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A gravidez da crise Minha filha pegou a conversa pela
metade. Enquanto fingia interesse nos brincos de
artesanato, esticava as orelhas para ouvir as
artesãs da praça. "Só estou esperando
nascer para dar para alguém", dizia
uma, escondida atrás de uma gravidez já na
prorrogação do tempo regulamentar. "Com
dois lá em casa, não quero criar mais nenhum",
concluiu sem enrubescer.
Será que a dificuldade cauteriza a
sensibilidade? Este é um caso difícil de se
julgar. Principalmente por termos só um átomo
de conversa roubado de um momento cuja extensão
ignoramos. Não sabemos se foi a crise que levou
a mulher àquele ponto. E ainda não vimos o
desfecho. É no epílogo que costuma estar a
resposta para aquilo que consideramos o fim.
Em momentos de crise, perdemos de vista o que
ficou para trás, e o interesse pelo que vem
depois. Ficamos ocupados demais com o momento e
com a gravidade de seu intumescimento. Só vemos
o lado negro das coisas, e o quanto ainda teremos
de apertar o cinto. Nem sequer nos anima a
possibilidade de sobrar material para dois cintos
no final.
Nossa reação natural diante de algum vento econômico
mais adverso é economizar. Começamos
economizando o trabalho presente, enquanto
arquivamos a experiência passada, que nos
revelaria ser esta apenas mais uma dentre as
crises futuras. Que podem ser benignas e profiláticas
se aplicadas diretamente no ego da empresa. O
vento que estraga o topete é o mesmo que move
moinhos.
Não existe oportunidade se não existir
adversidade. Quando tudo vai bem não há
progresso real, apenas natural. Alguém já disse
que a necessidade é a mãe das invenções.
Talvez por dar à luz a criatividade, filha que
estimula as glândulas mamárias que sustentam o
crescimento.
O problema é que a incerteza nos amedronta, pois
não gostamos de hospedar o futuro que bate à
porta. É um ilustre desconhecido, mas que nos
torna aprendizes motivados à ação. Uma visita
oportuna, especialmente se o desânimo estiver em
plena campanha pela eleição da nossa inanição.
Enquanto muitas empresas cortam gastos à luz de
velas, fui contratado para falar aos funcionários
de uma que está investindo na capacitação da
equipe. É parte de uma estratégia que incluiu a
contratação de duas outras empresas para
treinamentos em call-center e segurança.
Enquanto o mercado se posiciona, lubrifica-se a máquina.
Quando o meio-de-campo fica confuso, há quem
permaneça alerta e acabe levando a bola. Por
isso os momentos de dificuldade também são
momentos para reflexão. Para olhar de fora e
pensar no que mudar dentro. Não são os maiores,
nem os mais fortes, que sobrevivem às crises.
Ficam os que correm se adaptar.
Mas mudança dá alergia em quem vive polindo as
algemas dos velhos paradigmas. Como aconteceu
durante a guerra civil americana, quando os
soldados lutaram com as velhas armas de carregar
pela boca. Ao invés das já inventadas
espingardas de cartucho.
Os oficiais -- os CEOs daquela empreitada bélica
-- acreditavam que passar de três para quinze
tiros por minuto seria um desperdício de munição.
Tampouco queriam que seus comandados
recarregassem as armas agachados ao abrigo de
alguma pedra, como permitiria a nova tecnologia.
Recarregar pela boca exigia que ficassem em pé.
Visíveis ao comando e controláveis. Mas vulneráveis.
Com um comando assim, ninguém precisa de
inimigos. E com uma resistência ferrenha às
mudanças, a empresa nem precisa de crise para
sucumbir. O fim vem pelo clima de indiferença
dos mais vulneráveis. A indiferença é um
veneno que contamina e tira de qualquer um a
expectativa de embalar nos braços o fruto de sua
gestação.
O que se revelou não ser o caso daquela mãe.
Ela estava certíssima ao decidir não criar mais
um. Mas minha filha só descobriu isso quando
ouviu a conversa até o fim. "Já é a
segunda vez que a cadela vai dar cria. O jeito é
dar o filhote para outro criar",
concluiu a mulher. Para alívio de minha filha,
que descobriu que a crise era grave, pero no
mucho.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Esta crônica faz parte dos temas apresentados em
suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br
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