ENTREVISTA:

"Crônicas de uma Internet de Verão"

Mario Persona entrevistado por Nalu Saad
Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte – Novembro 2001

Nalu Saad – Como surgiu a idéia de escrever um livro sobre Internet?

Mario Persona – Há um bom tempo tenho procurado traduzir conceitos de Internet, B2C, e-business, CRM, cadeia de suprimentos e tantas outras siglas e nomes que invadiram nosso dia-a-dia, e o estilo de crônicas caiu como uma luva para isso. Por sua linguagem divertida, com algumas pitadas de sarcasmo e erudição, a crônica não tem data de vencimento. Ela pode descrever um evento do momento, ou pode manter uma memória fresca do passado. Não envelhece. 

Quando percebi que muitos gostariam de ter minhas crônicas para referência constante, já que todas elas trazem dicas de negócios, marketing e tecnologia, vi que estava na hora de transformá-las em livro. Neste primeiro volume (já existe um segundo a caminho) foram reunidas minhas melhores crônicas para retratar um período da Internet que marcou a sociedade. Desde a euforia contagiante da novidade, até a morte das pontocom, tudo está registrado em duzentas páginas. Mas não é um livro histórico, e sim um verdadeiro manual de dicas para quem quer conhecer como funcionam os negócios na rede mundial. Com capa e ilustrações de Murilo Maluf e uma boa dose de humor.

Nalu Saad – ‘Crônicas de uma Internet de Verão’… O título está relacionado com o lado efêmero da Internet?

Mario Persona – O título tem dois objetivos. Como sou um homem de marketing, não poderia deixar de dar um toque marketeiro ao título. A idéia é fazer uma associação na mente das pessoas com algo que tenha um som parecido. Os cantores brasileiros fazem muito isso, gravando versões de sucessos importados. As pessoas escutam uma vez, acreditam já ter ouvido antes e pensam que a canção é famosa. Esta técnica de se buscar na mente do cliente uma imagem já existente, e completá-la, é a essência do marketing e do atendimento. No caso, "Crônicas de uma Internet de Verão" faz lembrar de "Sonhos de uma noite de verão", de Shakespeare.

Neste sentido o título tem tudo a ver com o conteúdo, ou seja, mostrar, como você bem definiu, o lado efêmero da Internet. Mas não da Internet que continua forte e saudável, como plataforma para sistemas e negócios, mas da bolha pontocom, que quis fazer da tecnologia um negócio de ocasião. O livro ajuda o leitor a discernir o que é falso e o que é verdadeiro em matéria de negócios e uso da tecnologia da informação. 

Nalu Saad – Os negócios on-line já foram "desenganados" por diversas vezes mas os investimentos na área persistem, a Nasdaq tem apresentado índices mais animadores do que o Dow Jones… Como você enxerga esse cenário, principalmente pós-atentados?

Mario Persona – É importante lembrar que a Nasdaq abrange empresas de tecnologia de um modo geral. É claro que continuaremos precisando de redes, servidores, e todo o equipamento que faz a Internet acontecer. Porque é inevitável que os negócios migrem para a rede mundial. Ou, melhor dizendo, que a rede venha a impregnar todos os negócios. Nem imagino mais o que seja declarar imposto de renda sem a Internet. Ou até enfrentar filas em bancos. Viver sem e-mail, então, seria impensável! Meu livro é fruto de uma geração Internet, e até meu estilo tem a influência da nova forma de se ler e escrever para não perder tempo. Mesmo quando escrevo, estou conectado, pesquisando o assunto, aprendendo, buscando idéias. Eu não escreveria assim sem a Internet.

Nalu Saad – Nas relações com clientes, em seminários e mesmo no dia a dia, qual o maior erro que identifica naqueles que investem na Internet?

Mario Persona – Em uma palestra pedi que levantasse a mão todos os que usavam a Internet para negócios. Poucos levantaram. Então perguntei quem declarava o imposto de renda pela Internet. Quase todos. É assim que a rede estará fazendo parte de nossas vidas. Como algo imperceptível, como é o telefone, e cuja falta nós iremos sentir quando faltar. Ao investidor de negócios na Internet cabe aprender a discernir o que é que poderá ser usado pelas pessoas de forma imperceptível. Ali estarão os bons negócios. 

Um sistema que faça a ligação do supermercado até o último fornecedor de matéria prima da cadeia de suprimentos, usando a Internet, é algo revolucionário. Mesmo que os compradores do supermercado não vejam isso acontecendo nos bastidores. O problema foi que a maioria dos negócios pontocom tinha a Internet como fim, não como meio. Seria como eu criar algum negócio de telefone onde o ato de telefonar fosse o mais gostoso. Não daria certo.

Nalu Saad – O que "aconselha" aos otimistas? E aos pessimistas?

Mario Persona – Aos otimistas, que não tenham pressa em criar "negócios de Internet". Que pensem em criar soluções para os negócios existentes. Que permitam às empresas ter o seu braço virtual atuante. Muita coisa pode ser feita, desde que se entenda que a Internet não é a mina de ouro que tanto anunciaram. Mas também não é desprezível. 

Por exemplo, a propaganda na rede. É preciso entender como a rede funciona, como é o comportamento das pessoas, para evitar transplantes rejeitados. Ninguém pensaria em mostrar outdoors na TV, porque são mídias diferentes. Ou ler outdoors no rádio. No entanto, nesse início da Web, o que mais vimos foi um transplante da propaganda convencional para o meio virtual. Em sua maior parte não vingou. Eu uso muito a propaganda na Web, mas ela é imperceptível. Minhas crônicas são uma forma de propaganda. O boca-a-boca que é possível criar, é outra forma. Os relacionamentos criados na rede também podem ajudar muito.

Ah! Você perguntou o que eu diria aos pessimistas? Eu não diria nada, pois eles não iriam querer escutar um otimista.

Nalu Saad – Você acredita que a Internet pode estabelecer uma comunicação mais eficaz nas corporações?

Mario Persona – Com certeza. Dentro e fora das empresas, a Internet é essencial. Mas, volto a dizer, é preciso entender o comportamento das pessoas. Não é apenas transplantar as práticas usuais para a rede. Ontem recebi um boletim de uma agência de propaganda. Não me lembro de ter assinado aquele boletim que me chegou por e-mail na forma de uma página digitalizada com dois megabytes de tamanho. Ao invés de criar um boletim em formato texto ou html, próprios para a Internet, a pessoa simplesmente digitaliza uma página inteira de um impresso e envia como arquivo anexado a um e-mail dizendo algo do tipo, "Aqui vai nosso boletim". 

É claro que esse tipo de comunicação está na contramão da tecnologia da informação. Daí a extrema importância das empresas investirem hoje em capacitação e informação de seu pessoal, para que entendam a ferramenta que tem hoje nas mãos. Cursos são importantes, treinamentos são importantes, palestras são importantes. E até livros, como "Crônicas de uma Internet de Verão". Porque, afinal, sou um homem de marketing.