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ENTREVISTA
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Internet nas empresas
P - Atualmente grande parte dos contatos com
parceiros, clientes e fornecedores acontece via
Internet. Quais as vantagens e os riscos desse
cenário?
Mario Persona - Mario Persona - Toda
comunicação tem riscos, sejam eles de natureza
técnica ou da própria comunicação. Um
mal-entendido é um exemplo de risco causado por
um ruído de comunicação que nem sempre depende
de fatores técnicos. No caso da Internet, os
riscos aumentam proporcionalmente aos benefícios
que a tecnologia trouxe.
Para algumas empresas que são pouco dependentes
de transações usando a Internet o risco pode
não ser sério, pois envolve apenas mensagens de
pouca importância que podem ser passadas por
telefone, fax ou até correio. Para outras, um
problema na Internet pode significar a
paralisação dos negócios da empresa.
Em qualquer caso, os riscos são proporcionais
aos benefícios trazidos pela infra-estrutura
tecnológica. Em um país sem estradas ou sem
meios de comunicação a empresa corre poucos
riscos, mas também não fatura. À medida que a
infra-estrutura cresce, aumentam as suas chances
de crescimento e aumenta também sua dependência
dessa infra-estrutura.
Para uma empresa a Internet não é muito
diferente da malha viária ou da rede de
fornecimento de eletricidade e de água, quando
esses serviços se tornam uma parte vital da
sobrevivência da empresa.
P - A recente pane da Telefonica em São
Paulo deixou a cidade praticamente parada durante
quase dois dias. A que o senhor credita esse
fato?
Mario Persona - O crescimento rápido da
demanda por Internet no país nem sempre é
acompanhado de uma infra-estrutura adequada ou de
sistemas de contingência, o que resulta em
problemas como aconteceu com a Telefónica.
Em meu caso, dependo totalmente da Internet,
tanto para ser encontrado por possíveis clientes
como para enviar propostas e documentos. Ainda
que muitos conseguissem visitar meu site e enviar
propostas, eu era incapaz de receber parte das
comunicações em meu escritório, mas a
comunicação continuou normalmente em meu
serviço de atendimento que funciona em outro
local e usa os serviços de outro provedor de
Internet. Eu mesmo cheguei a ir duas vezes a um
cybercafé próximo para enviar algumas propostas
por email.
P - As empresas estão dependentes da
Internet?
Mario Persona - Sem dúvida, e essa
dependência vai aumentar, assim como aumenta a
dependência das empresas por telefonia,
estradas, energia e água. Uma pane na telefonia,
a queda de uma ponte, um apagão energético ou o
corte no fornecimento de água são coisas
capazes de paralisar uma empresa, dependendo do
grau de dependência que elas tem de cada um
desses serviços. Não é diferente com a
Internet.
O problema é que hoje, com o comércio
eletrônico e serviços de banco e investimentos
funcionando por Internet, uma pane neste meio
causa prejuízos muito grandes e equivalem, por
exemplo, à falta de energia em uma empresa que
dependa de máquinas para produzir ou ao corte da
água em uma fábrica de bebidas. A Internet é
essencial no transporte da matéria prima usada
nas empresas que dependem de informação.
Mas mesmo as indústrias estão ficando cada vez
mais dependentes da Internet, pois muitos
sistemas de EDI ou troca eletrônica de dados,
que antigamente estavam restritos às grandes
corporações por causa de seus custos, hoje
foram democratizados e chegam até pequenos
fornecedores de grandes fabricantes.
Os pedidos de matéria prima e insumos são
feitos utilizando esses sistemas via Internet e
em processos como kanbam e just-in-time, que
dependem de informação constante para o
suprimento das demandas de uma indústria, uma
pane na Internet pode trazer prejuízos enormes
com linhas de produção paradas por falta de
insumos.
P - Quais as alternativas para deixar a
comunicação corporativa mais humana sem perder
agilidade?
Mario Persona - A maior parte da
comunicação entre empresas não passa por seres
humanos e é automática, como no caso da troca
eletrônica de dados. São computadores
conversando com computadores via Internet como,
por exemplo, os caixas de um supermercado
enviando informações ao estoque que, por sua
vez, envia informações aos fornecedores que
também estão de algum modo conectados aos seus
próprios fornecedores. Boa parte disso acontece
nos bastidores. Não há como humanizar essa
parte da comunicação, porque são dados que
são comunicados.
Já na comunicação corporativa entre seres
humanos, a racionalização da comunicação é
algo importante. Muitas empresas gastam tempo e
dinheiro por dependerem da comunicação errada
para seus processos. O simples fato de ignorar
quando usar uma comunicação síncrona ou
assíncrona pode levar a gastos desnecessários.
