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Receita
para manjar de escrever Existe uma receita para se
escrever na Web? Sim, existe. Para quem lê com
pressa na tela. E quem hoje lê, tem pressa.
Escrever assim é como fazer manjar. A receita é
simples, rápida e barata. Mas adoça a vida de
quem prova, e traz no nome a fama de iguaria
indescritível. Escreva como quem prepara um
manjar dos deuses. E sirva acompanhado do néctar
da paixão.
A gostosa crônica, que se lê com o paladar, é
um manjar das letras. Linguagem informal, frases
curtas, parágrafos breves, uma séria conversa
fiada. Quer escrever assim? Então comece untando
a fôrma com metáforas cômicas. O humor é o
atalho mais curto para o cérebro. Escreva para
anistiar os gostos de forma ampla, geral e
irrestrita. Diversifique seus temas, pois não
há dois leitores iguais. Nem mesmo em um só
leitor.
Manjar do assunto é condição de consistência
para seu manjar. Se faltar, sobra o buraco da
fôrma. Familiarizado, você brinca com as
palavras, usa trocadilhos, evita polemizar mas
não poetizar. Pois rimas ocultas estimulam os
neurônios. São qual libélulas, graciosas
sinapses em infindas células.
Abuse do corriqueiro e deixe os tecnicismos para
terceiros. Crie um texto seminal, que invada o
cérebro de seu leitor em busca do óvulo comum
das emoções humanas. E o fertilize com uma
mensagem que crie empatia. Seu leitor pensará
que sua mensagem é de concepção familiar. Uma
intrusa, porém amada. Que não se quer abortar.
Mas não se esqueça do relevante. Conhecimento,
"pero no mucho", para evitar o fastio
nauseabundo. Arrebate seu leitor da mesmice
letárgica do vocabulário cotidiano, ousando
alfinetar nele uma palavra pouco usual. Que exale
um leve aroma de erudição e desperte um apetite
mental de novas descobertas.
Seja sincero, seja simples. Mostre que não sabe
tudo. Pois o aprender é uma experiência
conjunta, e seu leitor é seu tutor. Chame-o de
você, leve-o para viajar junto. Por uma senda
tão dourada quanto a calda de ameixas que,
preguiçosa, desliza por seu manjar.
Irresistível. De dar água na boca. Se funciona?
Pergunte à saliva.
Crie o suspense da próxima colherada. Termine um
parágrafo com um desafio que o leve ao próximo.
Algeme o leitor ao seu compasso, para não parar
de ler. Seja dinâmico, tenha cadência, esbanje
charme. Abuse dos verbos no presente para grudar
sua atenção na ação. Ouse romper com regras
gramaticais. Sem machucar a língua.
De vez em quando, derrame uma citação de
adorno. Mas evite Benjamin Franklin, pai das
frases órfãs. Na falta de um autor, costumam
atribuir a ele. A justificativa, dos que lhe são
íntimos, é que o raio que caiu em sua pipa fez
Ben dizer tanta coisa, que pode ter dito aquilo
também.
Use a Internet. Abuse do meio, mas não do fim.
Não perturbe seu leitor com o inesperado
inoportuno de uma intrusão bandida. Mas crie
disseminadores para sua mensagem. Que a
multipliquem. Para que o aroma de seu manjar
chegue a quem chegar. Algo tão delicioso, que
leve você a acreditar que todos irão pedir a
receita.
Aconteceu comigo em uma
casa-portuguesa-com-certeza. Branca, emoldurada
em rua de amendoeiras em Loulé, sul de Portugal.
Sentado à imaculada mesa de uma cozinha
cirurgicamente limpa, senti derreter na boca o
delicioso manjar branco de dona Isaura.
"Delicioso!", comentei, sacando do
bolso caneta e agenda. Lembrava-me de algo que
iria discutir na reunião em Lisboa no outro dia.
Era escrever ou esquecer. Mas dona Isaura pensou
que o assunto era o seu manjar. E começou a
ditar: "Um litro de leite, oito colheres de
açúcar...". Para não desapontá-la,
anotei mecanicamente, enquanto me esquecia do
compromisso.
Voltei ao Brasil com uma agenda de compromissos
resolvidos e uma receita de manjar a resolver. O
que nunca tentei. De nada adiantaria tentar a
receita, se me faltava a mão de dona Isaura para
transformá-la em manjar.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Esta crônica faz parte dos temas apresentados em
suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br
Esta crônica de Mario Persona
pode ser publicada gratuitamente como
colaboração em seu site, jornal, revista ou
boletim, desde que mantidas na íntegra as
referências acima.
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