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ENTREVISTA
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Planejamento e gestão de carreira
P. Onde buscar informações e como fazer um
planejamento de carreira?
Mario Persona - Entendo que um
planejamento de carreira é uma parte apenas do
plano de vida de um profissional, porque em sua
vida ele pode passar por várias carreiras e
necessitar de diferentes planos. Eu precisaria de
uma bola de cristal se tentasse planejar minhas
carreiras na década de 1970, quando ainda estava
na faculdade. Vivo hoje em um planeta
completamente diferente daquele, portanto
qualquer planejamento na época já teria perdido
seu significado dez anos depois.
Portanto é importante olhar para frente, mas
não tão para frente quando o assunto são as
carreiras de nosso caminho, porque certamente
vamos encontrar muitos desvios nessa jornada.
Quando o assunto é vida em um sentido mais
amplo, esta também é meio avessa a
planejamentos. As circunstâncias teimam em nos
tirar dos trilhos que polimos com tanto esmero.
Se eu puder dizer que aprendi alguma coisa em
mais de meio século de vida, essa coisa é que
devo estar muito mais preparado e configurado
para mudanças do que para alguma carreira
específica. Quero dizer, algo como o soldado que
dorme semi vestido para a batalha, porque a
qualquer momento pode soar o alarme.
Isso não significa que eu não possa buscar o
auxílio de consultores ou de literatura
específica para a carreira que pretendo seguir
nos próximos cinco minutos. É claro que não
posso parar nunca de me especializar em alguma
coisa, mas preciso aprender a fazer isso com a
cabeça de um generalista.
Vou dar um exemplo. Minha formação é em
arquitetura e urbanismo, mas hoje atuo em
marketing. Em algum momento de minha jornada um
desvio quase imperceptível foi me levando para
um novo rumo, mas nesta atual configuração eu
uso muitos dos conceitos que aprendi em
arquitetura, porque no fundo a coisa funciona do
mesmo jeito.
Do mesmo modo como o arquiteto procura detectar,
analisar e atender necessidades e desejos do
morador de uma habitação ou da escola que vai
ocupar um prédio, a criação de um produto
passa pelo mesmo processo de planejamento de
marketing.
Por isso pessoas extremamente low context, ou que
são muito lógicas e racionais na abordagem que
fazem do aprendizado costumam ter maior
dificuldade para se adaptarem às mudanças.
Quando se especializam em uma área acham que
mudar significa jogar tudo no lixo e aprender de
novo.
Nunca é assim. Quem souber resumir o que aprende
hoje a um conceito; quem tem o poder de síntese
para espremer o que realmente importa das coisas
que lê ou aprende, saberá reciclar rapidamente
esse conhecimento para aplicá-lo em outra área.
Lembro-me de um cliente, diretor de qualidade de
uma grande indústria de motores, que sugeriu que
sua equipe de gerentes e supervisores visitassem
um laboratório de análise clínica para
aprenderem a fabricar motores. Obviamente estava
convidando sua equipe a ter esse olhar conceitual
que pode ser usado nas mais diferentes áreas e
circunstâncias.
P. Quais são as maiores preocupações
de carreira, vida pessoal e aperfeiçoamento para
o profissional entre os 30 e 40 anos?
Mario Persona - Nessa fase geralmente o
profissional já deixou de atirar para todos os
lados como fazia na fase primeva de sua carreira,
quando ainda tentava ser alguém, não exatamente
para si mesmo, mas principalmente para os outros,
ou seja, conseguir satisfazer sua necessidade de
auto afirmação, tanto em relação à carreira
como em relação às pessoas de seu interesse.
A minha geração começava uma família mais
cedo do que a geração atual, portanto aos 30
anos eu já tinha filhos e estava mais preocupado
em fazer as contas fecharem no final do mês do
que em provar algo para alguém. Portanto nessa
fase dos 30 aos 40 você pode encontrar pessoas
como as de minha geração, que já estão
soterradas em compromissos com família, e
também pessoas que ainda nem passaram para essa
fase.
De um modo geral já é um momento em que se
começa a pensar no futuro, mas só um pouquinho,
porque a adrenalina e a energia ainda estão lá,
e ninguém nessa idade imagina como vai ficar
difícil subir uma escada ou correr um
quarteirão dez anos depois. Há coisas que só
entram em nossa lista de prioridades quando a
água bate no queixo.
Eu não sirvo muito de modelo, pois quando
cheguei nesse período abandonei o emprego para
assumir uma configuração de profissional semi
voluntário, dedicando-me nos dez anos seguintes
a dirigir uma editora sem fins lucrativos. Foi
só após isso que voltei a uma configuração
usual no mercado de trabalho, sem grandes
dificuldades de adaptação por ter me mantido
sempre estudando e assessorando grandes
multinacionais para as quais traduzia textos
técnicos.
