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ENTREVISTA
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Plano
de carreira
O que é um plano de carreira?
Mario Persona - Tecnicamente falando, um
plano de carreira é uma série de passos que
você deve tomar para atingir uma meta de
carreira que tenha proposto para si mesmo. A
concepção de um plano de carreira vem de uma
época em que o mundo girava mais lento e as
profissões não mudavam com a velocidade que
mudam hoje. Portanto eu enxergo que hoje um plano
é importante, mas não tanto quanto uma visão
estratégica de mercado.
Quando saí da faculdade há 30 anos eu era
arquiteto. Naquela época computadores pessoais
eram ficção ou não passavam de experiências
publicadas em revistas de hobbies eletrônicos.
Na época arquitetos desenhavam em pranchetas com
canetas de nanquim e cálculos estruturais eram
feitos com o auxílio de réguas de cálculo ou,
eventualmente, com alguma caríssima e
limitadíssima calculadora das que começavam a
surgir no mercado.
Por mais arrojado que fosse meu plano de carreira
na época, ele jamais teria incluído as
atividades que acabei exercendo ao longo da
carreira. E como eu poderia, na década de 70,
prever que na década de 90 eu seria diretor de
comunicação e marketing de uma empresa de
Tecnologia da Informação? Foi essa minha
última atividade profissional antes de partir
para uma carreira solo de consultor, palestrante
e escritor. Nos anos 70 não existia Tecnologia
da Informação, pelo menos como a conhecemos
hoje, e quase ninguém falava em marketing.
Como definir seu plano de carreira?
Mario Persona - A maneira mais simples
de se enxergar estratégia é pensar que você
está em um ponto "A" e precisa atingir
um ponto "B". Estratégia é o que deve
ser feito para se chegar lá, o que nem sempre é
uma linha reta. Aí entra a inteligência do
estrategista em analisar as muitas variáveis
envolvidas no processo e escolher aquela que
melhor se aplica à situação. Quem costuma
velejar sabe que para ir do ponto "A"
ao "B" às vezes é preciso viajar em
zigue-zague para aproveitar melhor os ventos.
Porém, a idéia de pontos "A" e
"B" é apenas uma ilustração simples,
mas nem sempre reflete a realidade.
Há situações em que a melhor estratégia é
não ir ao ponto "B" ou até mesmo
partir para outra carreira. Mas como você iria
imaginar que em seu futuro existiriam pontos
"C" ou "D"? Uma boa
estratégia não pode partir de premissas
imutáveis e precisa levar em conta as
possibilidades. Infelizmente muitos profissionais
traçam uma estratégia do tipo "Quando
crescer quero ser motorneiro de bonde". Aí
os bondes desaparecem e ele fica a ver navios.
Seu plano de carreira deve acompanhar
você por toda sua vida?
Mario Persona - Não é o plano que deve
acompanhar o profissional, mas a visão
estratégica de sua carreira, porque o mercado
vai mudar muito rapidamente. Quem começa uma
faculdade pode encontrar a profissão que
escolheu completamente diferente quando sair da
escola 4 ou 5 anos depois. Antigamente fazíamos
planos para vinte anos, depois para dez, depois
para cinco, para três... Hoje um terrorista
qualquer assume o controle de um avião e muda o
mundo em questão de minutos. A melhor
estratégia hoje é a estratégia da mudança
contínua, ou melhor, da prontidão para a
mudança.
Como se organizar e planejar todas as
atividades a serem cumpridas?
Mario Persona - Não existe uma receita
ou, pelo menos, eu não uso uma do tipo "em
2008 vou fazer isso, em 2009 vou fazer aquilo, em
2010 viajarei a tal lugar..." Minhas listas
são muito momentâneas porque não sei o dia de
amanhã. Mas vivo olhando para as possibilidades.
O profissional deve avaliar se o seu planejamento
não está engessando sua carreira. O gesso é
sempre um problema para qualquer negócio.
Pessoas engessadas demoram a se mover ou têm
movimentos que estão fora de seu alcance
simplesmente porque não foram previstos. É bom
traçar uma rota, mas se perceber que há um
desvio à frente, não vá atropelar os cavaletes
de sinalização só porque já está com sua
rota traçada.
Antes de fazer um plano de carreira é
necessário definir qual seu objetivo
profissional?
Mario Persona - Sim, e é aí que está
a arte do negócio. Se eu decidir que quero ser
dentista para tratar de cáries, posso encontrar
um futuro onde as pessoas não têm mais
problemas de cáries. Se eu ampliar um pouco mais
meu objetivo, talvez possa encontrar um futuro um
pouco melhor para trabalhar com a estética da
boca de meus clientes. Mas aí posso também
descobrir que todo mundo teve a mesma idéia e o
mercado está extremamente competitivo.
Porém, se eu abrir um pouco mais meu leque,
posso decidir que minha área de atuação será
a saúde bucal, e acabar sendo proprietário de
uma revenda de produtos para dentistas, ou
fabricante de equipamentos ou, quem sabe,
pesquisador na área de novos materiais. É neste
sentido que falo que devemos estar abertos às
possibilidades.
