O que é planejamento estratégico
pessoal? Como desenvolver um?
Mario Persona - O planejamento de uma
carreira profissional hoje não difere muito do
planejamento de uma empresa ou de um produto. O
profissional tem praticamente os mesmos objetivos
de uma empresa, que é detectar necessidades,
expectativas e desejos de seu mercado,
analisá-las e atendê-las da melhor forma
buscando satisfazer seus clientes e lucrar.
O processo é praticamente o mesmo, independente
se o profissional pretende trabalhar por conta
própria ou conseguir um emprego. Aqueles que
são empregados em uma companhia também têm um
cliente, um grande cliente, ao qual atendem em
tempo integral.
Na verdade não creio muito em um planejamento
estratégico pessoal formal, em função da
mutabilidade do mercado. Como um estudante vai
ser capaz de prever as condições do mercado
cinco anos depois de entrar na faculdade? E mesmo
que ele tenha um plano, como garantir que sua
profissão não vai desaparecer antes de colocar
seu plano em prática?
Antigamente bastava você buscar uma formação
profissional para determinar assim o seu futuro,
mas hoje isso não é suficiente. O mercado muda
com uma rapidez tão grande que algumas
profissões acabam desaparecendo ou se tornando
tão saturadas que inviabilizam uma carreira
lucrativa.
Por isso o melhor planejamento é manter sempre
um pensamento estratégico de abordagem de
mercado e de detecção de oportunidades,
lembrando destas três atividades: detectar,
analisar e atender.
Há alguns anos nenhum profissional seria capaz
de planejar uma carreira, digamos, na Internet,
mesmo porque ela não existia. Aqueles que
estavam atentos às mudanças e às novas
tecnologias foram os primeiros a embarcar nesse
novo mercado, que se mostrou extremamente
lucrativo e cheio de oportunidades. Aqueles que
se apegaram a algum planejamento prévio perderam
a oportunidade porque o seu planejamento
obviamente não previa a Internet.
Qual a melhor forma de alcançar metas
profissionais e objetivos pessoais em 2009?
Mario Persona - Este ano é um ano de
oportunidades, por ser um ano de mudanças.
Sempre que ocorrem mudanças drásticas na
economia e na sociedade isso causa uma espécie
de dança das cadeiras. Quem estava sentado acaba
de pé e quem estava de pé pode conseguir lugar
para sentar. Outros ainda vão enxergar nessa
dança a oportunidade de vender cadeiras. Se
você observar, até países em guerra têm
oportunidades e quando a guerra termina é comum
observar que o dinheiro trocou de mãos.
A melhor forma de alcançar metas e objetivos
profissionais e pessoais este ano é ser
flexível e estar atento às mudanças. Pessoas
que trazem um planejamento de carreira rígido
são as que sentem maior dificuldade em abandonar
o que foi planejado para se aventurarem em algo
novo. Daí eu insistir na necessidade de um
pensamento estratégico muito mais do que de um
planejamento estratégico.
É fácil perceber a diferença disso. Quando se
tem um planejamento, este foi feito levando-se em
consideração dados e informações colhidos no
passado e, no máximo, em um presente imediato,
mas nunca no futuro. Pense, por exemplo, na crise
mundial que começou em setembro de 2008.
Qualquer planejamento em uma empresa que levasse
em conta índices e dados anteriores, como
cotação do dólar, custo do barril do
petróleo, disponibilidade de crédito, mercados
preferenciais, volume de vendas etc. certamente
precisaria sofrer correções radicais, já que o
mundo ficou de pernas para o ar após a crise que
começou nos Estados Unidos.
Numa hora assim as empresas mais ágeis e
flexíveis, capazes de mudar radicalmente em
tempo recorde seus produtos, processos e
mercados, são as que sobrevivem e conquistam uma
fatia maior de mercado. Eu me lembro de ter sido
consultado para um treinamento de vendas por uma
empresa que disse que queria preparar seus
vendedores para conquistarem o espaço que seria
deixado por seu principal concorrente e líder de
mercado, que estaria em péssima situação em
virtude da alta do dólar. Essa agilidade e
capacidade de perceber oportunidades, que é tão
necessária nas empresas, é também vital para
qualquer profissional que quiser se dar bem este
ano, quando as regras do jogo das profissões
certamente sofrerão abalos profundos.
Por que algumas pessoas fracassam em seus
planejamentos pessoais?
Mario Persona - A principal causa de
fracasso é a falta de flexibilidade. Pessoas
pouco flexíveis têm dificuldade de se adaptarem
às novas condições do mercado. Aqueles que se
apegam demais ao diploma também. De que adianta
você ter uma formação profissional para a qual
não haverá demanda no mercado? O melhor é que
o profissional tenha uma especialização, mas
tenha também um conhecimento genérico de outras
áreas para as quais possa migrar e se aprofundar
rapidamente em caso de necessidade.
Outra causa de fracasso é sentir pena de si
mesmo, considerar-se vítima das circunstâncias.
Pessoas assim perdem tanto tempo se lamuriando
que não vêem as oportunidades que passam ao
redor. Geralmente isso tem sua raiz no orgulho
que nos torna inflexíveis e principalmente
incapazes de reconhecer nossos erros e a
necessidade de aprimoramento constante. Uma vez
eu dei uma opinião sobre um determinado assunto
e alguém me cobrou: "Mas Mario, eu me
lembro que há alguns anos você me disse
exatamente o contrário!". Pois é,
expliquei a ele que eu tinha mudado. Seria muita
idiotice manter uma opinião depois de aprender
algo novo sobre o assunto. Daí a necessidade de
estar disposto e sem medo de aprender mais do que
eu sei. Se eu me considerar completo, como posso
ter disposição para aprender o que é novo?
Há também a necessidade de ficar atento para os
problemas, e não fugir deles, como geralmente
fazemos. Pessoas que evitam problemas são
pessoas que evitam oportunidades. É fácil
perceber isso quando entendemos que qualquer
profissão nada mais é do que uma atividade de
resolução de problemas para alguém. O dentista
resolve os problemas dos dentes de seus clientes,
o médico os problemas de saúde, o arquiteto os
problemas de espaço da casa, o engenheiro civil
os problemas estruturais e por aí vai. Sem
problemas não há profissões.
O profissional de sucesso é aquele que detecta
problemas que às vezes nem mesmo seus futuros
clientes percebem que têm, apresenta soluções
criativas e atraentes, e aponta para novas
perspectivas que o colocam na frente de seus
concorrentes. E, obviamente, que sabe vender suas
idéias.
Entrevista concedida para a Revista
Acesso (Bayer) em 10/12/2008.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora, costumo gravar ou dar
entrevistas por escrito. A íntegra do que foi
falado você encontra aqui.