo isso funciona como um adesivo na memória do receptor da dádiva. Se você quiser criar um relacionamento, seja ele afetivo ou de negócios, é preciso pensar como um diretor de cinema, que usa som, imagem e comunicação para causar uma impressão permanente no espectador.

A dádiva não termina no ato de dar. É necessário você obter o feedback disso, medir as reações, os sentimentos. Se você precisou botar sua empatia para trabalhar na hora de descobrir o que poderia ser interpretado como valor pelo outro, antes mesmo de oferecer sua dádiva, agora é hora de usar de empatia para medir os resultados. Tentar sentir o que o outro sentiu.

P. Que se resume em gratidão e desejo de reciprocidade, ou tem mais alguma coisa?

Tem sim, e é aí que a dádiva fica ainda mais interessante; é aí que começa o verdadeiro networking. O ato de dar ou fazer algo por alguém vai contra os nossos instintos de sobrevivência. Vai contra a lei do mais forte que subjuga o mais fraco tirando dele, não dando. Só que quando você percebe que pessoas generosas vivem mais de bem com a vida, e pessoas mesquinhas não, você quer descobrir que existe por trás da generosidade. Quando você é o beneficiário de uma dádiva, pode acabar contaminado pelo princípio da dádiva; vai querer descobrir o que é moveu a outra pessoa e acabará também fazendo algo por alguém para sentir o mesmo.

P. Então a dádiva pode gerar no benfeitor uma sensação de superioridade, de controle e poder sobre o beneficiado.

Sim, porque o rio sempre corre de cima para baixo. O próprio desejo de ajudar alguém pode brotar de uma necessidade de vanglória, de poder se gabar de ter ajudado essa ou aquela pessoa. Mas vamos nos concentrar nos resultados, e não nos motivos que levam a eles. É importante entender que a dádiva pode gerar uma reação em cadeia e criar na pessoa que recebe não apenas sentimento de dívida e reciprocidade, mas também de responsabilidade de fazer o mesmo por uma terceira pessoa.

P. Mas até aqui me parece mais uma cadeia linear de dádivas. Quando é que isso começa a funcionar como um networking, como uma rede de relacionamentos, e não de cima para baixo?

Quando aquele que é, digamos, o tataraneto do processo que você iniciou decide fazer de você o beneficiário de uma dádiva. Fechou o círculo. Agora você, que iniciou o processo da dádiva, passou a ser devedor de alguém, no sentido de sentir gratidão, não de ter de pagar, e se sentirá estimulado a ser novamente benfeitor de alguém, iniciando um novo ciclo, talvez em nova direção.

P. Em outras palavras eu fui vítima do meu próprio feitiço.

O verdadeiro networking funciona assim, sempre com alguém dando e alguém recebendo. Mas nem todos mantêm a corrente, e isso geralmente acontece naqueles elos que não entendem que a dádiva funciona como um bumerangue, é moeda circulante. É por isso que em tempos de crise os governos estimulam o crédito e pedem que as pessoas comprem. O represamento leva à estagnação.

P. Dê um exemplo prático do princípio da dádiva entre um fornecedor e um cliente.

Ok, digamos que você ouviu tudo isso e decidiu ligar hoje mesmo para uma empresa de brindes e encomendar uma porção de coisas com sua marca estampada nelas. Amanhã você aparece no cliente e despeja uma tonelada de brindes na mesa dele. Pode até funcionar, mas não é disso que estou falando. O princípio da dádiva não inclui brindes.

P. Não?! Mas não é dado?

Não é a mesma coisa; falta ao brinde aquele vínculo emocional que a verdadeira dádiva tem. Uma dádiva nem precisa ser algo tangível. Pode ser um favor ou um simples gesto. Pode ser conseguir a figurinha que faltava no álbum do filho de seu cliente. O brinde tem uma conotação comercial, tem uma marca colada nele, dá a impressão que você quer que seu cliente faça propaganda para você. A propriedade do brinde nunca é transferida totalmente para o cliente, porque sua marca continua lá.