Em uma comunicação síncrona, é necessário
que as partes estejam disponíveis ao mesmo
tempo, como acontece com uma ligação
telefônica. Um e-mail é assíncrono, já que é
possível o interlocutor receber a informação e
responder quando for mais conveniente.
O uso do telefone para mensagens que poderiam ser
enviadas por e-mail é um exemplo de desperdício
de tempo e dinheiro nas empresas. Adotar as
ferramentas adequadas - transmissão automática
de dados, telefones, celulares, e-mail,
messengers, voz sobre IP, videoconferência etc.)
pode trazer mais agilidade aos processos nas
empresas.
P - Ferramentas como e-mail, msn etc
podem viciar funcionários? Como isso pode afetar
o desempenho no trabalho?
Mario Persona - Isso é uma questão
cultural, e a empresa precisa educar seus
colaboradores no uso das ferramentas. Algumas,
quando descobrem que seus colaboradores estão
usando de forma errada a Internet se livram das
ferramentas, quando o certo seria se livrar das
pessoas que não sabem utilizar as ferramentas.
Se uma fábrica percebe que um colaborador está
gastando tempo e energia usando uma máquina de
furar elétrica, seria sensato adotar apenas
furadeiras manuais?
Em alguns casos podem ser estabelecidos limites,
mas eu acho que o melhor mesmo é estabelecer
limites para o perfil das pessoas que são
contratadas, deixando que a tecnologia siga o seu
curso e evitando privar a empresa dos recursos e
ferramentas mais modernas. Acho um absurdo quando
sou obrigado a enviar uma proposta por fax ou
correio porque a empresa que solicitou bloqueou
sua rede para o recebimento de anexos. É a velha
história de se matar a vaca para acabar com o
carrapato.
P - O que pode ser feito para evitar esse
tipo de problema?
Mario Persona - Como eu disse, o
primeiro filtro ocorre na contratação, o outro
na forma de contratação, que deve prever
responsabilidades no uso adequado das ferramentas
da empresa, entre as quais hoje a Internet é uma
das principais. Assim como um colaborador não
pode usar uma máquina ou veículo e combustível
da empresa para seu próprio benefício, sem
falar das horas que ele é remunerado para
produzir, o mesmo deve acontecer com as
ferramentas de comunicação, como telefone e
Internet.
P - Incentivar a comunicação via
telefone ou mesmo pessoalmente é um retrocesso?
Por quê?
Mario Persona - Sim, porque uma
ferramenta "pega" quando em alguns
aspectos ela demonstra ser superior às outras.
Foi o que aconteceu com a Internet. Eu trabalhei
na época em que enviar um memorando para outro
departamento exigia que o mesmo fosse escrito em
uma folha de papel que era recolhida pelo
office-boy da caixa de saída sobre a minha mesa,
levado para a expedição e encaminhado via
malote.
Quando era uma carta, eu só escrevia o rascunho
à mão, o office-boy levava para a datilógrafa,
depois ele trazia de volta à minha mesa para eu
conferir, de volta para ela para corrigir, de
volta para mim para assinar, e finalmente ia para
o correio. Hoje isso é feito instantaneamente
via Internet, não importa se meu interlocutor
está na sala ao lado ou na China. E se ele achar
que precisa conversar olho no olho pode me chamar
pelo Skype ou outro messenger e convocar uma
reunião via videoconferência envolvendo outras
pessoas a custo praticamente zero.
P - Como o senhor prevê a comunicação
corporativa para a próxima década?
Mario Persona - O velho ditado diz que
quem nunca come, quando come se lambuza, e
estamos ainda no estágio de
"lambuzamento", quando muita gente
ainda está embasbacada com a Internet como um
indígena em 1500 que ficasse olhando horas no
espelho que ganhou de Pedro Álvares Cabral. Com
o tempo as novas tecnologias vão se tornando
parte de nossa vida e deixamos de nos ocupar com
a tecnologia propriamente dita, passando a nos
ocuparmos com seus benefícios e a ganhar em
produtividade. Foi assim com o telefone, que no
passado ganhava aqueles famosos cadeados nas
empresas. Será assim com a Internet.
Entrevista concedida para a Revista
Bens & Serviços da FECOMERCIO-RS em
06/08/2008.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora, costumo gravar ou dar
entrevistas por escrito. A íntegra do que foi
falado você encontra aqui. Se achar que este
texto pode ajudar alguém, use o formulário
abaixo para compartilhar.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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