Creio que isso é uma dica importante: nunca
parar de estudar e de manter o contato com o
mercado, principalmente com o que acontece na
ponta, na vanguarda. O fato de trabalhar muitos
anos como tradutor de textos e procedimentos
técnicos para multinacionais me colocava na
posição daquele que aprendia o que os diretores
e colaboradores da subsidiária brasileira só
iriam aprender depois.
Olhando para trás eu diria que a fase dos 30 aos
40 anos é quando o profissional deve pensar em
investir seu tempo naquilo que representará
maior valor no futuro. Ao contrário do que diz o
discurso corporativamente correto, eu acredito
ser mais importante nesse período investir nos
filhos do que no sucesso da carreira. Posso
alcançar sucesso nesta, mas não naquela, se
tudo o que conseguir for deixar meus órfãos com
um pouco mais de dinheiro no bolso. Portanto, é
preciso muito equilíbrio nessa hora,
principalmente aqueles que já iniciaram uma
família.
Outra dica para o aperfeiçoamento profissional
é escolher as atividades sempre pensando em como
otimizar o tempo. Quero dizer, se pretendo fazer
algum curso e puder fazer algo que esteja
intimamente relacionado com meu trabalho atual e,
talvez, até poder usufruir de alguma hora livre
no trabalho para estudar ou ter o curso
subsidiado pela empresa, devo colocar esse tipo
de aperfeiçoamento como prioridade.
É claro que aqui vale também aquela
disposição mental que mencionei de estudar
pensando já em como aplicar aquilo em outras
situações, empresas ou profissões. E para não
dizer que não falei em flores, todo profissional
deveria dedicar um tempo ao aprendizado de alguma
atividade artística para desenvolver seu lado
criativo.
P. Nesta fase o profissional deve abrir
seu próprio negócio, fazer um pós-graduação
ou já pode começar a desfrutar?
Mario Persona - Se o profissional não
abrir seu próprio negócio nessa fase,
provavelmente abrirá na fase seguinte, quando o
mercado passar a filtrá-lo pela idade. Quem tem
trinta anos e acha que vai se aposentar na
empresa onde trabalha provavelmente verá seu
planejamento de carreira ser aposentado antes.
Uma boa estratégia é começar desde cedo a
enxergar a empresa onde trabalha como um grande
cliente, para o qual está dedicando
momentaneamente todo o seu tempo, mas ciente de
que isso pode mudar. De repente ele poderá
dedicar todo o seu tempo a outro grande cliente,
ou dedicar períodos a diferentes grandes
clientes. Todo profissional hoje deve trabalhar
com cabeça de terceirizado.
P. Qual é a melhor fase para cada modo
de agir na carreira?
Mario Persona - Eu considero minha atual
fase, do alto de meus 53 anos, como muito boa.
Tenho os filhos criados, posso me sentir
satisfeito com parte de meu dever cumprido e, por
ser cristão, sempre acredito que o melhor ainda
está por vir. A pior coisa que poderia me
acontecer - a morte - eu ainda a vejo como
aliada, não inimiga. Com uma cabeça assim fica
mais tranqüilo até na hora de sentir o peso da
idade, a vista menos precisa e a memória nem
tão afiada como outrora.
De um modo geral eu acho que a fase dos 20 aos 30
é a de maior adrenalina, porque o profissional
está com toda aquela energia e uma montanha de
planos para concretizar. Como o sucesso é algo
muito subjetivo, ele precisa tomar cuidado para
não se deixar levar pelo padrão de sucesso
imposto pela mídia. Até outro dia qualquer
profissional que sonhasse com algum posto de
destaque em uma empresa de Wall Street podia
sonhar ser capa das principais revistas do mundo.
Hoje é provável que encontre alguns de seus
ídolos nas capas dessas revistas, mas por outros
motivos.
Dos 31 aos 40 eu já falei, portanto acho que dos
41 aos 50 é a fase da consolidação do que
conquistou e construiu, e também a fase das
surpresas, que incluem grandes mudanças em sua
vida caso seus filhos saiam de casa para estudar
ou trabalhar, ou receba o agradecimento da
empresa onde trabalhou tantos anos e precise
dizer aos amigos que está partindo para novos
projetos e desafios, ou seja, procurar emprego. O
que ele tiver construído na forma de
capacitação para mudanças certamente irá
valer muito nessa hora, além dos relacionamentos
que cultivou ao longo dos anos e dos favores que
prestou a pessoas que poderão se tornar
extremamente valiosas em um momento assim.
O contrário também é verdadeiro, porém. Quem
passou todos os anos tratando mal colegas e
subordinados poderá colher frutos amargos quando
precisar de indicações ou de um reinício de
carreira.
Entrevista concedida à Folha
de São Paulo em 09/10/2008.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas declarações do
entrevistado. Para não perder o que eu disse na
hora, costumo gravar ou dar entrevistas por
escrito. A íntegra do que foi falado você
encontra aqui. Se achar que este texto pode
ajudar alguém, use o formulário abaixo para
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Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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