CRÔNICA

Plano "B"
por Mario Persona

Se você tiver calo no calcanhar da garganta vai precisar de calçadeira engolir o que vou dizer. Tenho um palpite de que as grandes nações de antigamente estão se recompondo aos poucos. Verdade. Estamos cada vez mais saudosos de nossa cidadania. Não? Então responda rápido: Em final de Copa do Mundo, qual é seu "Plano B" para torcer?

Se você for torcedor enrustido como os aristocratas do passado, que torciam seus lenços nas arquibancadas dos jogos para descarregar a tensão e não demonstrar emoção igual à plebe — daí a expressão "torcedor" — vai negar que o "Plano B" é torcer por Portugal.

A tecnologia está ajudando a acelerar esse processo de todo mundo querer voltar à nação de origem, ainda que virtualmente. Quer um exemplo? Se for descendente de alguma mamma ou nonna você com certeza já cogitou obter cidadania italiana. Virou moda no Brasil. Até a família presidencial tem. Conheço um cara que montou um negócio de Sherlock: vai à Itália pesquisar paróquias e cartórios em busca de parentes de clientes.

Quando alguém ouve meu sobrenome, logo pergunta: "Já tirou o passaporte italiano?" Não tirei, mas se achar conveniente ou facilitar viajar, vou correr atrás da documentação de meu avô e volto à terra mãe, pelo menos no documento. Não é um sentimento antipatriótico, mas apenas um saudosismo de conveniência.

Afinal, qual foi o descendente de italiano que não se emocionou quando viu a torcida italiana brasileira na TV chorando lágrimas de vinho na pizzaria? Aliás, acho que a Globo mantém um grupo de atores prontos para a Copa. No intervalo de cada jogo o diretor gritava:

"Vamos lá, pessoal! Bota a roupa da Croácia e comecem a dançar tipo quadrilha!" 
"Agora peruca loira para todo mundo, vocês são Alemanha!" 
"Comecem já a falar com biquinho que no próximo intervalo aqui vai ser tudo francês".

E por aí vai. Na véspera do jogo Portugal X França vi uma foto de pessoas vendendo bandeiras de Portugal em semáforos no Brasil. Brasileiros torcendo para Portugal, pode? Pode. Não só pode como deve. É o "Plano B" e todo mundo deve ter um.

Quando assistimos o Brasil jogando, o que fizemos assim que passou o sono? Corremos para o Plano B: torcer para Portugal. A gente diz que é por causa do Felipão, mas não é não. Se fosse, a gente torceria para a Itália. Gostamos mesmo é de Portugal, do vinho do Porto, da bacalhoada com azeite e da pêra no vinho. Toda casa brasileira é portuguesa com certeza.

Afinal, graças a Portugal temos essa cultura light, de ficar de bem com tudo e com todos. Você acha que o Brasil seria o que é se tivéssemos sido colonizados por ingleses? Sem o patriota do Mel Gibson e seu coração valente, quem iria se revoltar contra os colonizadores? E se fosse Holanda? Quanto tempo iríamos esperar até nascer um Mandela para tirar da opressão metade da população?

Felizmente foram os portugueses, mais tolerantes, humanos e hospitaleiros, que nos colonizaram. E a sorte não parou aí. Caímos nas graças de ganhar de presente um príncipe que era herdeiro dos dois lados do Atlântico e abriu mão do lado de lá para ficar provisoriamente com o lado de cá! Quem não quer um príncipe assim?

Se você já visitou Portugal sabe que é bem diferente do resto da Europa. Apesar de escreverem nosso idioma e falarem outra língua, é o povo mais brasileiro dentre os europeus. São os mais amáveis e hospitaleiros de todos os que conheci no Velho Mundo quando eu ainda era jovem.

Mas a saudade da pátria de origem não é privilégio nosso. Outros países também são saudosos de seus colonizadores. Até hoje os países do antigo império britânico mantêm a mesma reverência pela ex-rainha que já nem manda nada neles. Ela aparece nos selos, cédulas e moedas do Canadá, Nova Zelândia, Austrália e já nem me lembro mais onde. Há uma década até os habitantes de Hong Kong ficaram na dúvida se deviam continuar ingleses antes de se lembrarem de que eram chineses e voltarem à pátria-mãe. Estava na cara que deviam voltar.

E no oriente médio então? Todo mundo quer voltar à terra de origem que parece ser a terra de origem de todo mundo. Como ainda não constróem países como fazemos edifícios de apartamentos, o pessoal fica brigando pelo terreno que já não é grande.

Há nações que são até maiores no exterior do que na própria terra. Li em algum lugar que os turcos seriam mais numerosos fora da Turquia do que no próprio país. Não sei se quem contou estava ciente de que nem todo mundo que fala "Primo" com "B" é turco. 

Mas, voltando ao Brasil, a dúvida que fica é: será que D. Pedro I fez um bom negócio lá no bairro do Ipiranga, em frente ao museu, quando os Bonifácios mandaram ele fazer aquilo? Isso mesmo, quando ele posou para aquele quadro cheio de cavalos pintado por Pedro Américo que, por ainda não ter nascido e D. Pedro não estar disposto a esperar, acabou plagiando o quadro "A Batalha de Friedland", do pintor francês Georges Meissonier.

Não teria sido melhor D. Pedro deixar como estava para ver como é que ficava? Pelo menos hoje nós estaríamos entre os finalistas da Copa do Mundo e, ao invés de sermos membros do Mercosul, seríamos membros da União Européia. Ganhando salários em Euro ao invés de Real. E se todas as colônias voltassem às suas nacionalidades de origem, não teríamos mais argentinos como vizinhos. Eles seriam espanhóis. Ah, agora seu patriotismo balançou, hein?

O único problema é que acabaríamos sendo os protagonistas das piadas de português. Mas, não existindo brasileiros, quem iria contá-las?

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Os quadros de Pedro Américo e Georges Meissonier. Ou seria o inverso?!