Discriminação profissional
por Mario Persona



Discriminação sempre irá existir. Social, racial, profissional e até dental. Faça você parte deste ou daquele grupo, tenha esta ou aquela cor de pele, exerça esta ou aquela profissão, tenha dentes ou não, e você será discriminado por alguém que anda na contra-mão.


Senti-me discriminado pelo tom de dois e-mails que recebi. Um revelava discriminação dental, ao indagar: “Será que você não está tentando ser um guru da vida, com esses dentes branquinhos, sorriso bonito e Web site pessoal?”. Fui obrigado a revelar meu segredo: como fazem nove entre dez estrelas do cinema, escovo meus dentes com Creme Dental PhotoShop.

O segundo e-mail, aparentemente de um professor de marketing atuando em três faculdades, poderia tanto ser de dúvida sincera como de discriminação profissional:

“Você considera ético ter formação em uma área (arquitetura) e atuar profissionalmente em outra (comunicação e marketing), mesmo sem a necessária formação acadêmica para tal atividade e justificar como uma ‘paixão’?”

Já tive uma dúvida assim quando comecei a escrever para jornais, revistas e sites. Em 2001 consultei uma advogada do sindicato dos jornalistas, que respondeu:

“Você só poderia estar ‘legalmente’ escrevendo sobre arquitetura e/ou assuntos relacionados à sua área de conhecimento e somente com um registro no DRT como colaborador. Portanto, não poderia estar escrevendo em nenhum veículo de comunicação, mesmo na Internet. Assim, recomenda-se o curso de Jornalismo, ou seja, a graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, para futuramente requerer o seu registro no MTB.”

Ou seja, a menos que eu escreva sobre arquitetura, área na qual não atuo desde meu último cliente, Quéops, no Egito, a letra da lei diz que sou um contraventor das letras. Mas até onde é sensata essa discriminação contra quem não está preto-no-branco na qualificação? Cláudio de Moura Castro, que é economista, abre assim o seu artigo “Tapetão Medieval” na Veja sobre as normas para o ensino da administração no país:

“Imaginemos um bilionário tupiniquim cismando de fundar uma fantástica escola de administração. Para isso, lista os professores mais distinguidos do globo: Amitai Etzioni, Fritjof Capra, Humberto Maturana, Henry Mintzberg, Herbert Simon, Joseph Juran, Michael Porter, Peter Drucker, Peter Senge e Tom Peters. Contudo, nenhum deles poderia ser contratado, pois não têm diploma de administração de empresas, exigido pelo Conselho Federal de Administração.”

Foi nele que me inspirei quando escrevi “Conversa de telefone”. O fato de ter sido publicado na edição 1900 da revista é só coincidência, não uma alusão ao século 19. Mas serve para lembrar que numa época de mudanças rápidas você sempre encontra profissionais que correm por fora para obter a chamada notória especialização por desempenho, estudos e publicações. Conhece algum adolescente que dá banho de informática em professor? É disso que estou falando. Ele é formado na escola da paixão.

Foi o que respondi ao professor que me escreveu, dando ênfase à sua responsabilidade em abrir a mente de seus alunos para saberem administrar suas carreiras:

“Se eu fosse você, ao invés de me preocupar com questões assim ajudaria seus alunos a enxergar que precisam estar prontos para assumir uma carreira que pode não ser aquela na qual empenharam cinco anos de faculdade, ou porque ainda não tinham descoberto sua vocação real ou por terem encontrado um mercado completamente diferente do existente em seu primeiro ano de estudos. Cada vez mais profissões terão uma vida útil menor que a vida útil dos profissionais que nelas atuam”.

Sugeri ainda que conhecesse a história de Vivien Theodore Thomas. Ele tinha dezenove anos quando, em 1930, foi contratado pelo Dr. Alfred Blalock como faxineiro de laboratório. Quando Blalock se tornou cirurgião-chefe do Johns Hopkins Hospital, levou consigo Vivien por causa de sua paixão por medicina e habilidade na criação de instrumentos cirúrgicos. Na América racista de sua época, Vivien, que era negro, causava chiliques nos médicos do lugar ao circular de jaleco branco. Afinal ele não passava de um faxineiro.

Faxineiro? Vivien Thomas aprendeu cirurgia na raça e foi capaz de criar um desvio numa artéria para reproduzir a doença azul em um cão. Depois operou o coração do animal e solucionou o problema, a despeito das lendas médicas de sua época considerarem o coração um órgão inoperável. Depois o Dr. Blalock viria a repetir a operação em um paciente humano, com Vivien Thomas de pé num banquinho atrás de si, vendo tudo por sobre seu ombro e dizendo-lhe o que fazer.

Obviamente o crédito pela descoberta ficou com o Dr. Blalock e Vivien Thomas continuou, sem diploma, nos bastidores da medicina e da história. Mas só até 1976, quando a Johns Hopkins University lhe concedeu um título honorário de “Doutor em Direito”. Discriminação? Claro que não. Deve ter sido por causa do ventrículo do coração responsável por sua notória especialização. Se fosse o outro, ele seria “Doutor em Esquerdo”.

Quase Deuses (Something the Lord made)
Mos Def e Alan Rickman

Quase Deuses conta a história verdadeira e emocionante de dois homens que desafiaram as regras em sua época para iniciar uma revolução médica. Na Baltimore dos anos 40, o Dr. Alfred Blalock (Alan Rickman, de Harry Potter e o Cálice de Fogo) e o técnico de laboratório Vivien Thomas (Mos Def, de Uma Saída de Mestre) realizam cirurgias cardíacas usando uma técnica sem precedentes, atuando como equipe de uma maneira impressionante. Mas ao mesmo tempo em que travam uma corrida contra o tempo para salvarem a vida de um bebê, ambos ocupam diferentes condições sociais na cidade. Blalock é o saudável homem branco que comanda o Departamento Cirúrgico do Hospital Johns Hopkins; Thomas é negro e pobre, um habilidoso carpinteiro. Quando Blalock e Thomas desbravam um novo campo na medicina, salvando milhares de vidas graças ao processo, as pressões sociais ameaçam minar sua parceria e por um fim à amizade que nasceu entre eles.