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Músicas, livros e figurinhasMario Persona
Quase cinco bilhões de
dólares. Segundo o Forrester, é o que as gravadoras e
editoras deixariam de ganhar em 2005. Graças à
Internet. Sob outro prisma, seria o que os consumidores
deixariam de gastar. Graças à Internet. Isto se o poder
da distribuição da produção artística tiver trocado
de mãos e criar um mercado redistribuído. Segundo o
estudo, um bolo que seria redistribuído entre músicos,
autores e empresas que prestarem serviços a estes.
Hoje uma parte do trabalho das gravadoras e editoras é
fazer o público saber que a obra existe. Outra é fazer
a obra chegar ao público. Publicidade e distribuição
são coisas que a Internet permite que os próprios
autores façam a um custo infinitamente menor. Daí o
desespero de quem estava acostumado ao poder.
Depois que o Napster ensinou a trocar música como quem
troca figurinhas, o consumidor gostou do novo modelo.
"Os consumidores deram sua opinião", escreve
Eric Sheirer, analista do Forrester. "Nem segurança
digital, nem ações legais irão mudar isso". O
problema não está no Napster, uma mera amostra do que a
tecnologia é capaz. Nem no público de olhos e ouvidos
atentos. Mas no modelo de distribuição da produção
intelectual que prevaleceu até aqui.
Até ontem a tecnologia permitia às gravadoras e
editoras ocupar o trono. Autores e artistas dependiam do
beneplácito desses mecenas, detentores da tecnologia de
produção e canais de distribuição. Agora o cetro
tecnológico caiu no colo do criador. Sob os aplausos do
respeitável público.
Quem já está com o pé na estrada e não quer perder o
poder é capaz de qualquer coisa para manter as coisas
como estão. Só que já não estão. Quem ainda não
percebeu que nada será como antes, irá ver a máquina
parar quando acabar a inércia que lhe garante uma
sobrevida. Enquanto não acontece, a turma da transição
vai lucrando.
Desenvolvedores de sistemas para bloqueio de cópias, por
exemplo, contratados por gravadoras e editoras
inconformadas. Porém não irão resolver o problema. A
indústria do software tentou isso nos anos oitenta.
Acabou decidindo tirar a proteção dos programas quando
viu que a saída era oferecer mais que um código
executável para permanecer no mercado. O diferencial
ficou por conta do suporte e serviços agregando valor ao
intangível.
Advogados também lucram no ocaso do sistema, contratados
pelas corporações para encarcerar a população do
planeta. Tomando o cuidado de não processar seus
próprios filhos. Porque todos temos um pirata em casa,
geralmente menor de quinze anos e sem perna de pau. Só
cara.
Todavia o período de caça às bruxas pode durar ainda
um pouco e servir para desviar a atenção da verdadeira
intenção. Se o Napster podia ser identificado como o
vilão da troca de músicas, seus sucessores já
aprenderam como agir sem deixar vestígios. O pirata
ensinou o papagaio a cuidar da transação.
Além das músicas e livros, logo teremos o problema dos
filmes, quando sobrar banda larga. E questões legais a
serem resolvidas, envolvendo armazenamento de
informações, já que o computador e a rede estão
virando uma extensão do cérebro. Há trinta anos um
professor me obrigou a cometer um ato de pirataria.
Gravei em meu cérebro trechos dos Lusíadas, que
conservo até hoje. "As armas e os barões
assinalados, que da Ocidental praia Lusitana, por mares
nunca dantes navegados, passaram ainda além da
Taprobana". Nem por isso fui processado por Camões.
Ou descobri onde ficava Taprobana.
Enquanto gravadoras e editoras constroem tranqueiras,
bloqueios e aríetes legais, autores e empreendedores
vão criando o novo modelo de negócio para
distribuição da propriedade intelectual. Porque esta
não deixará de existir, ainda que precise tomar uma
nova forma, ou ser incorporada a serviços ou bens
tangíveis para sobreviver.
O problema é que música e literatura são diferentes de
software. Ninguém precisa de suporte técnico para ouvir
música ou ler um livro. Resolver esta questão pode ser
o próximo Eldorado de artistas, escritores e
desenvolvedores de sistemas web, que criam a interface
com o público. Pois artistas continuarão criando,
autores escrevendo e pessoas consumindo. Às gravadoras e
editoras resta tentar descobrir como se adaptar ao novo
modelo. E aceitar a admoestação de Mark Twain:
"Todo mundo fica reclamando do mau tempo, mas
ninguém faz nada para resolver o problema."
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Esta crônica faz parte dos temas apresentados em
suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br
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