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Marketing Lateral - Portal
da Universidade Corporativa do Banco do Brasil Fui entrevistado pelo
Portal da Universidade Corporativa do Banco do
Brasil para matéria
sobre marketing lateral. A íntegra da
entrevista você encontra aqui.
Universidade Corporativa BB
- O que você entende por marketing lateral?
Mario Persona - Ouvi sobre
marketing lateral durante uma palestra de Philip
Kotler. A idéia do marketing lateral não é
tanto de se procurar detectar necessidades e
atendê-las com novos produtos ou serviços como
toda empresa costuma fazer dentro de uma estratégia
de marketing, mas partir de pontos ou idéias já
existentes para desenvolver produtos que
complementem, rompam ou substituam o existente
que foi tomado como ponto de partida. Mas não se
trata exatamente de se criar extensões em uma
mesma linha de produtos ou variantes mantendo o
mesmo conceito. O produto existente serve apenas
como ponto de partida para algo novo.
Esta estratégia não substitui mas complementa
as técnicas tradicionais como faria um escritor
diante de uma folha em branco. Um dos maiores
terrores de um escritor é a folha em branco.
Isso não mudou nem com as novas tecnologias, que
apenas substituíram a folha pela tela em branco.
Mas ela continua ali, olhando para mim
desafiadora e me testando: Nenhuma idéia ainda?!
Então recorro a algum texto já escrito como
ponto de partida, praticamente copio um parágrafo
e então as idéias começam a fluir em um texto
completamente novo e original. O parágrafo
inicial é apagado depois.
Ao contrário do marketing vertical, que procura
uma extensão, por exemplo, de biscoito para
biscoito recheado, a idéia do marketing lateral
é partir de um produto existente para criar algo
totalmente novo. Um dos exemplos que Kotler deu
em sua palestra foi o da barra de cereais. Ela
foi inventada tomando como partido esses cereais
como granola, que todo mundo já comia com leite,
sorvete ou puro, e criando um novo formato, uma
nova forma de comer e um novo conceito de
produto, associando a barra de cereais a alimentação
saudável e light, ou a uma refeição para se
levar a qualquer lugar. Antes nenhuma companhia aérea
pensaria em servir granola em um vôo. Já a
barra de cereais parece estar virando presença
obrigatória em qualquer viagem.
BB - Quais os
principais diferenciais dessa estratégia em relação
as outras?
MP - O marketing lateral exige
esse tipo de criatividade que desafia o
pensamento convencional e cria analogias de
produtos. Fico muito à vontade para falar sobre
analogias, parábolas ou metáforas, pois faço
isso constantemente em minhas crônicas de negócios
usando histórias e casos de todos os gêneros
para explicar conceitos de marketing e negócios.
A analogia é um pensamento que se vale de
elementos de contato para criar uma idéia que
caminhe paralelamente ao conceito original, porém
independente dele.
Em alguns casos é feita analogia usando-se os
elementos que são comuns a ambos pensamentos,
mas pode acontecer o contrário e partirmos de
uma idéia para criar um conceito que seja
exatamente o oposto do partido original. Kotler
fala sobre isso quando dá o exemplo das flores,
que sempre trazem em si a idéia de algo efêmero
e passageiro. O contrário de efêmero é algo
que nunca murcha, envelhece ou morre. Este é o
conceito de uma flor artificial, criada a partir
de uma estratégia de marketing lateral, muito
embora quem tenha criado a primeira flor
artificial provavelmente nunca leu Kotler e nem
conheceu o significado moderno da palavra
marketing.
É importante entender que quando alguém
denomina esta ou aquela forma de marketing
geralmente está dando nome a bois que pastam no
mercado há séculos. Novas denominações de
marketing apenas estruturam o pensamento sobre as
diferentes abordagens que podem ser então
adotadas com maior clareza de pensamento e propósitos.
