Criatividade genérica
por Mario Persona



Quando a brincadeira começava, era tudo colorido. A gente abria o estojo com os bastões de massa de modelar e a criatividade corria solta. As massinhas tomavam forma e vida em bonecos, carrinhos e animais, tudo colorido. Mas não ficava assim.


No faz e desfaz da brincadeira, a massa de modelar que não desaparecesse sob as unhas ou grudada na sola do sapato acabava virando um não-sei-o-quê de um cinza-amarronzado sem graça e sem cor. Não restava um traço sequer da vivacidade das cores originais e o jeito era deixá-la de lado e brincar de outra coisa.

Equipes são assim. Quando a empresa adota uma cultura equivocada, elas logo perdem suas cores individuais. Preocupada em exterminar o carrapato do estrelismo, a empresa acaba matando a vaca da criatividade. Aí você encontra aquelas equipes comuns, nas quais a individualidade é rechaçada até não restar um traço sequer de talentos singulares com realizações notáveis. Enciclopédias são produzidas assim. Best-sellers não.

É claro que nem sempre é uma questão de zelo corporativo, mas apenas de paúra de algum gerente que não quer acabar na sombra de um subordinado com uma idéia genial. Aí aquele papo da empresa ser única no mercado só vale da porta pra fora. Dentro ninguém pode passar de genérico. Oras, quem gosta de ser genérico?

O que se busca em lugares assim não é uma idéia genial que rompa o hímen das convenções e gere uma nova criação, mas um consenso. Busca-se um resultado democrático de idéias medianas que fiquem entre a melhor e a pior cor das massinhas: o cinza-amarronzado. Já viu alguém formar uma comissão para criar uma obra de arte?

Em uma butique, chamou minha atenção a vivacidade e presteza de uma das meninas que atendiam. Dava para ver que ela era a estrela da casa. Parecia ter rodinhas nos pés e suas palavras saíam como ramalhetes perfumados. Logo vi que as outras garotas ou eram cor cinza-amarronzado ou verde-inveja. Cumpriam seu papel de figurantes e só.

— Essa menina vende por todas as outras! — cochichou radiante a dona da butique. — Todo mundo quer ser atendido por ela.

Feliz menina por trabalhar em uma butique onde a inovação e a criatividade no atendimento valem ouro. Infeliz menina se trabalhasse em um ambiente de massificação e emburrecimento. Seria demitida por ousar botar a cabeça acima da média. Sim, a criatividade individual amedronta por trazer consigo o risco do estrelismo. A inovação também.

Mas nem todas as empresas tolhem a criatividade individual. Algumas incentivam o trabalho de equipes heterogêneas e criativas, onde o talento individual é estimulado, reconhecido e premiado. Sabem que existem gênios e idéias geniais na estratosfera do mundo médio e não se preocupam se os créditos acabarem ficando com seus expoentes.

Se você já percebeu que todo desfile de moda tem alguém que assina a grife, além de duas ou três Giseles dentre dez dúzias de pernaltas, entendeu como deve funcionar uma equipe. Mas, se prefere que sua empresa venda comida por quilo, ao invés de ter um restaurante fino, por medo que os clientes queiram ir à cozinha cumprimentar o chef, então pode parar de ler.

É claro que equipes são importantes, mas seu papel é transformar em realidade a criação de um de seus indivíduos. Ainda que se apóie sobre os ombros de gigantes, como Newton confessava ser o seu caso, é o olhar individual que enxerga além. Maçãs caíram na cabeça de pessoas durante séculos, mas foi só na de Newton que causou mais que um galo.

Criação tem nome e indivíduos sempre foram reconhecidos naturalmente como criadores: no velho caderno de receitas de minha mãe tinha uma “Torta de Castanhas da Rita”, nome de minha irmã.

Até Steve Jobs, chamado por James Gosling, criador da linguagem Java, de “um tirano com bom gosto”, reconhece o talento individual em sua equipe. A primeira ligação do iPhone que fez em público na MacWorld foi para Jonathan Ive na platéia. Jonathan é o designer do iMac, iPod e iPhone. É claro que toda uma equipe trabalhou na concretização do design, ou você está entre os que acham que os prédios de Brasília foram construídos apenas com os esboços de Niemeyer?

Restringir a criatividade e o talento individuais é antinatural e resulta em produtos e serviços de um cinza-amarronzado genérico, sem cor nem sabor, criados por equipes insossas formadas por incógnitos. Até com as massinhas a gente precisava tomar cuidado quando elas se tornavam cinza-amarronzado. Às vezes aquilo que pensávamos ser massinha grudada na sola do sapato não era. Aí todo mundo corria lavar as mãos e ninguém mais queria brincar.

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Criatividade e Grupos Criativos: Volumes 1 e 2
DOMENICO DE MASI

A criatividade é o recurso mais fecundo com que o homem, desde sempre, procura derrotar os seus inimigos atávicos: a fome, o cansaço, a ignorância, o medo, a feiúra, a solidão, a dor e a morte. Em cada esquina do planeta, em cada fase da sua evolução, a criatividade humana consegue atribuir uma forma ao caos, um significado às coisas.

Descoberta e Invenção, a primeira parte desta obra, trata do misterioso continente do espírito que é a criatividade humana, daquela tensão inquietadora que trazemos dentro de nós e que nos conduz a corrigir a natureza com a cultura, deixando aos nossos filhos um mundo diferente daquele que herdamos de nossos pais.

Fantasia e Concretude, a segunda parte, busca uma definição e uma explicação dos processos criativos: o que é a criatividade, o que é necessário para determiná-la, quais são as formas específicas que está assumindo na nossa sociedade pós-industrial, quais contribuições para a sua compreensão são trazidas pela neurologia, pela psicologia, pela sociologia e por todas as ciências que se atormentam em busca de seu fascinante segredo?