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Estas são as suas vidas Você já ouviu falar do e-book,
tão proclamado, tão discutido, tão pouco lido.
Até agora as tentativas de se passar para o
digital o que era impresso funcionou bem para
textos de pesquisa, como enciclopédias e dicionários,
coisas que não costumamos levar para ler no
banheiro. Mas as tentativas não pararam aí.
Há quem tente fazer do livro um trabalho
interativo, um concerto de quatro a quatrocentas
mãos. Alguém começa e outros continuam, numa
seqüência que raramente chega ao fim. Dos
livros que encontrei na Internet, a maioria
permanece em estado de hibernação. Seus
leitores também.
Stephen
King foi
um que horrorizou o mercado com a idéia de um
livro escrito em doses homeopáticas e adquirido
pouco a pouco. Quando as vendas atingiam um
determinado valor, ele escrevia mais um capítulo,
como se estivesse contando histórias em telefone
desses de fichas. Da última vez que tentei ligar
para o livro só dava "tu-tu-tu-tu...".
Do lado de baixo do Equador o escritor Mário
Prata também
enviou suas letras para as páginas virtuais. O
romance on-line intitulado "Os anjos de
Badaró" permitiu que o público
acompanhasse, durante seis meses, o trabalho de
criação. Depois os anjos voaram impressos para
as livrarias.
Roy
Williams não
escreve exatamente um livro on-line, mas crônicas
de publicidade semanais enviadas em um boletim
eletrônico. Depois, selecionadas, reunidas e
editadas, se transformam em volumes repletos da
sapiência do "Mago
da Publicidade", apelido quase sempre presente em
seus títulos.
Eu mesmo utilizei esta fórmula em meus livros "Crônicas
de uma Internet de Verão", "Receitas
de Grandes Negócios" e "Gestão
de Mudanças em Tempos de Oportunidades". A continuação da série
que tem feito enorme sucesso aqui em casa traz o
título de "Marketing
Tutti-Frutti".
Os livros de Luís
Fernando Veríssimo, que teimam em ficar nas primeiras
posições na lista dos mais vendidos, também são
coletâneas de crônicas publicadas na imprensa.
Quase iguais aos meus livros, a similaridade está
em também serem feitos de papel. A diferença?
Bem, ele é o Veríssimo, filho do Érico e tudo
mais, eu não. Mas minha mãe diz gostar mais das
minhas crônicas.
Será que existe alguma outra maneira de se
escrever um livro usando a Internet. Sim, uma que
ajuda a turbinar a inspiração. Descobri isso em
um debate envolvendo algumas
centenas de pessoas que, durante uma semana, me
bombardearam com perguntas sobre o tema de meu
livro, "Gestão
de Mudanças". Para responder à demanda, em
cinco dias úteis gerei um volume de textos quase
igual ao número de laudas do livro citado.
Este modo de escrever tem tudo a ver com o próprio
cenário de mudanças no qual tentamos nos
equilibrar. A velocidade do mercado exige que
profissionais e empresas reajam rapidamente,
movidos pelos estímulos que chegam a cada minuto
principalmente via Internet. É assim para quem
vende, é assim para quem fabrica, e deve ser
assim para quem trabalha.
Normalmente caímos na vida profissional trazendo
uma formação acadêmica baseada num mercado que
era, ou que a universidade espera que seja.
Acabamos nos sentindo desclassificados ao ler os
classificados. Saímos de uma escola que avaliava
nossa capacidade de resolver problemas segundo
suas respostas de gabarito, para atuar num
mercado que só nos dá os problemas e nenhum
gabarito. As respostas? É para encontrá-las que
somos contratados.
Para um contato maior com a realidade, nossos
mestres apresentavam casos de empresas centenárias
que, descobrimos depois, já não são referência
na absorção de novos profissionais. Até sua
identidade corporativa ficou abalada, tantas
foram as fusões, alianças e terceirizações.
Seus funcionários vivem trocando de empresa sem
sequer saírem da mesa.
Aí descobrimos que já não basta um aspirante a
profissional se formar. É preciso se
transformar, continuamente, estimulado pela
demanda de soluções para as questões
formuladas pelo mercado. Como as que iam chegando
em minha caixa postal, enquanto eu tentava
responder e equilibrar, com todas as outras mãos,
os pratos que giravam nas varetas das minhas
diversas atividades. Que agora ganha mais uma.
A de escrever um livro com o material que
pretendo gerar num grupo de
estudos
mais extenso, a seqüência daquele debate.
Durante seis semanas estarei interagindo com
dezenas de pessoas que vivem, perplexas, dentro
de um videogame profissional passando
constantemente de fase.
Nesse ambiente de mudanças precisam gerenciar
mais de uma vida profissional, evitar ameaças e
agarrar oportunidades. Ainda não pensei num título
para o livro que resultar disso. "Estas
são as suas vidas"? Talvez. Porque na
carreira, como no videogame, precisamos acumular
vidas extras para manter em alta nossa
empregabilidade.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Esta crônica faz parte dos temas apresentados em
suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br
Esta crônica de Mario Persona
pode ser publicada gratuitamente como
colaboração em seu site, jornal, revista ou
boletim, desde que mantidas na íntegra as
referências acima.
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