A TV falou que faz bem. A TV falou que faz mal.
por Mario Persona




A TV falou que faz bem. A TV falou que faz mal.

Minha mãe ligou bem na hora em que tirava uma soneca e sentenciou: “A televisão falou que se você vendeu um carro e não avisou o Detran, as multas vêm em seu nome!”. Estes alertas relâmpagos são comuns em minha vida.


Um dia é o Detran e o carro vendido, outro dia é o café que faz mal e depois passou a fazer bem, a aspirina que tirava dor de cabeça e agora cura o coração, e por aí vai. A mídia não é só formadora de opinião. É o oráculo dos deuses, a voz da sabedoria, a palavra final. Será?

Os problemas de credibilidade da imprensa que mencionei ontem parecem pipocar agora na fleumática Inglaterra. O Daily Mirror se desculpa: “The Daily Mirror published in good faith photographs which it absolutely believed were genuine images of British soldiers abusing an Iraqi prisoner.”

É que várias fotos de abusos sexuais contra prisioneiros ilustraram as páginas do jornal para vender mais sem verificar a origem. Em quem acreditar? Alguém já avisou que publicar foto na Internet pode causar problemas. Este aqui, por exemplo, vai ter problemas para explicar que toda essa versatilidade é verdadeira.

Mas voltando ao jornalismo, a profissão ocupa um humilde décimo quarto lugar, dentre 23 profissões, com apenas 25% de credibilidade na pesquisa que o The Gallup Organization fez em 2003 sobre honestidade, ética e credibilidade das profissões. As enfermeiras estão em primeiríssimo lugar, o que é mais uma razão para você comprar o livro de minha filha que é enfermeira.


Honestidade e Ética nas Profissões Fonte: Gallup – 14/11/2003 publicado em www.pharmacist.com

Mas não escrevo aqui para vender livros – ou pelo menos não só para isto – mas para analisar como o mundo que vemos está mudando. Porque o que vemos cada vez menos é o que realmente é. Basta um PhotoShop, alguns retoques aqui e acolá, e você tem uma nova versão dos fatos. Quaisquer que sejam. E se tiver talento para escrever, vai provar que o réu é inocente, pois o que matou realmente a vítima foi a bala.

É importante aqui deixar claro a importância da imprensa, mas de uma imprensa de credibilidade. Como é importante deixar claro a importância da comunicação como um todo, e da comunicação com responsabilidade e credibilidade. De empresas, inclusive.

Com o recente acesso de empresas e indivíduos à Internet e a um poder de comunicação que pode se equiparar ao de um jornal ou rede de comunicações, ficou tentador parecer o que você não é. Comento como parecer o que você é, com dicas “do bem” para empresas que desejam ter uma projeção maior na Internet, em minha entrevista ao Heródoto Barbeiro. A entrevista vai ao ar pela CBN entre 6:00 e 9:00 horas da manhã do próximo domingo, 16 de maio, mas você já pode ouvir aqui.

Na entrevista comento meu livro Crônicas de uma Internet de verão. Já a dose de cautela no uso desse poder todo eu indico em meu outro livro Gestão de Mudanças em Tempos de Oportunidades, onde faço faço um alerta contra a tentação de se querer parecer o que não é em um trecho que diz:

Antigamente era preciso investimento para se criar uma imagem respeitável. Sede própria, catálogos impressos, telefonistas, assessoria de imprensa, publicidade. Ficar conhecido no bairro já custava caro. Visto no mundo, impensável.

E hoje? Bem, com a tecnologia da informação ficou fácil trabalhar em casa. Qualquer um pode imprimir catálogos com qualidade fotográfica, ter uma telefonista digital, fachada na Internet e recursos de comunicação para falar até com Marte. Com pouco investimento é possível criar uma empresa que é um sonho. Literalmente falando.

Ou um pesadelo, realmente falando. Se a tecnologia esticou a perna dos negócios, também encurtou a perna da mentira. Ela agora tem perna mais curta. Clientes têm igual poder tecnológico para recomendar ou arrasar. Só que multiplicado pelo número dos que forem ludibriados.

Credibilidade é fruto de habilidade edificada sobre o alicerce da verdade. Quando visito um cliente, quero conhecer que lastro de realidade existe por trás de sua capacidade. Meu avô já dizia que nem tudo que reluz é ouro e nem todo sapato é de couro. Se eu não ficar convencido, será que consigo convencer alguém com uma estratégia de comunicação?

Consigo, mas não devo. Quando jovem, trabalhei em vendas para uma empresa cujo catálogo estava visivelmente ultrapassado. As fotos eram de pessoas da década de quarenta, mas eu não era tão velho assim. Nem a empresa. Descobri depois que era tudo forjado, até a foto da fábrica, que nunca existiu. Solidez e tradição, só na aparência.

Alguém poderia chamar isso de marketing, mas não é. O verdadeiro marketing procura dourar, não a pílula da ilusão, mas os resultados de uma solução. Cria valor. Em minha profissão corro esse risco de parecer o que não sou. Por me valer das letras, da oratória e da tecnologia da informação, há quem pense que sei mais do que conheço. A tentação de me deixar embalar nesse regaço é grande, e às vezes me pego cofiando a barba de uma sabedoria emprestada.”

Como conviver com isso? Acho que vai ficar cada vez mais difícil. Na mesma medida em que você pode parecer o que não é, alguém pode querer fazer com que você pareça o que é ou o que não é, ou o contrário, que pode ser justamente o oposto. Está confuso? Então pense nesta frase que encontrei em algum lugar por aí e vai pensar duas vezes antes de aceitar tudo o que ler na mídia:

“O que eu disse e o que você ouviu são coisas totalmente diferentes e aquilo que você pensou que eu disse não tem nada a ver com o que eu quis dizer

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Manipulação do Público: Política e Poder Econômico no Uso da Mídia, A
NOAM CHOMSKY EDWARD S. HERMAN

Descreve o papel da mídia de massa na formação da opinião pública. Vários estudos de casos comprovam a influência da mídia ao fazer julgamentos apressados, legitimar acontecimentos, decidir quem venceu uma guerra, simplificar conflitos internacionais etc. Mostra que a mídia não é um veículo independente, comprometido com a verdade e imparcial. Os meios de comunicação social de massa têm servido aos interesses daqueles que os controlam e financiam. Para comprovar tal teoria, são apresentados vários casos que abrangem as duas últimas décadas, que incluem: a maneira pela qual a mídia cobriu a aprovação do NAFTA e a subseqüente crise financeira do México de 1994-1995, o tratamento dado aos protestos contra a OMC, o Banco Mundial e o FMI, em 1999 e 2000, e a conivência da mídia com os abusos praticados pela indústria química.