Rádios de madeira
por Mario Persona



(español)
Há quase trinta anos conheci um fabricante de aparelhos de rádio durante uma viagem. A marca, segundo ele, era um tributo a Alan Shepard, primeiro astronauta norte-americano, de quem era admirador. Mas ele estava com um problema. Não o astronauta, o empresário.


Seus rádios tinham gabinete de madeira e não eram páreo para a nova onda de gabinetes de plástico injetado, opção cara para sua empresa. Os grandes fabricantes lançavam um modelo novo a cada estação. Não via um futuro promissor para seu negócio.

Perdi o contato com o empresário e não sei o que aconteceu com sua empresa. No Google e só encontrei seus rádios em sites de leilão ou antiguidades, e já tinham sido vendidos. Ironicamente o futuro do seu rádio estava no passado. Não entendeu? Eu explico.

Contei este caso a meus alunos e dei a eles um trabalho de desenvolvimento de novos produtos. Deviam descobrir uma saída para o fabricante permanecer no mercado sem mudar a matéria prima, a mão-de-obra e os equipamentos de sua indústria. Três trabalhos se destacaram.

O terceiro lugar foi mais pela curiosidade do que pela viabilidade: urnas funerárias equipadas com rádio transmissor-receptor. Caso o morto não estivesse morto, ele poderia entrar em contato com os vivos para o tirarem de lá. Ou aproveitar para ficar um tempo ali ouvindo rádio, dependendo de quem o estaria esperando do lado de fora. Só não podia deixar a pilha acabar.

O segundo lugar ficou para as camas com rádio de cabeceira acoplado, uma idéia viável. Mas a melhor idéia foi continuar fabricando rádios de madeira. Sem mudar nada? Não, mudando o conceito e fabricando réplicas de rádios antigos para decoração. Assim o rádio de madeira voltaria a ter um lugar de destaque na sala sem competir com a TV.

Foi ela que tirou o rádio de lá e o mandou para a cozinha, mas não foi capaz de fritá-lo. O transistor veio em seu socorro tornando o rádio portátil. Durante anos esteve no carro e grudado na orelha de todo torcedor fanático. O radinho de pilhas foi o avô dos walkmans, iPods e tudo o que hoje chamamos de “mobile” em termos de música e informação.

Hoje alguns profissionais de comunicação e donos de emissoras se sentem rádios de madeira diante das novas tecnologias e da Internet. Onde está a saída? Bem, o conceito do rádio continua o mesmo. Ao contrário da TV e do jornal, seu grande trunfo sempre esteve em permitir que as pessoas fizessem outras coisas ao mesmo tempo, como dirigir ou trabalhar. O que muda é a plataforma.

Mas a onda do rádio não está na plataforma, e sim na comunicação com as pessoas. Se são ondas eletromagnéticas, fios telefônicos ou toques de tambor que levam a mensagem aos ouvintes, isso não importa. E se o ouvinte usa uma caixa cheia de válvulas, um celular ou transmissão de pensamento para captar a mensagem, a escolha é dele e a emissora vai ter de se adaptar. O rádio vai continuar existindo e quem não se adapta vira sucata. Antiguidade só funciona para rádios de madeira.

Veja a Philips, que também fabricava rádios e hoje atua até no ramo têxtil. Surpreso? Eles inventaram tecido fotônico, com centenas de LEDs flexíveis de luz colorida em sua urdidura, permitindo que roupas ou móveis estofados sejam transformados em painéis luminosos. Já pensou o que um político seria capaz de fazer com uma camiseta assim? Quem vive deitado no sofá vendo a hora passar vai fazer literalmente isso: uma das aplicações sugeridas é um sofá cujo encosto é um grande relógio digital.

Enquanto eles planejam aplicações mais fashion, eu penso naqueles carregadores de placas nas praças das grandes cidades. Vai ser um alívio deixar de lado todo aquele peso e literalmente vestir a camisa para trabalhar. De dia não vai dar para notar muita diferença, mas já pensou à noite, que espetáculo? A praça vai parecer um jardim de pirilampos, com peitos e costas iluminadas e piscando: “COMPRO OURO”.



Video: mms://Ntstream2.ddns.ehv.campus.philips.com/efi/86090/Lumalive.wmv


Preguiça de ler? Então assista “Rádios de madeira”.




POSFÁCIO

A matéria de capa da VEJA desta semana é o YouTube – A nova era da televisão. Como falei do assunto na semana passada, inclusive incluindo na seção Criado Mudo de meu blog o livro “A Cauda Longa” de Chris Anderson, hoje meu ego vai dormir achando que pautei a VEJA. 🙂

O feriado foi ótimo para eu brincar de cineminha. Bem melhor que no tempo de criança, quando usava uma caixa de sapatos cortada e dois pedaços de cabo de vassoura com uma tirinha de gibi colada com cola de trigo e enrolada. Era minha TV e não usava pilhas.

De lá para cá muita coisa mudou, está mudando e mudará. Se não correr, o bicho… pegou! E é este o assunto de hoje, com foco no rádio. É que esta semana faço uma palestra para profissionais de rádio e donos de emissoras e já estou pensando no assunto. É um setor que se atualiza, mas nem todos.

As emissoras que continuarem pensando à moda antiga desaparecerão. Quem procurar saber onde seu ouvinte está para entregar a ele programação multimídia, seja ela no formato que for, vai continuar. Mas é bom correr enquanto a audiência ainda está ali. Os ouvintes de rádio à moda antiga estão morrendo e a garotada com tocadores de MP3 veio para ficar. Sabia que a nova geração vê as horas no celular e nos eteceteras e não está nem aí mais para relógios de pulso? Outro segmento que não pode perder tempo.

Ainda tem gente achando que ter uma concessão é suficiente para permanecer no mercado. Engano. Enquanto escrevo ouço uma rádio na Internet que nem sei se tem algum tipo de concessão. Até eu estou me achando radialista! Esta semana foi ao ar o Vida, Carreira & Negócios no PodcastOne.

A propósito, só agora caiu a ficha (pelo menos para mim) de que a a propaganda em podcast ou videocast pode ser perpétua. É que um copia do outro que já copiou do um e a coisa fica rodando por aí indefinidamente.

Voltando à TV Barbante, descobri que posso interagir com bonecos em 3D criados pela www.gizmoz.com originalmente para messengers, mas com planos de expansão (veja exemplo). No último vídeo conversei com o Asdrubal, que queria dicas de marketing pessoal. Agora converso com o Totó, um cãozinho que quer ajudar seu dono que tem uma PetShop. 🙂

Descobri também um serviço de vídeos patrocinados e estou com a TV Barbante lá também. Se você assistir algo meu lá e no final clicar na propaganda eu ganho um café do patrocinador.

Habla español? Então clique aqui para ler uma crônica anterior “Quer fazer um MCA?” traduzida para o espanhol por Henriette Borbely de Casciotti.

Finalmente, assista aqui o ‘making of’ (êta nóis!) da gravação em estúdio do primeiro programa em podcast da série Vida, Carreira e Negócios:

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Manual de Radiojornalismo
HERODOTO BARBEIRO e PAULO RODOLFO DE LIMA

Esta é a segunda edição do Manual de Radiojornalismo. Os autores apresentaram mudanças que foram aprendidas com mais leituras, pesquisa e prática cotidiana. O Rádio viveu três momentos cruciais: a sua invenção e propagação pelo mundo, o advento da televisão e o desenvolvimento da internet. Nestas circunstâncias históricas desses acontecimentos o rádio sofreu modificações profundas até chegar ao que é hoje em sua contribuição para a difusão de notícias e do entretenimento.