Falo disso em meu último livro Marketing Tutti-Frutti
onde apresento uma verdadeira salada de frutas
das principais vertentes do marketing moderno
sempre na forma de crônicas bem-humoradas e
cheias de pensamentos laterais.
Acho que até lá devo ter incluído alguma idéia
de marketing lateral perdida em meio aos capítulos
que falam de marketing de prestígio, auto-estima,
multiplicador, conversação, solidariedade,
reciclagem, inovação, pirataria, preservação
e assim por diante. Como pode ver, são infinitas
as possibilidades de se encontrar novas definições
para o marketing, como na lenda dos cegos que
apalpavam o elefante e davam ao mesmo animal
descrições completamente diferentes por estarem
apalpando partes distintas.
Mas, voltando a essa nova faceta do marketing
descrita por Kotler, ele continua seu exemplo das
flores para explicar o uso de extensões de
pensamento que criem um deslocamento dos
objetivos normais de quem compra para criar
objetivos laterais. Por exemplo, ao invés de
enviar flores no dia dos namorados, uma idéia
lateral seria substituí-las por bombons, ou
inverter a idéia e enviar flores todos os dias e
não apenas na data festiva, ou fazer combinações
de flores e bombons, pedir flores ao invés de
dar, e por aí vai. Substituições, combinações
ou inversões partem de um elemento principal
para criar coisas novas. Neste sentido uma venda
casada pode ser considerada uma forma de
marketing lateral, quando ofereço meias para
quem quer comprar calçados.
BB - Em que
segmentos de atuacao ja esta sendo aplicado?
MP - O marketing lateral já está
por aí mesmo em empresas que não tiveram essa
intenção ao aplicá-lo. Às vezes nem é
preciso dar uma nova forma ao produto, mas apenas
dar uma nova forma ao conceito para termos um
caso típico de marketing lateral. É o que fez a
Bayer ao promover a conhecida aspirina como um
medicamento completamente novo. Se antes ela era
vista como analgésico, o novo conceito apresenta
a aspirina como um medicamento para prevenir
ataques cardíacos. Não se trata, portanto, de
segmentar verticalmente, como seria uma aspirina
infantil, uma aspirina mais forte ou mais fraca,
mas criar um conceito novo e lateral ao produto
existente.
Levando para o lado do exagero das lendas
urbanas, eu diria que essas mensagens que
circulam pela Internet falando de refrigerantes
servem para limpar peças de automóveis,
desentupir pias ou dissolver pregos estariam
aplicando o mesmo conceito. Continuando com estas
ilustrações exageradas do conceito, o mesmo
valeria para alguma empresa tentar vender esponja
de aço para acoplar a antenas de TV, CDs para
apoio de copos ou alfinetes de fralda para serem
usados como piercing. Quem nunca usou papel higiênico
como lenço? Só não surgiu uma empresa com a
coragem de lançar lenço de papel em rolo. Isto
poderia ser incluído no conceito de marketing
lateral.
A lista desse marketing lateral underground com o
qual já convivemos é imensa e às vezes alguma
empresa acerta oficializando na forma de um
produto aquilo que a sabedoria popular já havia
consagrado. Jornal e vinagre para limpar vidros,
ovos e limão para caspa, pimenta do reino contra
moscas ou pó de café para eliminar odores. Será
que Kotler teria batizado o "marketing
lateral" de "marketing de almanaque",
como os que eram distribuídos antigamente nas
farmácias dando dicas de como pensar
lateralmente o uso de velhos produtos.
Quando falei de marketing lateral em uma aula, um
aluno deu o exemplo da groselha que é comprada
para passar em pneus. É claro que nunca vi um
fabricante de groselha anunciando o seu produto
para tal finalidade, e nem imagino que um dia
iremos comprar groselha em loja de auto-peças.
Mas se um dia isso acontecer, é bom que o
fabricante imprima na embalagem do produto instruções
bem claras de como lidar com as formigas que
certamente vão querer lamber o pneu.
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