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Marketing
de Simbiose
O caçador
parou ao ouvir o canto. Dos muitos sons
da floresta africana, nenhum outro tornava sua
vida mais doce. Guardou a flecha e sorriu para a
ave exibicionista que fazia tamanho estardalhaço.
Tudo aquilo para chamar a atenção do humano e
ser seguida, e o nativo sabia que devia ser assim.
Embora nenhum dos dois tivesse assistido Lassie.
Quando a ave finalmente pousou sobre uma árvore
morta, o homem entendeu que era a sua vez de
preparar o fogo e espantar as abelhas. Por não
ter lábios, o pássaro lambia o bico a cada favo
dourado que era retirado do interior do tronco.
Antes de partir, o homem deixou um favo cair e
sorriu para a ave. Era a recompensa. O Pássaro-do-Mel
havia indicado o caminho e agora podia se
refestelar com a cera, seu prato predileto.
Essa simbiose homem-pássaro é muito diferente
de algumas estratégias predatórias de
marketing, as quais há quem compare a uma caçada.
O mercado é a selva, o cliente a caça. O
marketeiro é o caçador que perscruta a selva
com pesquisas, para abater o maior número de vítimas.
Depois de estudar os padrões de comportamento da
caça em seu habitat, posiciona seus produtos, as
armadilhas.
Enquanto isso, publicitários cevam o terreno com
as iscas da publicidade e promoção. E
vendedores saem como batedores, abrindo picadas
no mercado e disparando armas de persuasão, para
exterminar qualquer espécime dentro e fora da
mira do marketeiro. Que acompanha tudo do alto de
seu elefante branco, o "QuatroPês".
O nome foi uma homenagem às quatro patas que o
sustentam: Produto, Preço, Promoção e Ponto.
Alguns afirmam ter visto exemplares com uma
quinta pata: Pessoas. Apenas não souberam dizer
se eram elas sob a pata.
Será que ouvi alguém perguntar se esse safári
é ecológico? Humm... acho que está mais para
egológico. É imediatista e beneficia apenas uma
das partes; um marketing predatório, de cadeia
alimentar, diferente da relação de ajuda e
compartilhamento que encontramos na rara simbiose.
Para que a simbiose ocorra, alguém precisa dar
primeiro, ainda que isso envolva riscos. Como os
corridos pelo Pássaro-do-Mel, que desafia seu
instinto de sobrevivência ao se exibir para o caçador.
Não tenho estatísticas de quantos deles têm
sua carne comida por nativos diabéticos.
Mas acredito ser possível um marketing de
simbiose. Apesar de contrário à natureza egoísta
da relação comercial, denunciada por Adam Smith.
Mas se a natureza humana é egoísta e o mercado
não passa de um reflexo disso, por que alguém
adotaria um modelo de marketing assim?
No caso de algumas empresas, só para contrariar.
Afinal, esta já seria uma razão afinada com a
natureza humana, não seria? "Se malandro
soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só
de malandragem", cantaria Jorge BenJor. Mas
outras podem adotar o modelo para encantar.
A febre do momento é obter o máximo de informações
do cliente para tê-lo na mão. Mas que mão você
estende ao cliente, para criar nele uma imagem e
um relacionamento de confiança? Não, não estou
falando do blá-blá-blá do "Quem Somos",
que invariavelmente diz que somos os melhores e
maiores. Falo de dar ao cliente algo que lhe
permita tirar conclusões de como você é. Ou
gostaria de ser.
Meu pai gostava de falar de suas viagens de trem
na década de quarenta, quando a composição da
Companhia Paulista passava rigorosamente no horário
por um trecho próximo a Nova Odessa. Ali os
passageiros começavam a olhar pelas janelas e
examinar o céu. "Olha ele lá!",
gritava alguém. Então tinha início o momento mágico.
Com um mergulho gracioso, o pequeno gavião
sincronizava seu vôo livre de amarras com o
resfolegante gigante preso aos trilhos. Leveza e
força viajavam lado a lado por alguns minutos,
até surgir um braço estendido da janela do vagão
restaurante. Era o cozinheiro, com um pedaço de
carne na mão. Por alguns instantes, dedos e bico
se encontravam na transferência suave daquela dádiva.
Então o gavião dava uma volta acrobática no céu
e desaparecia em direção ao ninho, observado
por um trem de testemunhas. Era quando todos
voltavam a respirar.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Esta crônica faz parte dos temas apresentados em
suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br
Esta crônica de Mario Persona
pode ser publicada gratuitamente como
colaboração em seu site, jornal, revista ou
boletim, desde que mantidas na íntegra as
referências acima.
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