O que é, o que é?
por Mario Persona



O que é, o que é?

Será que o novo é realmente novo ou é possível encontrar um paralelo nas coisas passadas? Quem lê minhas crônicas e meus livros sabe que adoro escrever na forma de parábolas, analogias e figuras. É porque nosso cérebro funciona assim, fazendo associações.


Por esta razão a melhor maneira de aprendermos algo é fazendo uma associação. Para quem tem memória fraca, como eu, existe a técnica de se associar um novo conhecido a um homônimo do qual você dificilmente se esqueceria. A idéia é semelhante. Além disso, quando fazemos uma associação ou analogia, geralmente usamos um exemplo na forma de uma história. Você é capaz de se lembrar em detalhes de uma piada de uma página que leu apenas uma vez, mas não consegue se lembrar de um texto técnico do mesmo tamanho.

Falando sobre o que ouviu de Tom Standage, autor de “The Victorian Internet” numa discussão na Royal Society of Arts, livro comentado por Renato Sabbatini, Charles Handy, autor de “O Elefante e a Pulga”, reproduz mais ou menos assim (adaptei ligeiramente para caber no contexto):

“A rede resultante dessa invenção, que se assemelhava a uma teia de aranha, crescia a uma velocidade exponencial. Ela deu origem a novas empresas e modelos de negócios e levou a uma aceleração no ritmo da vida comercial que, desde então, ainda não foi igualada. As empresas não tinham escolha ao aderirem à nova tecnologia; havia reclamações de sobrecarga de informações e intromissão na vida familiar.

“Novas formas de crimes surgiram e levaram ao desenvolvimento de códigos e cifras. As pessoas conversavam em ‘salas de bate-papo’, contavam piadas, faziam fofocas e jogavam xadrez. Inevitavelmente, o romance acabava florescendo entre operadores sediados em cidades distantes

“Engodo era o que não faltava. Alguém chegou a declarar que todo os habitantes da terra seriam reunidos numa única fraternidade intelectual. Os mais sábios proclamavam uma nova era de paz. ‘É impossível que velhos preconceitos e hostilidades continuem a existir’, declarou alguém, ‘pois esse instrumento foi criado para a troca de pensamentos entre todas as nações do planeta'”.

O que é, o que é? Se você respondeu Internet, errou. O autor fala da introdução do telégrafo na sociedade vitoriana e do impacto que causou nas comunicações. Recentemente um grupo de banqueiros em Genebra colocou um anúncio no The Economist com a seguinte frase: “Trabalhamos on-line há 200 anos”.

Isso lembra o que um rei escreveu há mil anos: “Há alguma coisa de que se possa dizer: Isto é novo? ela já existiu nos séculos que foram antes de nós.” Rei Salomão no livro de Eclesiastes. Uma das melhores maneiras de se enxergar um novo negócio é procurar uma associação ou analogia com alguma coisa que já existe. A cada dia me surpreendo com o que é possível aprender das gerações passadas.




O Elefante e a Pulga – Charles Handy
Autobiografia de Charles Handy, pensador europeu da área administrativa e autor de “A era da incerteza”, entre outros livros. Ele aborda assuntos diversos, desde educação, trabalho e casamento até capitalismo, gerenciamento e sociedade. Leitura indispensável para quem pretende trabalhar por conta própria, consultores, palestrantes, professores etc.