O avião pousou!
por Mario Persona



Os destroços do avião da TAM ainda fumegam e os olhos dos parentes das vítimas ainda lacrimejam enquanto vôo. O silêncio na cabine deste outro Airbus não é normal. As pessoas se entreolham com expectativa e medo. Um balanço inesperado, um cheiro não identificado, o som frisante de um refrigerante — tudo é visto com suspeição.


Sob um sol de brigadeiro as rodas tocam uma pista de veludo e o avião pousa em Brasília. Eu e os outros passageiros, mantidos em suspense até ali, pousamos logo depois. Uma salva de palmas quebra o silêncio de quase duas horas, seguida de uma coreografia de celulares saindo de bolsos e bolsas e de uma frase geral: “O avião pousou!”.

Nunca vi algo assim. Desde quando um piloto conseguir pousar no melhor dos mundos tornou-se num feito equivalente a fazer um cego ver? O banal virou motivo de júbilo e, na falta de ídolos confiáveis, adotamos o piloto como herói. Ele, sim, temos certeza, está comandando alguma coisa, do lado de dentro, bem ali, pertinho de todos.

E o outro avião, quem foi que derrubou? Hoje, nos EUA, quando alguém solta um traque a culpa vai para o Bin Laden. Virou padrão na mente das pessoas traduzir assim qualquer “bum!” e uma explosão de vapor numa rua de Nova Iorque foi a felicidade dos mendigos descalços da cidade. Uma foto da rua nos jornais mostrava que as pessoas saíram correndo literalmente de dentro de seus sapatos. Lá essa neura toda começou com um avião.

Quando um avião cai a imaginação voa. Por enquanto, para o brasileiro, o que derrubou o avião foi a falta de freios nas línguas e gestos de algumas autoridades. E quem vai dizer que não? Não foi o que vimos na TV? É bom que os comandantes que estão na cabine da cidade onde acabo de pousar fiquem atentos a esse uníssono popular, porque os tempos são outros.

Com a abundância do acesso à comunicação está ficando cada vez mais difícil esconder ou enrolar. Até quem só viaja de jegue sabe qual vôo atrasou, pois o boletim dos atrasos na TV é agora mais regular do que a previsão do tempo. Ainda que a caixa-preta do avião revele uma voz em árabe gritando “Jihad!”, muita gente vai ficar indecisa na hora de mudar de opinião.

Ouvimos o que queremos ouvir e enxergamos o que queremos ver, e quem trabalha com comunicação sabe disso. Quando adolescente, vi um comercial na TV nos EUA que mostrava uma mala Samsonite caindo de um avião em vôo e atingindo o solo em grande estilo, sem se espatifar ou danificar o que havia em seu interior. A idéia era vender malas, mas o efeito foi contrário. A mala, derivada de “Sansão” em inglês, podia ser forte, mas opinião pública era mais. As pessoas associaram a marca a acidentes aéreos e pararam de comprar. Levou tempo e dinheiro para frear e reverter essa impressão.

Enquanto isso, aqui sob o Equador, parece que não foi só a reversão do jato que travou. Desconfiômetros também mostraram estar “pinados”. De que gênio terá sido a idéia de manter na agenda um evento de condecoração de autoridades aeroviárias logo após um acidente aéreo? Quem merecia que se contentasse em receber sua medalha pelo correio, de remetente anônimo, se comprometendo a não tocar no assunto por no mínimo seis meses.

Depois de horas de conexão, peguei meu segundo vôo e cheguei ao destino são e salvo. Adivinhe. Sim, aplaudiram no segundo pouso também. Aplaudir um piloto que pousa é como aplaudir um taxista que estaciona. É obrigação da profissão. Mesmo assim agora são palmas merecidas, pois o cara está trabalhando sob imensa pressão. No primeiro vôo o comandante saudou os passageiros e acrescentou um “desculpem pelo atraso, mas eu não podia decolar sem plano de vôo”. Alguém falhou, e não foi ele.

