"SORRIA! VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO!"

O aviso na sala de espera chamou minha atenção. A lente de uma câmera impassível fixava em mim um olhar sem expressão. Ao contrário dos olhos da recepcionista, nem piscava. Privada de lábios, não sorria. O que fazer? Sorrir? Não. Iria parecer tão artificial quanto as pálpebras metálicas daquele olho de vidro.

Imediatamente mudei de posição. Descruzei a perna esquerda de sob a direita e cruzei a direita por sobre a esquerda. O que dava na mesma. Arrumei a gravata. Passei a mão no cabelo para ajeitar uma mecha imaginária. Fingi lembrar algo importante e olhei para o relógio, sem enxergar os ponteiros. Nem poderia. Era digital.

Será que aquele olhar vítreo percebeu que eu analisava as linhas do rosto da recepcionista? O que a câmera iria pensar de mim? Espero que não venha a público minha obsessão pelos traços e riscos da expressão. Resquícios de uma mocidade desenhando retratos que passaram incógnitos por não serem falados. Ainda gravo traços por associação. E desenho retratos mentais como distração.

O lábio superior, encimado por um pequeno "V" ligeiramente puxado em direção ao nariz, "à la Nicole Kidman". Foi o único vestígio da recepcionista que consegui rabiscar em minha prancheta mental. Os meus lábios? Agora sorriam para a câmera. Um sorriso amarelo, impossível de ser registrado em branco e preto. 

Não são só os lábios que deixam marcas. A voz, a roupa, a postura, a conversa, o que sei e o que ignoro. Deixamos pegadas. Por onde quer que pisem nossos pés, toquem nossas mãos, ressoe nossa voz ou flua nossa emoção. Não somos invisíveis, insípidos ou inodoros aos olhos, paladares e olfatos que nos cercam. Nem impalpáveis ao tato, principalmente quando este nos falta. Deixamos um rastro por onde passamos marchando, que nem sempre é marca de perfume.

Se no passado nossa imagem permanecia na memória passageira, hoje há registros permanentes. O que escrevo fica perpetuado na rede mundial. Será copiado, replicado, duplicado, multiplicado. De minha pena saem penas ao vento, letras que jamais conseguirei recolher. Como prato de sopa debaixo de goteira, servirá de inesgotável repasto e um dia voltará a me assombrar. Vomitada pelo então intumescido ventre de meu passado.

Marcas são assim. Permanecem, e mais ainda se estiverem associadas a experiências. Boas ou ruins. Em uma sociedade obcecada pela qualidade total, desvairada por um desempenho excepcional e ludibriada pelo respeito artificial, que poder não terá a imagem que for real?

Imagem é como sapato: deve ser engraxada, escovada, polida e acompanhada de um bom papo. Ou deixará pegadas sem brilho. Será que deixei uma boa impressão naquela empresa? Não sei. Investi no visual, despertei o ouvinte que há em mim, segurei as rédeas do falante, medi cada gesto e procurei ser honesto. E saí, sem olhar nos olhos das câmeras, nem nos lábios da recepcionista.

No caminho o calor pedia — e a loja de conveniência oferecia — um refrigerante de trincar os dentes. Entrei sob o choque térmico de um ar gelado e o calor de um atendimento condicionado. Eu transpirava e a vendedora sorria por todos os poros. "Espere até ela descobrir que vou pagar um real com uma nota de cinqüenta…", pensei maldoso. Ela sorriu ainda mais, como se ficar sem troco fosse motivo de êxtase. Seria uma fada? 

"SORRIA! VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO!". Dessa vez, percebi, o aviso não era para mim. Era para ela. Oito horas diárias de fama diante das câmeras, sem direito a Oscar. E como sorria! Tanto, que nem me lembro de seus lábios. Só de seus dentes. Ou seria um colar de pérolas? Sessenta e três dentes? Não… acho que o número era par.

Saí levando aquela imagem de cordialidade gravada em minha mente. Profissional, ela deixara um rastro colorido ao incorporar o bom humor à sua postura. O resultado não era nem um pouco falso, artificial ou produzido à força.

Como eram os moranguinhos redondinhos, espalhados pelo gramado em frente à casa da fazenda. Meu amigo Ronaldo limpou os olhos e olhou outra vez para ter certeza. Eram artificiais. Como o vermelho nos lábios das cabras, vestígio dohappy hour em torno da lata de tinta esquecida aberta no dia anterior.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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