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ENTREVISTA
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Para onde vai o e-commerce?
Dei uma entrevista sobre e-commerce
para a Revista
do Varejo para uma matéria com o título
"Para onde vai o comércio na Internet?"
Na revista você encontra também opiniões de
Leonardo Pallota, Bruno Parodi e Lonise Gerstner,
além da e-bit, Associação Brasileira de e-Business
e e-Consulting. A íntegra do que eu disse você
encontra aqui.
Revista Varejo: Qual é a avaliação que você
faz da trajetória de 10 anos de história do
comércio eletrônico no Brasil? Quais foram os
maiores avanços e os principais obstáculos?
Mario Persona: Acompanhei o crescimento
da Internet e do comércio eletrônico no Brasil
praticamente desde o seu nascimento. Na época
muita gente encarava o comércio na Internet como
algo novo e totalmente divorciado da realidade
tangível que existe há séculos.
Foi uma época de euforia que retratei em meu
livro "Crônicas
de uma Internet de Verão", quando conheci até
empreendedores que alugaram uma garagem sem saber
exatamente o que vender pela Internet, mas
convictos de que empresas de Internet deviam
começar numa garagem. Foi interessante
acompanhar esse comportamento e a evolução do
comércio eletrônico, um interesse que levou-me
a falar sobre o assunto em várias palestras e a
lecionar também sobre isso durante três anos em
um MBA.
O primeiro obstáculo foi descobrir que nem tudo
funcionava pela Internet. Supermercados, por
exemplo, passaram por maus lençóis quando
perceberam que boa parte de seu trabalho de venda
no mundo de tijolos é feito pelo cliente. Ao
transferir a transação para a Internet os
custos, ao invés de diminuírem, aumentaram.
A razão disso é o famoso trio "pick,
pack, delivery", que é a seleção dos
produtos, embalagem e entrega. No mundo tangível
essas atividades são feitas pelo cliente, que
percorre as gôndolas, seleciona, pega, coloca no
carrinho, leva até o caixa e lá trata de
colocar nos saquinhos e depois transportar até
sua casa imediatamente após a compra.
Um supermercado que venda pela Internet precisa
ter funcionários selecionando e coletando os
produtos, embalando de uma forma mais cuidadosa e
cara do que o simples saquinho e fazendo um
transporte que, por não ser imediato, precisa
ser feito em veículos especialmente adaptados
para transportar separadamente itens congelados,
frios e em temperatura ambiente.
Como cada comprador tem o hábito de comprar as
três classes de produtos indistintamente, já
dá para perceber como isso agrava a logística
de entrega, já que cada compra será dividida em
três entregas no veículo para ser depois
reunificada no destinatário. Que nem sempre é
encontrado em casa no horário comercial. Tudo
isso gerou um custo imprevisto, o que levou
muitos supermercados a fecharem suas portas
virtuais.
Outras empresas que foram com muita sede ao pote
foram as livrarias. Embora neste caso exista uma
grande vantagem na possibilidade de empurrar o
estoque para a editora e só expor fotos e
descrições de produtos, adquirindo apenas o que
é efetivamente vendido, a dificuldade com o
"pick, pack, delivery" continua. E não
apenas para livros, mas para qualquer item de
baixo preço, que pode fazer com que o serviço,
a embalagem e a remessa acabem ficando mais caros
do que o produto em si.
Por esta razão as principais livrarias na rede
evoluíram para um modelo mais abrangente,
incluindo produtos de maior valor como eletro-eletrônicos,
móveis etc. A tendência é que aquelas que
conquistarem uma presença significativa se
transformem em portais de vendas para terceiros,
uma tendência já percebida na veterana do e-commerce
e espécie de guia neste mercado, a Amazon.com
Acredito que o maior movimento do comércio
eletrônico, em termos de volume de recursos
transferidos e na importância de suas
conseqüências, esteja no comércio entre
empresas, o business-to-business. Silenciosamente
e quase invisível aos simples mortais, as
empresas criaram verdadeiras rotas comerciais
entre clientes e fornecedores corporativos
reduzindo substancialmente sus custos graças ao
comércio eletrônico B2B.