P. Mas isso não faz ele se lembrar de mim na hora de comprar?

Pode fazer, mas não tem o poder da dádiva. Imagine que eu sou seu cliente e, ao invés de me dar uma caneta com a sua marca, você traz de suas férias em Recife um daqueles lápis baratos vendidos em feiras de artesanato, com a palavra “Recife” entalhada na madeira. Aí você me entrega o lápis e diz: “Estive em Recife e me lembrei de você”.

O lápis não tem o seu nome, não tem a sua marca, não traz qualquer indicação de origem, mas eu nunca mais vou me esquecer de quem deu. Você não tinha obrigação de pensar em mim em suas férias e, se fez isso, fico constrangido a dar preferência a você na hora de decidir fechar um negócio. Fica a sensação de que eu lhe devo uma, e mesmo que eu faça algo em troca, um gesto assim cria uma dívida impossível de ser totalmente quitada. Se você me pedir qualquer coisa eu me sentirei constrangido a atender o seu pedido.

P. Até comprar rifa?

Até comprar rifa e rir de suas piadas.

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O Espírito da Dádiva – Jacques T. Godbout

Nem só o interesse, o desejo de poder e a coerção pública regem as relações entre as pessoas. Opondo-se à visão utilitarista dominante nas interpretações da história e do jogo social, este livro mostra que o espírito da dádiva não se manifesta só em ocasiões como o Natal, ou em brechas da moderna sociedade liberal, mas o tempo todo e em toda a parte: nas organizações, no mercado de arte, nas reuniões dos Alcóolicos Anônimos, nas doações de sangue e de órgãos.

Na perspectiva deste livro, a dádiva, assim como o mercado e o Estado, forma um sistema de circulação de bens e prestação de serviços que serve, antes de mais nada, para criar vínculos sociais, e a sedução da dádiva tem tanto poder quanto a do ganho – portanto, é tão importante elucidar suas regras quanto conhecer as leis do mercado ou da burocracia para compreender a sociedade moderna.

Nesta obra pluridisciplinar, a linguagem utilizada é clara e evita o ´calão´ dos especialistas. Alimentando com inquéritos sobre o “terreno originais”, e por uma análise crítica aprofundada da literatura existente este livro, apaixonará o grande público que espera conhecer os mistérios da dádiva, e os investigadores em ciências sociais que, aqui, descobrirão estimulantes perspectivas.

Editora: Instituto Piaget
Autor: JACQUES T. GODBOUT
ISBN: 9728329466
Origem: Importado
Ano: 1997
Edição: 1
Número de páginas: 335
Acabamento: Brochura
Formato: Médio



Reforma ortográfica

Reforma ortográfica
por Mario Persona



Prezado amigo: Circunflexo sobre meu notebook, fui surpreendido por seu e-mail e pelo comentário agudo com acento carioca que, diga-se de passagem, é consoante à sua crase. Você espera que eu trema de sua preposição? Pareceu-me ser essa a tônica do julgamento vogal que fez de minha decisão de adotar a nova ortografia.


Apesar de você tentar pontuar, com acentuado sarcasmo, minha adesão à reforma ortográfica, saiba que isso não me torna um entusiasta da causa. A reação normal, na minha idade, está mais para buscar outro tipo de reforma. Mas, como já não tenho reforma e nem estou reformado, adoto a nova ortografia como forma de garantir meu assento no mercado.

No fundo, o objetivo do acordo ortográfico é acabar com o excesso de letrinhas do português de Portugal. Para que fosse acordo, o Brasil acordou com mudanças mínimas, só pra português ver. O português, que trabalhava de facto, agora irá trabalhar de fato. A gravata permanece a mesma.

