Sou apolítico
por Mario Persona



Ok, hoje vou revelar o que você sempre quis saber de mim mas tinha vergonha de perguntar. Sou apolítico. As pessoas se assustam quando digo que sou apolítico, como se fosse palavrão. Não que eu não me interesse por política. Eu até me interessei durante um bom tempo, até descobrir que era ela que não se interessava nem um pouco por mim.


Por acreditar que democracia deveria incluir a liberdade de decidir se voto ou não, fico sem muito entusiasmo em época de eleição. Pode ser trauma dos anos que passei contando papéizinhos, com candidatos e fiscais fungando em minha nuca. Sempre sonho que vão me chamar. Acordo suando.

Por isso considero um grande avanço aquela maquininha lá pra fazer o serviço. Tem até aquele barulhinho engraçado que faz quando a gente termina. Será uma risadinha?

Mas até que contar votos tinha seu lado pitoresco. Eram hilárias as discussões para descobrir se o sujeito que votou no Papai Noel queria mesmo o candidato de apelido homônimo ou estava só de gozação. E quando alguém escrevia “Nulo” e tinha um com aquele nome?

Faz lembrar um episódio — será lenda urbana? — ocorrido na véspera da primeira eleição para presidente depois da ditadura militar. Em um vôo Brasília-São Paulo de fim-de-semana numa quinta-feira, um passageiro sugeriu que fizessem uma prévia. A cédula seria o guardanapo e a urna o saquinho de vomitar. Emblemático? Não sei.

Na apuração dos votos o sujeito lá na frente foi cantando os resultados e no final comentou:

— Ô, gente, era pra votar sério. Tem três votos aqui pro Enéas!

Imediatamente, lá do fundo do avião veio uma voz vibrante:

— Os votos são o meu, da minha esposa e do meu cunhado. Meu nome é Enéas!

O mais longe que minha memória política consegue chegar é quando o Jânio renunciou. Eu era pequeno, mas grande o suficiente para entender que aquilo não era coisa boa. Eu gostava tanto das vassorinhas que ganhara em um comício! Na época havia outro político chamado Carvalho Pinto que distribuía pintinhos, mas eu preferia as vassorinhas.

Cresci, estudei e me formei arquiteto durante a ditadura. Na faculdade tive alguns espasmos de militância política, mas não duraram muito. A líder de uma greve que promovemos, que ia à escola vestida de Che Guevara de coturno, boininha e estrelinha, ordenou que duas alunas, que insistiam em assistir às aulas, fossem tiradas da classe na marra. O motivo da greve? Protestar contra a ditadura.

Naquela época o povo não sabia de nada do que acontecia no governo, só o presidente. Mudou muito desde então. Fui saber de algumas coisas anos depois, quando conheci um sujeito que foi preso e torturado na época da guerrilha do Araguaia. Ele contou que não era terrorista, só tinha ido lá vender carnês do Baú. Eu também acho que não era motivo para ser torturado.

Não entendo muito de regimes, daí minha falta de jogo de cintura em política. Só sei que os socialistas, que acusavam o capitalismo de ser a exploração do homem pelo homem, hoje fazem o contrário. Creio que a forma de governo original seja a monarquia, mas se você for parente de D. Pedro, não mande e-mails pedindo meu apoio, pois para mim a linhagem não é muito clara. Nos retratos dos livros de história, D. Pedro II, de barba, parece ser pai de D. Pedro I, muito mais jovem.

Minha monárquica opinião é baseada tão somente na observação dos mais de trinta países que ainda têm reis e rainhas enfeitando seus governos. Alguns como Austrália, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, Japão, Noruega e Suécia não me parecem lugares tão horríveis assim para se viver. Nesses países até quando derrubam o governo, o governo permanece, como aconteceu na Tailândia.

Veja a Inglaterra. Parece até que monarquia faz bem à saúde, porque rainha lá não morre fácil não. Acho que não pode envelhecer e nem mudar o penteado porque seu retrato está no dinheiro. Será que é por isso que gostam tanto dela?

Lá até os jornais adoram a família real, porque se não fossem os escândalos, iriam publicar o quê? Aqui os jornais também gostam muito do governo e não podem reclamar. E alguém lembrou que nem dos impostos devíamos reclamar. Se colocássemos na ponta do lápis, veríamos que ainda é pouco, comparado ao que recebemos de volta na forma de entretenimento.