Hoje é inconcebível que uma empresa ainda
dependa de meios como cartas, fax ou telefone
para o relacionamento com fornecedores constantes
ou mesmo eventuais. Tudo pode e deve ser feito
via Internet.
Revista Varejo: Segundo o ebit,
Americanas.com, Shoptime e Submarino dominam
juntos mais de 60% do mercado varejista online. A
Americanas acaba de comprar o Shoptime, há
boatos de que a Amazon estaria abrindo uma filial
no BRasil (e de olho no Submarino). Como você
vê esse cenário? A tendência é de
concentração ainda maior?
Mario Persona: Enxergo dois
mundos distintos para o comércio eletrônico. Um
das mega-empresas, que dominarão o grande varejo
graças ao seu poder de presença na mídia e de
otimização do processo de compra e venda. Já
é possível encontrar lojas de eletrodomésticos
competindo com suas filiais on-line, e geralmente
perdendo em preço para estas. Às vezes fico
constrangido ao confrontar o preço que vi na
Internet com o que o vendedor está me oferecendo
na loja de tijolos, quando ele começa a
choramingar que não é possível competir com a
mesma bandeira no mundo virtual. Isso é um fato.
A facilidade de escolha e pagamento que existe
nas compras via Internet me levam a comprar cada
vez mais usando este meio. Mas ainda há os
percalços no caminho. Recentemente adquiri uma
esteira para caminhar de uma grande loja de
departamentos e levaram mais de quinze dias para
entregar. Felizmente eu não estava com essa
vontade toda de caminhar, ou teria ficado
indignado com a demora. O grande gargalo do
comércio eletrônico continuará sendo
logístico, daí a grande oportunidade existente
para empresas de infra-estrutura de entrega,
sistemas etc.
Um outro segmento que continuará crescendo será
o que praticamente inaugurou o comércio
eletrônico, que é o de bens intangíveis, que
não dependem de entrega, como software e, mais
recentemente, música e vídeo. Estes tendem a
crescer cada vez mais e também a se pulverizar,
já que qualquer produtor é capaz de vender seu
próprio software, música ou vídeo sem
necessitar de uma grande estrutura de atendimento.
O processo pode ser totalmente automatizado, como
se o meio eletrônico se transformasse em
milhares de máquinas de vender iguais às de
refrigerantes.
O comércio de e-books, que alguns pensavam poder
seguir o mesmo caminho, não teve tanto sucesso
por dois motivos principais. O livro já é um
produto em declínio, em razão da ampliação
das possibilidades de mídia existentes. As
pessoas irão cada vez mais preferir assistir a
um documentário com imagem e som do que ler um
livro sobre um assunto. Isso não mata a
profissão de quem escreve, pelo contrário, abre
novas oportunidades de carreira, já que tudo
precisa ser escrito de antemão, não importa se
a entrega será via papel, áudio ou vídeo.
Mas é inegável que existirá uma crescente
concorrência entre milhões de Davis e alguns
poucos Golias, como acontece já na propaganda.
Os Golias do comércio eletrônico vez ou outra
se depararão com algum Davi saído do nada com
um blog muito visitado vendendo sua música, seu
filme, seu livro ou qualquer serviço.
O filme A Bruxa de Blair deixou claro o que é
possível conseguir quando a Internet é usada
para causar boca-a-boca, e ainda não vimos o
potencial de tudo isso quando a popularização
da tecnologia permitir, por exemplo, que qualquer
garoto produza em casa um Guerra nas Estrelas ou
Senhor dos Anéis sem precisar de atores ou de um
orçamento milionário.
É bom se preparar, porque há milhões de
Glaubers com uma idéia na cabeça e uma câmera
na mão só esperando o momento certo para
acontecer. A corrida desenfreada dos fabricantes
de celular na transformação de seus aparelhos
em câmeras de vídeo e a rede ganhando
velocidade de transmissão apontam para esse
futuro multimídia que irá requerer apenas
criatividade, quando a tecnologia hoje restrita a
Hollywood virar commodity. Então veremos um
comércio eletrônico que ainda não nasceu, mas
que já foi inseminado.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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