CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Blogterapia

[25/12/2001 01:53 – É madrugada e trabalho só. Há noites digito, digito, digito, digito. Por um honorário de quatro dígitos, prometi cumprir o prazo: para ontem. Já nem sei se ontem é hoje ou se hoje foi amanhã. Fim de ano é magro para consultoria, mas este está obeso. Estou exausto. A família viajou. Preciso viajar, nem que seja na maionese. Escrever! É o que vou fazer. Ficção? Por que não? Olho para minha coleção do Malba Tahan, edição original de 1953. Do pseudo-árabe do deserto, que nunca pisou outras areias além de Copacabana. Já sei o que fazer.]

Escrever é uma terapia. Kathleen Adams, criadora do "The Center for Journal Therapy", fala da escrita de reflexão como uma forma de melhorar a saúde mental, física e emocional. Externar seus problemas, preocupações e conflitos através da escrita é uma terapia eficaz. Faz do mero diário algo mais do que um texto que ninguém lê. Ajuda a soltar os cachorros e lavar a égua. Faz bem.

[25/12/2001 02:15 – Os americanos trabalham como toupeiras, atrás de Bin Laden nas cavernas de Tora Bora, Afeganistão. Vou viajar para distrair. Não vou de American Airlines. Vou de Hellman’s Airlines, disfarçado por um pseudônimo. Se Júlio César de Mello e Souza era Malba Tahan, serei Ali Kilabah. Ao contrário do "Homem que Calculava" – sei contar, mas não números – sou um jornalista árabe, escrevendo em inglês ruim e sem revisão. Como um árabe escreveria sob pressão.]

A diário-terapia não é novidade. Anne Frank já fazia isto no diário que escreveu para ninguém ler e todo mundo leu. A adolescente expunha seus medos, sonhos e anseios. Em 15 de julho de 1944 escreveu: "…sinto que tudo irá mudar para melhor, que esta crueldade também acabará… preciso me apegar aos meus ideais… talvez um dia possa colocá-los em prática". Anne foi morta por ser judia. Seu diário foi seu bálsamo, enquanto sonhos e amigos viravam fumaça. Literalmente.

[26/12/2001 00:26 – Pronto! O blog – diário eletrônico de Ali Kilabah – está no ar para ninguém ler. O jornalista acompanha o exército americano às cavernas de Tora Bora e descobre manuscritos secretos e milenares. Depois? Depois eu invento algo. Começar a escrever já aliviou a tensão e abriu a imaginação. Levo meus neurônios para surfar nas ondas do imprevisto com a prancha do improviso. Êpa! Não consigo mais acessar meu blog! E não está pronto… O que aconteceu?]

Se já existisse a Internet, Anne Frank teria escrito um blog. A terapia seria a mesma, mas ela teria, em suas informais mãos, o quarto poder da informação. As mesmas palavras que curavam seus medos e receios seriam sussurradas on-line em tempo real. Viajariam à velocidade do pensamento por arames nada farpados. Se não pudesse deter a crueldade, ao menos ajudaria a pensar as feridas isoladas de muitas Annes.

[26/12/2001 02:05 – Descobri. Os servidores do Blogger.com foram invadidos. Agora está normal, mas meu blog não. Vou refazer. Bio e foto do fictício jornalista, um fragmento do manuscrito, mapa do Afeganistão e uma notinha no final: "Ali Kilabah é personagem fictício, pseudônimo do autor. Inclui ficção, fatos e opiniões pessoais." No início, uma brincadeira no estilo Welles, da radiofônica "Guerra dos Mundos": "Acabei de publicar este diário e os servidores do Blogger.com foram hackeados. Será uma conspiração tentando me impedir? Você decide". Bocejo um sorriso e vou dormir.]

[01/01/2002 04:47 – Madrugada do ano novo. Que susto! O contador de páginas parece bomba de gasolina. Quase dois mil visitantes únicos na virada do ano! Rastreio, para ver de onde vêm. Fóruns e listas de discussão, um jornal on-line na Rússia, outro na Itália e blogs. Vários blogs. Minha diário-terapia virou um "buzz", caiu na boca do povo. Ou ‘caiu no blog do povo’, só para registrar o neologismo. Nossa! Será que este barulho é o FBI cercando o prédio? É melhor ir dormir.]

O blog "The Tora Bora Manuscripts" continua no ar. Meio desatualizado, pois desde então viajei em outros textos. A história ficará incompleta, até alguém me estressar de tanto serviço na próxima virada do ano. Então Ali Kilabah pode voltar à ação. O que aconteceu com o jornalista enquanto isso? Sei lá… talvez esteja fazendo uma crônica-terapia como esta, só para variar.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

Esta crônica de Mario Persona pode ser publicada gratuitamente como colaboração em seu site, jornal, revista ou boletim, desde que mantidas na íntegra as referências acima.