CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

Quer fazer um MCA?
por Mario Persona

Todo mundo tem um MBA (leia "em-bi-ei"). Ou quer ter. Pra obter status, emprego ou conhecimento, nesta ordem. Mas já existe algo mais avançado. Se quiser que sua empresa dispare na frente, mire no que há de mais avançado em termos de gestão: o MCA (leia "em-ci-ei"). Com um MCA você terá munição para vencer qualquer parada no mercado.

Depois do 11 de setembro, o exército americano passou a considerar a adoção de táticas terroristas. Na invasão ao Afeganistão foi criada uma força especial com uns 500 soldados montados em cavalos — do jeito que os terroristas faziam — para identificar alvos e acionar ataques de aviões teleguiados. Deu melhores resultados do que as bombas guiadas por satélites espiões.

No passado os exércitos convencionais já viram a necessidade de deixar de lado suas emplumadas fardinhas coloridas e as batalhas frente a frente para adotarem táticas camufladas de rebeldes como Benjamin Martin, protagonizado por Mel Gibson no filme "O Patriota".

A idéia de aplicar as táticas da marginalidade na administração da empresa e no marketing também não é nova. Em 1982 Jay Conrad Levinson cunhou o termo "Guerrilla Marketing" ou "Marketing de Guerrilha" para ensinar formas não convencionais de se atuar no mercado.

É por isso que sugiro que você faça um MCA – Master in Crime Administration. Bibliografia? Não se preocupe. Já-já vai ter algum Su Tzu brasileiro lançando seu "A Arte da Guerra – Versão Urbana". Se as coisas continuarem como estão você poderá fazer um download do livro diretamente dos servidores instalados na cela do autor.

Enquanto isso não acontece, vou adiantar algumas características do crime organizado para você aproveitar na gestão empresarial:

Comando. Esqueça a idéia de democracia na empresa. Nas empresas, ainda que possam ser ouvidos, não são os funcionários que escolhem o presidente. O comando vem de cima, de quem tem a visão do todo e detém o poder. Uma empresa sem um comando bem definido acaba perdendo o rumo.

Flexibilidade. Embora exista um comando forte, os comandados têm liberdade e flexibilidade para criar soluções. Recebem ordens sobre "o que fazer", mas é deles a iniciativa do "como fazer". Com mobilidade e poder de fogo, ninguém vai segurar sua equipe.

Poder. O crime organizado usa todas as formas de poder, da menos nobre à mais nobre: Poder de Coerção (Se não fizer, tá morto!), Legitimidade(Quem manda aqui sou eu!), Recompensa (Se fizer o que mando sai ganhando!), Expertise (O chefe sabe o que faz!) e Referência (Quero ser igual ao chefe!). A meta de quem lidera deve ser exercer as últimas três formas de poder.

Garantia de emprego. Não existe. Isso é coisa do passado ou de presente de deputado. Nem as empresas têm certeza se existirão no dia seguinte. No crime o emprego nunca é vitalício. Aliás, nem a vida é.

Remuneração por resultado. Não deu resultado, está fora. No crime, o "You are fired" é literal. Se você for um gerente cansado de engolir aquele inútil parente do dono, ou aquele traste intocável se for empresa pública, já entendeu do que estou falando.

Senso de dívida. Embora no crime a dívida seja real e cobrada na forma de ordens para ações perigosas, existe uma forma de fazer o mesmo na empresa sem ser enquadrada em prática de escravidão: investimentos em saúde, alimentação, educação, instalações, lazer, carreira e outros benefícios. As pessoas se empenham mais quando têm um forte senso de dívida para com seus empregadores.

Tecnologia da informação. Essencial para o funcionamento da empresa, permite que o comando continue atuando remotamente e garante a automatização da produção e da força de venda. No crime, celulares e armas automáticas fazem isso.

Pesquisa de mercado. Se o crime consultar o mercado, a maioria — os assaltados — vai dizer que não quer seus serviços. Só a minoria — os corruptos, consumidores de drogas, pirataria e contrabando — vai apoiar. Grandes inovações foram criadas à revelia das pesquisas de mercado. Se perguntar quem quer pagar por seus produtos, que resultado acha que sua pesquisa vai dar? Ousar é ir além da expectativa do mercado.

Poder de boca-a-boca. Não há necessidade de gastar milhões com propaganda. Quando a empresa tem uma marca forte, basta emitir uma mensagem qualquer e o próprio mercado se incumbirá de espalhar, fazendo a concorrência fechar as portas. Literalmente, no caso do crime.

Caixa Dois. Não existe no crime organizado, só no crime desorganizado, político ou empresarial. Sem toneladas de papel ou processos burocráticos, ainda que lançados em cadernos, papel de pão ou bilhetinhos, os registros têm a credibilidade do jogo-do-bicho e o arquivamento é bem feito. No crime os arquivos são queimados quando perdem a razão de existir.

Ficam aí alguns tópicos para o conteúdo programático de um MCA, caso alguma universidade decida criar o curso. Há outros, mas acredito que estes sejam suficientes para ficarmos espertos na hora de administrar. E o esperto aqui não é no sentido malandro, como entendeu um candidato durante uma entrevista de emprego numa empresa onde trabalhei.

Após ser informado que, por envolver grandes negociações, aquela área era muito visada com ofertas de propinas, o entrevistador avisou que a empresa procurava por pessoas espertas. O rapaz não se fez de rogado:

— Esperto eu sou. Afinal, quem você acha que organizou a caixinha no departamento de trânsito de minha cidade?

Não foi contratado. Era esperto demais.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Veja emwww.mariopersona.com.br