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ENTREVISTA
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Up to date com a linguagem
corporativa - Universidade Corporativa do Banco
do Brasil
Aline Gonçalves me entrevistou para a matéria "Up
to date com a linguagem corporativa", publicada no Portal
da Universidade Corporativa do Banco do Brasil sobre Comunicação
Corporativa. O texto integral da entrevista você
pode ler aqui.
Universidade Corporativa - Existem formas
de tornar a linguagem corporativa mais atrativa e
ao mesmo tempo contemplar termos específicos de
distintas áreas de atuação?
Mario Persona - Sim, certamente.
A primeira providência é esquecer os jargões
que ainda povoam textos e discursos. Costumo
chamar de estilo saquinho de padaria, daqueles
que sempre trazem escrito que nossos produtos são
feitos com ingredientes da melhor qualidade.
Todos são.
É importante simplificar a linguagem,
principalmente no meio de negócios. Mas
simplificar não significa falar ou escrever
errado. É apenas uma questão de economia de
palavras. Se um profissional não quiser ficar na
situação de quem não tem palavras para se
expressar, é bom economizá-las. Brinco que em
minhas viagens sempre deveria ter levado metade
das roupas e o dobro do dinheiro. Falar bem é
usar metade das palavras com o dobro do
significado.
O uso de expressões próprias para cada negócio
é uma faca de dois gumes. Serve para comunicar
bem as idéias para os da mesma confraria, porém
pode se transformar em linguagem elitista e hermética,
principalmente no trato com o cliente. As piores
pessoas para você deixar falar com os clientes são
justamente aquelas que prezam mais a bagagem de
palavreado técnico que possuem. Acabam usando
seu arsenal para impressionar e não se preocupam
em comunicar.
Universidade Corporativa - Qual o limite
entre a formalidade e da informalidade?
Mario Persona - Há dois vocabulários,
o informal demais e o formal demais. Vou dar um
exemplo. Veja dois amigos que estão hoje no
mesmo nível hierárquico na empresa e você irá
encontrá-los sem papas na língua.
Deixe que um deles suba bastante, e o que ficou
preso ao chão perde aquela informalidade e o
relacionamento passa a soar falso. O que
aconteceu? Antes havia respeito de menos. Depois,
respeito demais. Se existisse uma linguagem
informal sem exageros, nem para cima, nem para
baixo, a comunicação continuaria no mesmo nível.
Tenho por hábito não chamar as pessoas por "senhor"
ou "senhora", a menos que
sejam mais velhas do que eu. Você já deve ter
deduzido que a cada ano encontro menos pessoas
nesta classe, não é mesmo?
Bem, nunca chamei meu pai ou minha mãe de "senhor"
ou "senhora", mas nunca os
desrespeitei. Tinha um colega de infância que
costumava chamar sua mãe de "senhora"
em público, algo do tipo, "a senhora é
uma #@*&%!$", e lá vinham imprecações
contra a própria avó. Portanto, não é a forma
da linguagem que exala o respeito, mas o seu
conteúdo. E, obviamente, a qualidade da garganta
de onde ela sai.
Acho que no mundo dos negócios o uso de "senhor"
ou "senhora" pode dar idéia
de respeito, mas também de medo e subserviência.
Talvez eu esteja errado nisto, pois boa parte de
meu início na vida profissional foi como
negociador, primeiro adquirindo imóveis milionários
para abertura de agências de um banco privado,
depois negociando contratos para a Companhia do
Metrô.
Isto deixou em mim um certo destemor no trato e
na linguagem que utilizo para com as pessoas, o
que não implica necessariamente falta de
respeito. É mais uma atitude quase instintiva de
procurar nivelar a conversa. Fazemos isto até
inconscientemente, quando procuramos uma mesa
para negociar. Mesas colocam negociadores no
mesmo nível. A linguagem deveria fazer o mesmo.
Quer ver uma coisa interessante? Ao encontrarmos
alguém na arena de negócios, costumamos usar "senhor"
ou "senhora", não é mesmo? Aí
ganhamos alguma intimidade, passamos a tratar por
"você". Se o relacionamento
se deteriorar e estivermos à beira de uma briga,
voltamos ao "senhor" ou "senhora".
A formalidade serve de distanciador, na alegria e
na tristeza. Por isso sou contra a formalidade,
mas a favor da manutenção do respeito.
Universidade Corporativa - Quais as
vantagens para a empresa em aprimorar e difundir
uma linguagem uniforme entre funcionários e
clientes?
Mario Persona - Acho que se deve
investir na informalidade como cultura na
organização. Informalidade é importante para
nivelar e facilitar a comunicação interna. É
claro que nem todos entendem que ser informal não
é ficar livre para intimidades ou desrespeito. Não
se deve confundir informalidade com linguagem
chula ou falta de erudição. Os melhores
informais são os eruditos que não se gabam de
sua bagagem. É preciso saber muito para falar
pouco. Os piores formais são os que tentam
impressionar pela formalidade da linguagem.
Outra cultura que deveria ser difundida nas
empresas é a cultura da analogia na linguagem -
o uso de parábolas, tipos e figuras. Isto
estimula a criatividade, pois nosso cérebro
funciona com analogias. A própria linguagem cria
figuras análogas de pensamento, num processo de
tradução constante.
Quando falamos em parábolas, falamos de uma
forma que pode ser assimilada por todos, na
medida da capacidade de cada um. O cérebro de
cada um irá encontrar o significado dentro dos
limites de seu depósito de conhecimento, e a
comunicação deixará de ser hermética para
alguns, ou simplista para outros.
Universidade Corporativa - Como
incorporar termos novos ao vocabulário dos
funcionários de maneira eficiente e rápida?
Mario Persona - Não existe
caminho melhor para a comunicação do que a
leitura. Estimular seus colaboradores no hábito
da leitura é uma excelente forma de se criar uma
equipe com um bom vocabulário. Acredito tanto na
importância de uma boa comunicação na empresa,
que a primeira receita de meu último livro, "Receitas
de grandes negócios", leva o título de "Manjar
de escrever". Ali dou uma série de
dicas de como transformar a comunicação escrita
em algo delicioso. Alguns ingredientes podem ser
aplicados também à comunicação falada.
Universidade Corporativa - Você é a
favor do uso de termos estrangeiros ou devemos
buscar traduções?
Mario Persona - As línguas são
dinâmicas, evolventes e construídas por influências
ao longo dos tempos. Hoje usamos "folclore",
que já foi uma palavra inglesa. E os ingleses
usam "gentleman" no sentido de
um homem educado e bom, quando a palavra antiga
cabia ao senhor feudal, que era tudo menos
cavalheiro. As palavras mudam de significado e de
nacionalidade, o que é normal.
Devemos usar nosso idioma naquilo que ele tem de
melhor para comunicar, enquanto assimilamos
outros idiomas ou novas palavras naquilo que também
puderem ajudar. A língua é nossa serva, não o
contrário. Nem tudo pode ser traduzido, ou os
americanos já teriam criado uma expressão
inglesa para bossa-nova. Quando fizerem isso,
iremos revidar e deixaremos de ouvir "jazz"
e "blues", em troca de "música
sincopada" e "azuis"
.
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