CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Ser ou não ser ASP, eis a questão

Dizem que tudo o que vem escrito em inglês é verdade. Se assim for, para não perder a credibilidade, devo parar de usar o idioma de Camões e continuar este artigo com a ajuda de Shakespeare. O que fatalmente acabaria em tragédia, pelo menos para nosso brio latino-lusitano. Mas se não quero escrever em inglês, vou ter que usar uma sigla inglesa, ou corro o risco de ficar sem assunto. Quero falar do ASP. Mas o que é ASP? Vou tentar explicar em mais de três letras.

Um ASP, ou “Application Service Provider”, pode ser traduzido simplesmente como um provedor de aplicativos por assinatura. Nada de novo até aqui, se considerarmos que o telefone permite a uma rede de usuários utilizar um serviço pagando um fee mensal. Ou taxa, quando do lado de cá do Equador. O mesmo poderia ser dito de uma Cable TV ou de algum serviço de pager. Só para não sair do inglês.

Mas a atual onda de ASP tem suas razões para acontecer. É simples. A tecnologia de hoje permite que necessidades de ontem virem mola propulsora nos negócios amanhã. Quando a necessidade encontra a solução, não pode ficar parada. Com as mudanças nos negócios, sendo puxadas à força pela Internet, tem empresa que já passou do estágio em que se sentia num mato sem cachorro. Descobriu que tem cachorro, mas é o Rottweiler do concorrente.

O problema começa a complicar quando se descobre que empresa nenhuma pode migrar do real para o virtual sem uma estrutura de sistemas de tecnologia da informação adequados. Mas uma simples passada de olhos nas etiquetas de preços de sistemas é suficiente para levar o empresário mais valente a se conformar com a idéia de que seu pobre negocinho não vai sair dessa inteiro.

Mas a mesma Internet que acelerou os processos também vem em socorro do desalentado empreendedor. Com fundo musical de Missão Impossível, para quem as velhas economias parecem insignificantes para pagar os custos da nova economia. A solução que a Internet traz é permitir que diversas empresas utilizem simultaneamente um mesmo aplicativo — o Application da sigla ASP. A utilização é na forma de um serviço — o Service — disponibilizado por um provedor. Você adivinhou. Quem presta o serviço é o Provider, o “P” do ASP.

Assim, sistemas que seriam inviáveis a empresas médias ou pequenas, podem ser oferecidos na forma de uma enorme vaca com infinitas tetas. Todos mamam, mas ninguém precisa pagar pela vaca toda. E nem se preocupar em sustentá-la. Enquanto recebem o leite integral da informação, os custos são diluídos entre muitos usuários, que se concentram em seu core business (olha o inglês aí de novo!). Sem precisar criar toda uma estrutura de tecnologia da informação, ou se preocupar com segurança, upgrades ou contratação de gente especializada. As preocupações ficam sendo da vaca que amamenta. Se preferir, cow, para ficar mais chique.

Outra vantagem de se aderir ao ASP é poder fugir da rota da obsolescência. Hoje uma empresa deve pensar cem vezes antes de partir para um projeto de desenvolvimento interno de sistema. É entrar no processo com a foto de um galã, para descobrir que, na saída, acabou ficando de braços dados com um velho. Um velho incomunicável, se o projeto não levar em conta uma sociedade conectada em rede.

Se você ainda não tinha ouvido falar em ASP, prepare-se para conviver com esta sigla do momento. Para fazer companhia ao ERP, MRP, CRM, B2B, e tantas outras siglas que há algum tempo freqüentam as palestras para executivos. Onde também as portuguesas sinergia e paradigma, tão desgastadas, vêm sendo substituídas por approach, purchasing, hosting e tantas outras grifes da moda. Nomes que fazem suspirar qualquer tech-yuppie. Êpa! Inglês de novo!

Porém, apesar da sigla parecer nova, prestar serviços na forma de ASP não é novidade. Há alguns anos começamos a disponibilizar, via Web, um sistema de auxílio à gestão da supply chain. E outro, para APS, sigla de Advanced Planning and Schedule, ou planejamento avançado da produção, também via Internet. Mas para aqueles que procuram uma solução ASP para seus negócios, é bom ficar atento. É que “ser ASP” hoje dá status. É o equivalente empresarial a “ser VIP”. E muitas empresas que atuam na Internet aderiram à sigla antes de aderir ao serviço, para não ficar fora da moda. Ou da bolsa. Ainda que seja só para inglês ver.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br

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