Cabeças rolam, vassouras varrem
por Mario Persona



Cabeças rolam, vassouras varrem

Acredito que estamos vivendo um momento interessante na comunicação. Piers Morgan, editor do Daily Mirror, acaba de ser varrido de seu posto por publicar fotos falsas. No Brasil, um jornalista quase foi varrido do país por sua matéria etílico-jornalística de fundamentação duvidosa. Enquanto isso, o Al Jazeera publica uma notícia inteira baseada em informações colhidas de blogs. Estaríamos vivendo uma mudança de mãos do poder da comunicação?


Este blog não tem cunho jornalístico. Porém, não posso deixar de enxergar tendências, e temos uma importante correndo aí. Em “Não adianta beber para esquecer”, falei da matéria pouco sóbria do NYT influenciada por questões culturais e pela opinião de “alguns web sites”. Agora parece que o jornalista Larry Rohter fez escola.

É que logo depois saiu uma matéria inteira do Al Jazeera baseada na opinião de bloggers – os informais escritores de blogs – colocando em dúvida a autenticidade do vídeo que mostra o americano Nick Berg sendo decapitado. Com o título de “Bloggers doubt Berg execution video”, o autor Lawrence Smallman (um parente menor de Lawrence da Arábia?) informa:

“Even at first glance, internet bloggers were asking on Thursday why Nick Berg was wearing an orange jumpsuit – just like US prisoners wear.” Mais adiante… “Other questions presented by bloggers are Berg’s peculiar circumstances in the weeks before his death. Why would a private Jewish American citizen choose to wander around Iraq by himself?” e também… “Some bloggers focused on the accent of the purported executioner. Many deny the accent is either Iraqi or Jordanian – while claims the voice is Egyptian or Iranian have been made.”

Percebeu que estamos lendo uma imprensa baseada em outra imprensa? Como isso irá se desenvolver daqui para a frente, eu nem imagino. Se você estiver colocando em dúvida a credibilidade de quem escreve em blogs, lembre-se novamente de que a cabeça do editor do Daily Mirror, Piers Morgan, rolou por causa das fotos falsas de brutalidades contra prisioneiros iraquianos publicadas por aquele jornal.

Sim, concordo que a sua saída já acrescenta um bom argumento à questão da credibilidade da imprensa convencional – existe uma corte marcial interna na mídia – mas numa época em que existem tantas vozes – oficiais ou não – buzinando em nossos ouvidos, sempre é bom nos municiarmos do velho caldo de galinha chamado cautela para filtrar o que chega até nós.

Neste contexto, é interessante a opinião que encontrei no blog “Seldom Sober”, que traduzido seria “Nem Sempre Sóbrio”. Aparentemente ele estava sóbrio quando escreveu:

“Carta Aberta às Pessoas Conectadas na Internet por Ocasião do Episódio Nick Berg que Me Trouxe um Número Incomum de Visitantes

“Se você estiver procurando por este vídeo (do americano sendo decapitado) por ter algum tipo de fetiche doentio por filmes assim, é melhor desligar seu computador e procurar fazer terapia agora mesmo. As primeiras cópias deste vídeo apareceram em sites que são dedicados a doentes como você. Sinto que você tenha sido amaldiçoado por essa enfermidade psicológica, mas não saia por aí, pela Internet, tentando satisfazer seus instintos mais baixos. Procure ajuda. Agora mesmo.

“Se estiver aqui por outros motivos, quero dizer-lhe algumas coisas. Foi a blogosfera (comunidade daqueles que escrevem weB LOGS) que deu o furo desta história, não a Grande Mídia. A blogosfera continua a cobrir os fatos enquanto a Grande Mídia continua a ignorá-los. A blogosfera tem a coragem e a integridade de mostrar este vídeo (ou imagens dele) enquanto a Grande Mídia o denuncia como “Ofensivo”, ao mesmo tempo em que continua mostrando fotos de prisioneiros iraquianos nus, empilhados uns sobre os outros.

“Este não é um fato isolado! Se você não está familiarizado com a blogosfera, comece a se familiarizar hoje mesmo. Nós damos furos de reportagem e cobrirmos histórias como esta o tempo todo. Costumamos ser honestos em nossa cobertura, mesmo que nem sempre objetivos. Cobrimos histórias que a Grande Mídia não cobre por causa de seus compromissos, por causa de suas ligações, ou por quaisquer outras razões. Não faça de sua busca por esta trágica história a sua última visita à blogosfera. Oferecemos honestidade e (na maioria das vezes) veracidade com regularidade. Tente encontrar isto no New York Times.

Sinceramente,
Rich Marotti, autor de Seldom Sober”

Aí está a opinião de Rich Marotti. Embora eu também caminhe por blogs com o mesmo cuidado que caminho pela imprensa em geral – sempre com um pé atrás – seria interessante conhecer sua opinião a respeito dessa notória mudança de mãos do poder da comunicação. A dona Maricota, que ficava na calçada apoiada na vassoura passando as últimas fofocas para a vizinhança agora está on-line. E sua voz pode chegar a milhões de vizinhas. Entre uma varrida e outra.



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Reino e o Poder: uma História do New York Times, O
GAY TALESE

Porta-voz do establishment, durante boa parte do século XX, o New York Times exerceu efetivamente o ‘quarto poder’ nos Estados Unidos. Como toda grande instituição, abrigou lutas e batalhas pelo poder, numa guerra traduzida em conflitos de personalidade, manipulações, choques de interesses, alianças táticas, vitórias exultantes e decepções profundas.
A história desse grande jornal é apresentada aqui pelo editor e ensaísta Gay Talese, um dos expoentes do ‘novo jornalismo’- gênero que combina as técnicas descritivas do romance com o realismo da não-ficção. Talese expõe a filosofia e os princípios editoriais do Times, descreve as mudanças que o jornal sofreu ao longo de mais de um século de existência, identifica suas contradições, analisa a atuação de suas figuras-chave e destaca suas relações (às vezes incestuosas) com o poder político.

Jornalismo e Desinformação
LEAO PINTO SERVA

O jornalista Leão Serva investiga, em “Jornalismo e Desinformação”, as causas da, em suas palavras, “profunda ignorância dos leitores de jornal acerca dos fatos cobertos pela imprensa”.
Serva, que já foi diretor de quatro jornais diários brasileiros, correspondente de guerra da Folha de S.Paulo na Iugoslávia entre 1992 e 1993 e atualmente é diretor de jornalismo do iG, afirma que o jornalismo não consegue preencher sua premissa básica: a de informar.
A causa, para ele, não está numa suposta incompetência dos jornalistas ou má-fé das empresas de comunicação, mas nas “características sistêmicas imanentes ao jornalismo”. Em outras palavras, os próprios princípios em que está baseado o jornalismo levam à desinformação. [leia a continuação desta resenha aqui.