É pau? É corpo? É o fim da conversa.
por Mario Persona



É pau? É corpo? É o fim da conversa.

O silêncio na mente dos dois pescadores só era quebrado pelo violino solo de algum mosquito. Ou pelo mergulho da isca naquelas águas sonolentas, desenhando um leve bocejar de lábios marolas. Silvino era o fazendeiro, amigo de meu pai, que pescava com o capataz e piloto da canoa. Mas foi o capataz quem viu.


– Aquilo na água parece um corpo, seu Silvino – sussurrou o capataz.
– É não – retrucou Silvino sem olhar. – É um pau.
– Acho que é um corpo – insistiu.
– Vamos ver… – desistiu Silvino, antes que o ser ou não ser virasse questão.

Era um corpo. Avisada a polícia, o cadáver deu mais trabalho para o Silvino do que para o assassino. Boletim de ocorrência daqui, inquérito dali, declaração de acolá, sua vida virou um inferno. Era uma época em que cadáveres eram raros e ser delegado de interior um tédio.

Os tempos mudaram. Coisas importantes ficaram banais e coisas banais não mais. O corpo que Silvino achou então, hoje não teria encontrado. O delegado não teria perturbado, o capataz não teria enxergado. Todos estariam de costas, até peixes e mosquitos. As pessoas ficaram mais céticas, mais escoladas, mais escaldadas.

Tudo mudou, menos a comunicação de algumas empresas que insistem em comunicar como comunicavam nossos pais. Os mesmos clichês para uma geração que duvida de tudo o que cheire a blá-blá-blá. Como conquistar essa geração? Ou primeiro, como reter sua atenção?

Antes de ser competitiva no mercado, a empresa precisa ser competitiva na comunicação. Precisa chamar e reter atenção se quiser gerar ação. Pelo menos era essa a tônica de um artigo que li anunciando as “Dez Previsões Para o Novo Ano” na área de conteúdo para sites empresariais. Como escrevo para a Web, o assunto me interessou.

Por que? Porque nesta questão eu sou fornecedor, mas também sou cliente. Antes de criar textos eficazes para websites alheios, tenho que me livrar do espeto de pau de minha casa de ferreiro. Tem que funcionar para mim.

Cada vez mais gente vai à Internet procurar produtos e serviços. Então, ser encontrado ali é estratégico. Depois de atrair, reter a atenção é vital, pois o concorrente está a um clique de distância apenas.

Ninguém vai encontrar seu site bonito se ele não tiver as palavras certas. O belo só serve depois de criado o primeiro elo. Uma vez achado, é preciso ir direto ao assunto porque ninguém tem tempo a perder.

Contei cinco minutos de abertura cinematográfica, com naves espaciais, planetas e robôs ao som de uma batida high-tech, antes de aparecer um menu. Não era um site de uma banda de rock, mas de um fabricante de equipamentos industriais.

O que o seu gerente iria pensar de você assistindo uma animação assim no trabalho? Adiantará dizer que estava fazendo uma cotação? Você é quem conhece o chefe. As empresas querem resultados. Rápido.

Talento é essencial para escrever na Web. Dizer logo o que o cliente quer ouvir, destacar o que ele precisa, oferecer aquilo que resolve. Ele irá encontrar o que buscou, conversar com quem encantou e comprar o que sempre sonhou. Fogos de artifício enfeitam, mas não convencem. Ainda usamos palavras para convencer.

Tudo ia bem no artigo que li até descobrir que “As Dez Previsões Para o Novo Ano” nada mais eram do que dez serviços que ele estava tentando me oferecer. Minha confiança desmoronou. Era a raposa prevendo que este ano as galinhas mais chiques dormirão fora do poleiro. Sujou e não colou, como a conversa do capataz na pescaria dois anos depois.

O silêncio era o mesmo da outra vez. O rio, a canoa, as varas, tudo igual. Até os mosquitos. De novo mesmo, só um pau boiando perto da margem. Um pau?

– Acho que é outro corpo – comentou o capataz com voz lúgubre.
– É um pau – sentenciou Silvino.
– E se for um corpo?
– Serão dois se você não ficar quieto.

REDAÇÃO PUBLICITÁRIA – JOAO ANZANELLO CARRASCOZA
Muito bom para ler e reler. Oito ensaios sobre redação publicitária que desvendam a arte de persuadir com palavras e seu mecanismo no cérebro. Títulos atraentes, texto elaborado, discurso deliberado. Tudo aparece aqui para mostrar que a redação ainda é a campeã para levar o cliente à ação. Ação de comprar o que você tem para vender.
O prefácio é de Roberto Dualibi, de quem recorto algo que tem tudo a ver com minha crônica acima: “Antigamente a imagem tinha mais crédito, porque se partia do axioma de que as fotografias não podiam ser manipuladas. Hoje, como sabemos, as técnicas de computação gráfica permitem reconstruí-las até o último limite da fantasia… Uma boa imagem pode ser excitante, mas nem sempre é auto-explicável. Ela pode mostrar o instante, mas não o momento anterior, nem o posterior – que são elementos fundamentais de qualquer argumento.”