Qualquer um sabe que antes de reformar é preciso construir, algo que ainda não foi feito no Brasil e na maioria dos países que falam Camões. A reforma nem será percebida em muitas escolas onde “acento” ainda é sinônimo de cadeira. Vi uma professora de português, que ia se casar, convidar as amigas com um cartãozinho grafado “Chá de Conzinha”. Pode apostar que professoras assim adotarão a nova ortografia e passarão a ensinar que o coletivo de aranhas é alcateia.

Para quem digita, as vantagens da nova ortografia são proporcionais aos acentos eliminados. Quantas vezes você precisou voltar ao “u” para colocar o trema? O corretor de meu Word vivia rindo da minha cara com seus lábios ondulados sob a palavra. Agora sou eu quem ri. Deixei o Word de lado e adotei o Writer do BrOffice, pelo menos até a Microsoft, corrigir seu corretor. O Bill Gates deve estar preocupadíssimo com minha decisão.

Não aguento você arguir que usamos pouco o antiquíssimo trema. Isso é consequência da obliquidade de seu julgamento exíguo de minha linguística. Ainda que eu enxágue meus textos da vã eloquência, até mesmo um delinquente, um alcaguete ou um equino sabe que é inexequível um texto sem trema na velha ortografia.

É inegável que a reforma movimentará o mercado para adaptar tudo e todos aos novos tempos ortográficos. A falta de informação criará situações inusitadas, como a da empresa que há alguns anos teve sua importação barrada por um funcionário da alfândega. A documentação, preenchida no exterior com caracteres não acentuados, indicava a importação de “macas”, mas as caixas traziam “maçãs”. Portanto, não se surpreenda se encontrar algum “adevogado” por aí querendo processar, por assédio sexual, quem entrar na secretaria. E também por agressão, se bater antes de entrar.

A eliminação dos acentos acentuará o ganho das agências de comunicação, que prestarão serviços de correção dos textos de seus clientes em sites e material impresso. Publicitários e gráficas ganharão com a reforma geral das embalagens de seus clientes. Ainda vamos ver embalagens de linguiça com “Zero Trema”. E por que não, se até embalagem de água já traz “Zero Caloria”?

Ainda vamos ver na TV entrevistas com “especialistas” sobre os benefícios de se comer linguiça sem trema:

Entrevistadora: “Você acha que a venda de linguiça sem trema será obrigatória em nosso país?”

Entrevistado: “Bem, caso isso aconteça, o Brasil poderá importar o produto de Portugal até adaptar sua produção. Os portugueses sempre fabricaram linguiça sem trema”.

A reforma ortográfica trará problemas para alguns segmentos na hora de vender seus produtos. É o caso dos fabricantes de para-raios. Aquilo que antes servia para parar os raios tornou-se um aliado deles. Os familiares de paraquedistas já não poderão processar o fabricante do equipamento que não abriu. Afinal, apenas a versão antiga tinha a função de parar quedas. A nova é feita para elas acontecerem.

Apesar de não saltar, me preocupo por viajar muito de avião, mas não pense que eu trema por isso. A reforma não irá afetar o software das aeronaves, que é escrito em inglês sem acentuação, evitando assim um “Bug do Milênio” só nosso, tipo “Bug do Português”. O problema está na fila. Em um país onde o acesso a uma boa educação foi atropelado pelo acesso a um maior poder de compra, imagine as filas nos balcões das companhias aéreas, com as pessoas querendo saber se precisarão viajar de pé no voo que perdeu o acento.

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História da Língua Portuguesa – Paul Teyssier
Paul Teyssier, Professor da Universidade de Paris-Sorbonne, faz uma historia concisa, mas exemplar da língua portuguesa. Começando com a análise da evolução do latim até os primeiros textos escritos em galaico-português, Teyssier passa a considerar em seguida não só o português europeu contemporâneo como também o português falado no Brasil, na África e na Ásia.

Editora: Martins Fontes
Autor: PAUL TEYSSIER
ISBN: 9788533623859
Origem: Nacional
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 152
Acabamento: Brochura
Formato: Médio