O que é o sucesso para você? E para seus filhos?
por Mario Persona



O que é o sucesso para você? E para seus filhos?

:satisfied: Não costumo reprisar minhas crônicas. Mas hoje senti necessidade de fazê-lo, em vista do lamaçal em que nossas instituições parecem estar mergulhadas no presente momento. Ontem vi um depoente numa CPI dizer que já não pode freqüentar a escola de seu filho. E o filho, o que sente em meio a tudo isso? O normal é que um filho sinta orgulho de seu pai, não o contrário.


É claro que o filho não é culpado pelo modo de proceder de seu pai, mas é importante que todo pai saiba que seu modo de proceder tem conseqüências maiores e mais duradouras do que sua reles passagem por este mundo. Olhinhos pequenininhos observam e retêm o que vêem. Por isso senti que era hora de reprisar a crônica que é também o último capítulo de meu livro “Marketing de Gente”. Principalmente depois do e-mail que acabo de receber de uma leitora que diz:

“Gostaria de lhe informar que chorei, a emoção tomou conta de meus olhos enquanto lia sobre seu pai. E verifiquei que tenho também muito orgulho do meu paizão. Meu pai é uma pessoa maravilhosa. Tanto que abri uma comunidade no Orkut em homenagem a ele. Minhas irmãs aderiram e meus amigos também. O manual do sucesso dele vem todo musicado. São belas letras, harmonias e melodias lindas, inexplicáveis. Desde pequenina quero ser, quero fazer música e ser tão inteligente quanto ele!”

E você, quer que seu filho seja como você?



O que é o sucesso para você? E para seus filhos?

Nossa vida é breve demais para errarmos em nosso planejamento estratégico. Tudo o que investimos nela pode ser recuperado, exceto nosso tempo. Só temos a porção que nos foi dada e é com essa porção que iremos determinar se nossa passagem aqui foi um caso de sucesso ou não. As maiores realizações das pessoas nem sempre estão nos jornais e na TV. O verdadeiro sucesso é sutil demais para ser público e notório. O que é o sucesso para você?

Em 1998 meu pai mudou-se para o céu. Era ele o Mario Persona original, sem os nomes do meio que dividem minha cédula de identidade. Curiosamente, foi quando ele estava aposentado demais para ensinar que me incutiu as mais fundamentais lições. Seus últimos quatro anos de vida foram passados numa cadeira de rodas, vítima de um derrame.

Um idoso inválido e dependente não é exatamente o que chamaríamos de padrão de sucesso em nossa sociedade. Na mídia que amamenta nossa mente os homens de sucesso são atléticos, não inválidos. Vestem Armani, não pijamas, e nem são calvos como meu pai, mas esvoaçam cabelos abundantes em carros conversíveis. Vivem acompanhados de mulheres siliconadas e deslumbrantes, nada parecidas com minha mãe, que fez proezas para cuidar do homem que amava.

A imagem de homem de sucesso que tentam nos vender só vale para quem se chama James e tem Bond por sobrenome. Na vida real não há muitos assim. Do lado de cá de Hollywood, somos todos iguais. A barriga atrapalha, vestimos roupas de liquidação, o carro está longe de ser o do ano e não existe uma versão do PhotoShop que alise as estrias e celulites em coxas de carne, como fazem com as fotos digitalizadas das revistas. Mesmo assim, num mundo de gente de verdade há quem persiga a ilusão de um sucesso de mentira.

O que é ser bem sucedido? A resposta depende dos padrões que adotamos. John D. Rockefeller respondeu “mais um pouco”, quando lhe perguntaram quanto dinheiro é suficiente para ser feliz. Para os padrões ocidentais de beleza, ser magra, alta e caminhar como a Gisele Bündchen é o padrão. Adotamos modelos como modelo e tentamos nos modelar por elas. Mas o que nos falta em dinheiro de um Rockefeller nos sobra em barriga ou culote quando vestidos em roupa manequim Bündchen.

Antes de buscar o sucesso a qualquer custo, é bom definir o que é sucesso para você. Vivemos cercados de ilusões intocáveis: carros que nunca teremos, cruzeiros que nunca navegaremos e mulheres que jamais beijaremos. O melhor é ter os pés no chão quando a questão for sucesso e fazer um planejamento de longo prazo. Sugiro, até, de eterno prazo. Ou você levará uma vida movida a inveja e desalento. Sonhe seus próprios sonhos, não os que a propaganda lhe mandar sonhar.

A definição de alvos consistentes é pré-requisito para uma carreira de sucesso. Ajuda a evitar que você seja apenas mais um inseto voando rumo ao que dizem ser um sol de oportunidades e não passa de um anúncio de néon. Para meu pai, sucesso não era ficar rico ou ser astro em alguma área, mas apenas trabalhar, cuidar da família e fazer a vontade de Deus. Ele atingiu sua meta.

Uma meta medíocre, diriam alguns. Mas é uma meta muito parecida com a de milhares de mães, pais, professores, garis, operários, funcionários públicos, motoristas, bombeiros, mecânicos, enfermeiras e tantos outros anônimos, cujo sucesso está depositado no peito, não na conta bancária. O sucesso não está na quantidade do que você faz, mas no valor daquilo que permanece. Não se preocupe se achar que o que faz é apenas um grão de areia no oceano. As mais belas praias são aquelas formadas pelos menores grãos.

O sucesso monetário pode não ser um sucesso feliz. “Ganhei muitos milhões, mas eles não me trouxeram felicidade”, disse John D. Rockefeller. Outro milionário, John Jacob Astor, confessou: “Sou o homem mais miserável na face da Terra”. Se nunca ouviu falar dele, não se preocupe. Apesar de ter sido um bem-sucedido milionário em sua época, só me lembrei de seu nome por causa de sua relação com dois filmes de sucesso. “Titanic”, em cujo naufrágio o próprio John Jacob Astor morreu, e “Esqueceram de Mim 2”, que se passa no famoso Waldorf-Astoria, o hotel que construiu antes do naufrágio.

Fui visitar meu pai com minha cabeça ocupadas com problemas que pareciam ser os mais importantes do mundo.

— Olá, papai, tudo bem? — cumprimentei em modo automático.

— Tudo ótimo, não poderia ser melhor — foi a resposta que me socou, vinda do que restou de seu corpo encurvado e disforme.

A lembrança que carrego de meu pai é a de um homem de sucesso. Ele trazia aquela tranqüilidade de quem cumpriu sua missão, enquanto eu o observava em sua cadeira de rodas, folheando as páginas amareladas de sua Bíblia, o seu “Manual do Sucesso”, com a única mão que funcionava e fingindo ler o que a vista já não enxergava. Não sei se meus filhos irão se lembrar de mim como um homem de sucesso. E os seus, como se lembrarão de você?
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