O piloto seguinte, da conexão, também se desculpou: “Não pudemos sair no horário porque a aeronave não chegava. Vocês viram que eu estava esperando com vocês, ali no embarque, né?”. Sim, ele estava, eu vi, e me solidarizo com um comandante que viaja dentro da mesma cabine que eu, separado de um enorme posto de gasolina por apenas alguns milímetros de alumínio. Comandante que viaja junto é comandante solidário.

Se me perguntarem como sair do estol em que entrou aviação comercial, digo que não sei. Mas arrisco um palpite com base no que senti nas mais de duzentas vezes que pousei ou decolei em Congonhas, desde o tempo dos gloriosos aviões Electra da ponte aérea. Acho que isso me dá autoridade suficiente para sugerir que aquela pista, boiando num mar de prédios, mude de nome. Enquanto não decidem se ela deve ser fechada, limitada ou engruvinhada, rebatizem o lugar nos mapas e cartas para os pilotos saberem o que irão encontrar. Troquem “Aeroporto” por “Porta-Aviões”.


Depois de publicar esta crônica fiquei sabendo que Adrien Bisson, que foi meu aluno no MBA de Gestão de Empresas de TI na Uninove, está entre os desaparecidos. Adrien era francês, optou por viver, estudar e trabalhar no Brasil por acreditar que encontraria aqui grandes oportunidades na área de TI. Soube que seu pai estaria vindo ao Brasil para acompanhar a localização de seu corpo. Como era consultor prestando serviços à TAM, acredito que estivesse no prédio atingido pelo Airbus.
Adrien era o tipo de aluno que todo professor gosta de ter, sempre ativo, inteligente e em constante busca por aprender mais. Tinha 29 anos e iria se casar esta semana. Dos e-mails que troquei com ele selecionei esta frase que escreveu: “Suas aulas me ajudaram também a confirmar um fato que eu acho muito relevante: se você compartilhar, você ganha muito mais em retorno! Uma lição simples mas sempre difícil de pôr em prática.”

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A Cauda Longa: do Mercado de Massa para o Mercado de Nicho
CHRIS ANDERSON


O que acontecerá quando tudo no mundo se tornar disponível para todos?
Quando o valor conjunto de todos os milhões de itens que talvez vendam apenas uns poucos exemplares for igual ou maior do que o dos poucos itens que vendem milhões cada um?

Quando um grupo de crianças sem intenção de lucro for capaz de gravar uma canção ou produzir um vídeo, distribuindo-os pelos mesmos meios eletrônicos explorados pelas mais poderosas empresas de grande porte?
Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired, explorou pela primeira vez o fenômeno da Cauda Longa em um artigo que se tornou um dos mais influentes ensaios sobre negócios de nosso tempo. Usando o mundo dos filmes, dos livros e das músicas, mostrou que a Internet deu origem a um novo universo, em que a receita total de uma multidão de produtos de nicho, com baixos volumes de vendas, é igual à receita total dos poucos grandes sucessos.

Então, cunhou o termo “Cauda Longa” para descrever essa situação, o qual, desde então, tem sido citado com destaque pela alta gerência das empresas e pelos meios de comunicação em todo o mundo.

“Embora ainda estejamos obcecados pelos sucessos do momento”, escreve Anderson, “esses hits já não são mais a força econômica de outrora. Mas, para onde estão debandando aqueles consumidores volúveis, que corriam atrás do efêmero? Em vez de avançarem como manada numa única direção, eles agora se dispersam ao sabor dos ventos, à medida que o mercado se fragmenta em inúmeros nichos”.

Agora, neste livro tão esperado, Anderson mostra como chegamos a esse ponto e revela as enormes oportunidades daí decorrentes: para novos produtores, para novos agregadores e para novos formadores de preferências. Ele também analisa a economia da reputação; o fim dos estoques; o efeito Wal-Mart; o poder da produção colaborativa e a ascensão de uma grande cultura paralela.