Como usar experiências profissionais de
empregos passados no atual, mesmo que estes não
tenham as mesmas características e você não
desempenhe as mesmas funções?
Mario Persona - Há coisas que são
comuns a todas as profissões. Por exemplo, você
precisa ter uma visão de marketing para qualquer
atividade que exercer. Você precisa ter noções
de finanças, de contratação e relacionamento
com pessoas, visão organizacional, conhecimento
de vendas e negociação. É enorme o número de
atividades que você encontra em todas as
empresas e essa experiência pode ser
transportada para sua carreira em diferentes
segmentos. Muitos profissionais são
completamente alheios a isso. Enquanto não
trabalham na profissão exata que escolheram,
acham que não há nada a aprender ali. É
preciso entender que em qualquer atividade
podemos encontrar atividades análogas cujos
conceitos podem ser aplicados em outras
atividades. As grandes invenções vieram de
grandes analogias. Alguém viu uma chaleira e
inventou a máquina a vapor.
Como obter mais facilidade em se
comunicar profissionalmente e ter maior poder de
decisão e administração?
Mario Persona - Andar de bicicleta a
gente aprende andando. Comunicar-se é algo que
aprendemos nos comunicando. Você pode ler todos
os livros de comunicação, mas se não praticar,
não sairá do lugar. Muitos alegam que são
tímidos, que não sabem falar, que isso e
aquilo, mas a comunicação exige uma atuação,
exige que você incorpore uma personagem
comunicativa, como se estivesse no teatro. Um
ator representa diferentes papéis em sua vida
artística, e pode não ser coisa alguma dos
papéis que representou. Assim é com a
comunicação. É preciso representar, porque ela
é uma necessidade vital para o profissional.
Obviamente alguns terão melhor talento, e outros
nem precisarão representar porque ser
comunicativo faz parte de sua natureza.
Quanto a poder de decisão e administração,
vale a mesma regra, porém como envolve
conseqüências mais amplas e sérias, é bom
lembrar que nem todas as pessoas têm condições
de decidir e administrar. É por isso que em
todas as épocas as tribos tiveram chefes, os
exércitos comandantes e os países reis ou
presidentes. Alguém sempre precisará estar no
poder para que as coisas funcionem. Se não tenho
jeito para administrar, é melhor que deixe isso
para quem está mais apto e procure me
aperfeiçoar naquilo que está dentro de minhas
competências. As conseqüências de uma
comunicação deficiente podem prejudicar a
carreira apenas do profissional, mas as
conseqüências de uma má administração têm
um impacto mais amplo.
Como conquistar um cargo melhor?
Mario Persona - Depende do que o
profissional considera um cargo melhor. Para
algumas pessoas ganhar mais é progredir
profissionalmente. Para outras, é fazer aquilo
que gosta. Há ainda quem goste mesmo é dos
títulos, do tapinha nas costas, da placa com seu
nome na porta da sala, da vaga reservada no
estacionamento da empresa. Varia muito de pessoa
para pessoa. Em qualquer situação, o caminho é
sempre procurar ser o melhor naquilo que você
faz.
Porém, geralmente não são os que melhor
executam algo que ganham mais, se a meta for
dinheiro, mas os melhores em detectar
oportunidades ou administrar para que outros
façam o que ele quer que seja feito. Na opção
"cargo melhor é ganhar mais", quanto
mais distante você estiver da realização
tangível ou de fazer as coisas, maior será sua
receita.
É simples perceber isso. Basta observar a
pirâmide organizacional: os que estão no topo
ganham mais e fazem menos, em termos de coisas
tangíveis, ou seja, trabalham mais com o
cérebro do que com as mãos. Até entre os
países acontece isso. Os mais ricos são os
donos das patentes e dos copyrights. Os que
transformam essas patentes em produtos tangíveis
são mais pobres.
Quais são os requisitos necessários
para cumprir seu plano de carreira?
Mario Persona - Se por "plano de
carreira" você entendeu que o melhor plano
é, na verdade, uma visão e disposição para
mudanças constantes, então os requisitos são a
falta de um engessamento que dificulte essas
mudanças. Há porém outras opções para planos
de carreira, como prestar um concurso público e
ter um cargo público como sua meta. Há pessoas
que se dão muito bem nesse sentido e são
felizes.
Outras têm como objetivo, não uma carreira, mas
o fim dela, ou uma aposentadoria. Essas são as
que estão na pior situação, porque vão passar
a vida fazendo mal o que fazem, azedando a vida
de todo mundo ao redor, de olho no dia em que
poderão ficar sem fazer nada. São pessoas
avessas ao trabalho e que acreditam que a melhor
meta é parar de trabalhar e virar revestimento
de sofá. Esse é um plano que não sugiro.
Entrevista concedida à agência
MidiaWeb em 19/11/2007 para uma matéria sobre
plano de carreira para o site de um de seus
clientes.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba publicado. Eventualmente são aproveitadas
apenas algumas frases a título de declarações
do entrevistado. Para não perder o que disse na
hora e posso nunca mais conseguir dizer, costumo
gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra
do que foi falado você encontra aqui.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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