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Uma pergunta que não quer
calar
por Mario Persona
"Quem tiver perguntas
para fazer a Philip Kotler, anote na folha e
entregue às nossas recepcionistas." A
voz no microfone era de Carlos Alberto Júlio, CEO da HSM e dirigida aos mil
participantes do Fórum
Mundial de Marketing e Vendas. Evento lotado, só
consegui vaga no segundo auditório, equipado com
telão. Mas para quem só tinha visto Philip
Kotler na
telinha, já era um progresso vê-lo no telão.
E eu podia perguntar! Já pensou? Fazer uma
pergunta à maior autoridade mundial de
marketing? Aquilo significava muito para mim.
Leciono marketing e sei quanto pesa o livro "Administração
de Marketing" do mesmo Kotler. É o clássico, a
referência, o norte. Folheá-lo já é um
prazer; citá-lo, dá autoridade. Perguntar ao
vivo, então, uma oportunidade em mil.
Peguei uma folha, preparei, apontei a caneta e,
quando ia atirar a primeira consoante de minha
pergunta, uma voz ribombou pela sala. Alguém
perguntava primeiro e não era por escrito.
Impossível! Estava no auditório do telão. Quem
faria perguntas a um Kotler digitalizado?
Na tela o mestre continuava ensinando impassível,
confirmando minhas suspeitas de que telões não
têm ouvidos. São surdos como dizem ser os
maridos perfeitos, casados com as esposas
perfeitas. As cegas.
Olhei para os lados e vi apenas gravatas em
gargantas caladas, olhos fixos na tela e fones
enfiados nos ouvidos, para escutar a tradução.
Voltei a trabalhar na pergunta, mas ouvi a voz
outra vez, e não era da consciência. Saía da
boca de alguém algumas gravatas à esquerda.
Entendi.
Com os ouvidos entupidos de cera e fone, o rapaz
era incapaz de modular a voz ao dirigir perguntas
ao ensurdecido pelo fone ao lado. Já vi isso
acontecer em lojas de disco. Pessoas com fones
nos ouvidos escutam o CD e acham que cantarolam
um Pavarotti baixinho. Mas berram em alto e nem
sempre bom tom, incomodando um quarteirão.
Kotler falou disso. Não de fones de ouvido ou
perguntas feitas por bocas surdas, mas da
embotada percepção de algumas empresas para com
o mercado. Que agem como se estivessem sozinhas
em um mundo privado, dialogando só com o umbigo.
O contrário dessa falta de percepção é a
capacidade de desenvolver um marketing lateral,
percebendo ou criando percepções ainda não
percebidas. Aliás, "marketing
lateral" é o tema de um de seus livros.
Trata-se de um processo numa seqüência
organizada, que começa com a escolha de um
produto, mercado ou mix de marketing. O segundo
passo é provocar um deslocamento lateral,
gerando uma nova carência perceptível e,
finalmente, supri-la. O exemplo mais simples é o
da flor, que murcha. A carência detectada
uma flor durável foi respondida pela flor
de plástico. É claro que isso explicado por mim
fica uma droga, mas pelo Kotler não. É melhor
você assistir uma palestra, ler o livro ou
perguntar a ele. Como fiz.
Disparei a folha com a pergunta para a
recepcionista e esperei. Minha expectativa que
virou frustração, quando vi outras mãos
disparando folhas na mesma direção. Envergonhei-me
de minha pretensão. Entre mil cabeças pensantes
com dúvidas interessantes, minha pergunta-sonho
jamais se transformaria em resposta-realidade.
Nem a minha, nem a do rapaz ao lado, que
continuava a perguntar em voz alta.
Ninguém tinha coragem de gritar um "calaboca!",
principalmente naquele ambiente de orgulhosa sapiência
refreando a ignorância dos instintos primitivos.
Até eu equilibrava a fleuma numa varinha de
dignidade. Ninguém podia saber que cinqüenta
por cento da vontade de perguntar era pura
tietagem. Coisa de ego, sabe como é, poder
depois contar aos netos que o pai do marketing
respondera uma pergunta do avô.
A palestra terminou e um calhamaço de perguntas
subiu ao palco. O ponteiro de meu mostrador de
tietagem atingiu a marca dos noventa por cento.
Qual era mesmo a pergunta que fiz? Poucas seriam
escolhidas e respondidas.
Depois do fulano do Banco do Brasil, sicrano da
Embraer e beltrano da Credicard, o apresentador
anunciou: "The next question comes from
Mario Persona". Da empresa tal. Gelei. "Mamãe,
sou eu!", quase gritei. Fiz de conta
que não percebi um amigo sussurrar para mim com
o olhar: "Veja, é você!".
Mantive uma impassibilidade zen, de monge
oriental praticando harakiri. Enquanto
isso, minhas entranhas se derramavam de prazer.
Fiz cara de quem não vê importância alguma em
vestir uma resposta sob medida, costurada à mão
pelo próprio Philip Kotler. Regulei o brilho dos
olhos para o mínimo e o contraste no zero, para
os outros pensarem que aquilo era banal, trivial
e normal. Até esbocei um bocejo. Meu único medo
era que alguém ouvisse o bumbo de torcida que
batia em meu peito.
Não, ninguém podia ouvir. Nessa hora o grasnido
do chato da hora o do fone de ouvido
era um aliado. Ele continuava a fazer suas
perguntas em voz alta. A minha, era a que eu
compartilharia depois com meus alunos, só para
me gabar. A dele, era a pergunta que não queria
calar.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Esta crônica faz parte dos temas apresentados em
suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br
Esta crônica de Mario Persona
pode ser publicada gratuitamente como colaboração
em seu site, jornal, revista ou boletim, desde
que mantidas na íntegra as referências acima. Clique
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