Para encerrar, devo confessar que também sou meio determinista nessa coisa de governo. Acho que o que tem de ser será, e cada um tem aquilo que merece. Os brasileiros têm o Lula, os americanos têm o Bush, e o Kirchner tem os argentinos.




Posfácio

Atendendo a pedidos de mim mesmo, numa análise puramente de comunicação e comportamento do debate Lula X Alckmin na Band eu diria que se estivéssemos na Alemanha o Alckmin logicamente teria levado a melhor. Mas não estamos na Alemanha e nem é lógica a lógica brasileira.

Este é o país da novela, a maior audiência da TV deve ser feminina, e é pelo prisma da dona de casa (que vai dizer em quem o marido deve votar, senão…) que devemos analisar. Se os dois fossem personagens de uma mesma novela, qual teria sido o melhor? O brasileiro se identifica com perdedores, tem dó de sofredores, fica ao lado das vítimas. Brasileiro é empático ao extremo.

Como analisei da outra vez (veja outro “Posfácio”, temos, na novela na telinha, de um lado o retirante nordestino que deu duro para andar de avião de luxo, do outro o médico certinho que disse que vai vender o brinquedo da criança. De quem a mãe tem dó?

Existe ainda a questão da imagem paterna. Muitas mulheres nunca tiveram um pai cordato, carinhoso, compreensivo, que deixasse pra lá as “presepadas” da filha, que fechasse os olhos para suas escapadelas, para o dinheiro que gastou. Já pensou ter um paizão bonzão e compreensivo assim, que não sabe de nada? Ou será que ela iria preferir um pai com pontualidade suíça, que ficasse sabendo de tudo o que acontece em casa, onde ela foi com os amigos, quanto gastou…?

Sim, eu sei que a votação é para presidente, mas o meio através do qual os candidatos se apresentam é o da novela. Ninguém sabe o que é governar um país, mas todo mundo sabe o que é que passa na telinha. Se os dois estivessem numa novela, quem ganharia o papel de mocinho e quem seria o vilão? Vamos lá, você é o diretor e vai escolher os atores. Quem você colocaria no papel do pai bom e quem seria o pai autoritário? (Dica: Alckmin, aprenda a sorrir com os olhos ou peça para seu maquiador criar uns “pés-de-galinha” nos cantos dos olhos).

Lembre-se de que naquele momento há dois atores na tela (na cabeça da audiência) e não dois candidatos a presidente, não dois boxeadores, mesmo porque isso aqui é Brasil e não Irlanda, nosso esporte é futebol-arte, não truculência tipo futebol americano e desfile aqui é de escola de samba, não de soldados com passo de ganso.

Além disso, nossa bandeira tem o verde das matas, o amarelo do ouro, o azul do céu e o branco da paz, não o preto da pólvora, o amarelo do fogo e o vermelho do sangue da bandeira alemã. E somos campeões mundiais da novela, na vida e na tela. Numa novela alguém precisa ser o mau e alguém a vítima, cujo sofrimento e desventuras arrancará lágrimas da audiência. Porque a novela só é boa se fizer chorar.

Eu não sei qual será a estratégia do Lula nos próximos debates, mas minha opinião é que se fizer cara de perdedor sairá vencedor, porque brasileiro tem coração mole. Se chorar ao vivo, então, nem se fale! Não precisa nem de eleição.

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Maquiavel o Poder: História e Marketing
JOSE NIVALDO JR.

Desde sua primeira edição, este extraordinário livro vem despertando grande interesse. Este livro de José Nivaldo Junior tem como proposta o que para o pensador francês era angustiante – interrogar e desvendar a esfinge Maquiavel. José Nivaldo Junior, é publicitário, bacharel em Direito, mestre em História e professor da UFPE. Tem participado, como consultor político, em várias campanhas eleitorais.

Maquiavel, o Poder — História e Marketing é um livro envolvente e transformador, que levanta o véu das aparências e apresenta a face maquiavélica da arte de liderar. Leitura fundamental para políticos, líderes religiosos e empresariais e para todos aqueles leitores voltados para seu próprio aperfeiçoamento pessoal.

A primeira parte do livro aborda ‘O Príncipe’ sob a ótica do marketing político. Os conselhos de Maquiavel são analisados no contexto do seu tempo e adaptados às circunstâncias dos nossos dias. O autor coloca, na segunda parte, personagens como de Gaulle, Cristo, o demônio, Hitler, além de kamikazes e milenaristas, na moldura da História e do Marketing.