CRÔNICAS DE NEGÓCIOS

"Fidelitas Quae Sera Tamem" 

 

Quando nasci, meu pai já era funcionário do Banco do Brasil. Ao falecer, estava aposentado da mesma empresa. Como era comum na época, o funcionário ficava casado com o emprego. Ninguém falava em divórcio. Empregos não eram chuvas de verão ou concertos banais. Por isso minha mãe me aconselhava a trabalhar no banco quando crescesse.

Em uma relação que influenciava toda a família, perdi a conta das festas, jogos e papais noéis que vi. Nós, crianças, tentávamos adivinhar quem era o funcionário atrás da barba branca daquele Natal. Conhecíamos todos pelo nome. Sabíamos que uma fantasia de profissão sempre esconde uma pessoa real com alma e coração.

Sem a necessidade de treinamentos, palestras ou técnicas de motivação, os funcionários se orgulhavam da marca que levavam. Que lhes garantia o arroz com feijão, e o prestígio de sobremesa. Eram fiéis. A fidelidade estava tão incorporada às pessoas que ninguém falava no assunto. Outros tempos, aqueles.

Apesar do desejo de minha mãe, para que eu trabalhasse no banco, acabei seguindo outros caminhos. Atravessei alguns invernos profissionais, sempre acompanhado da preocupação materna pelo agasalho. Que, profissionalmente, tinha outro tom: "Meu filho, por que você não trabalha no banco?".

A empresa hoje é diferente daquela que minha mãe conheceu. Nem poderia ser igual, porque o mundo mudou. As empresas, as pessoas, o mercado, tudo está diferente. Ninguém mais pensa em fazer carreira numa mesma empresa. Tudo é muito rápido. Profissionais devem mudar porque empresas precisam se transformar. 

O discurso do momento é fidelização do cliente. Justo a ponta onde a relação é mais volátil e interesseira. Cliente quer a satisfação própria. Só isso. Enquanto empresas fazem da fidelização uma estratégia de longo prazo, o cliente agarra a vantagem que estiver ao alcance da mão. Por isso investe-se tanto em fidelizar o cliente. Porque, do lado deste, a fidelidade é tão perene e comprometida quanto uma chuva de verão cantada por Fernando Lobo.

Atrás do balcão, os valores continuam a ser os de uma relação duradoura. Ou pelo menos deveriam continuar os mesmos que meu pai conheceu na época e no banco onde trabalhou. Onde minha mãe queria que eu trabalhasse. Ainda que alguns pensem que amores do passado, no presente, repetem velhos temas tão banais, empresas não são como as chuvas de verão. Existem compromissos mútuos dentro daquelas paredes.

Não creio que empresa e funcionário possam ser amigos simplesmente, nada mais. É um relacionamento de muitas conseqüências, nada banais. Se presto um serviço a uma empresa, não posso considerá-la uma estranha no meu peito, uma estranha na minha alma. A menos que não a deseje mais.

Fidelidade hoje é um bem escasso. Tão escasso, que volta e meia precisamos recordar como cultivá-la. Estamos tão condicionados a conquistar, no cotovelo, aquilo que sacie nossos primeiros desejos, que acabamos pelados das mínimas virtudes. Sem bolso para guardar o que não conseguimos reter. O relacionamento, moeda que só descobrimos ser forte na próxima volta que o mundo com certeza dá.

Gosto de vestir a camisa nos lugares onde trabalho. Ainda que seja pelo prazo que dure uma palestra, um treinamento ou uma consultoria. Ali meu vocabulário adota "nossa empresa", "nosso produto", "nosso problema", "nossa estratégia". Entro numa relação harmônica de interesse comum, para oferecer uma fidelidade que gere confiança. Essa fiança mútua que garante o relacionamento.

Os tempos mudam mas as necessidades continuam as mesmas das pessoas. Sejam físicas ou jurídicas. Todas precisam manter um relacionamento de fidelidade para complemento mútuo. Um investindo no outro. Meu pai investia na empresa que o vestia.

Nas minhas andanças, talvez um dia preste algum tipo de serviço por lá. Se acontecer, já tenho meu plano traçado. Tirarei do baú algo que minha mãe sempre quis ouvir, só para não deixar o momento passar em branco. E de um cantinho qualquer, ligarei dando a notícia: "Mãe, estou trabalhando no banco." Para mostrar que fidelidade sempre traz alegria. Ainda que tardia.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja emwww.mariopersona.com.br

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