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ENTREVISTA
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Planejamento
de carreira, marketing pessoal e empreendedorismo
Nosso país possui um grande contingente de
jovens recém-formados que estão desempregados e
com poucas perspectivas de crescimento, o que
consiste em desperdício de recursos humanos e
talentos. Qual a sua opinião sobre esse
cenário?
Mario Persona - A formação acadêmica
é ainda vista da forma como era vista quando eu
era universitário, há uns 30 anos. Naquele
tempo havia poucas universidades e poucos
profissionais com curso superior. Em algumas
profissões, o diploma universitário era
garantia de emprego. Além disso, quem conseguia
passar no vestibular precisava estar realmente
preparado, pois o próprio ensino que antecedia o
curso superior criava filtros bastante eficazes
de retenção dos menos preparados. O curso
superior, por todas as dificuldades do acesso,
era algo reservado a poucos, e muitas
universidades tinham seus principais cursos de
tempo integral, impedindo o universitário de
trabalhar e estudar.
Hoje, faculdade virou commodity. Há um excesso
de vagas e, dependendo de onde você decida
estudar, a dificuldade de passar em um vestibular
quase não existe. O número de opções também
é grande, com faculdades funcionando à noite e
algumas virtualmente. Então diploma, que todo
mundo acaba conseguindo de um jeito ou de outro,
já não é garantia de emprego. É condição
necessária para competir no mercado, mas não é
mais suficiente. Qualificação, sim, é o que a
maioria dos recém formados por aí precisa
conseguir urgente.
Acho que o que existe por aí não é um
desperdício de talentos, pois muita gente que
conseguiu se "formar" ainda não está
realmente "formada" ou preparada para o
mercado. O número de diplomados não representa
necessariamente o número de talentos
disponíveis ou preparados. Conheço pessoas com
curso superior que jamais teriam saído do
segundo grau se tivessem estudado há 40 anos,
já que são incapazes até de escrever um
parágrafo de texto sem erros. Qualquer
empresário ou profissional de talentos humanos
que esteja envolvido em seleção e contratação
de pessoal irá concordar que o que existe não
é desemprego, mas falta de qualificação.
Como fazer para ressaltar habilidades e
competências pessoais, melhorando o marketing
pessoal sem virar um marketeiro fajuto?
Mario Persona - É um equívoco pensar
em marketing pessoal como propaganda pessoal.
Existe o aspecto da propaganda, mas essa tem
muito pouco valor no marketing pessoal pois o
tiro tem maiores chances de sair pela culatra ou
de acertar o próprio pé. Quando o profissional
é ruim, pouco qualificado e incapaz de exercer
qualquer função, o melhor é que ninguém saiba
que ele existe até conseguir se qualificar. Se
fizer uma boa propaganda de si mesmo nessas
condições correrá o risco de ficar muito
conhecido como um péssimo profissional.
Aí a coisa fica ainda mais complicada, pois se
ele fosse um produto qualquer, como sabão em
pó, poderia simplesmente criar uma nova marca,
uma nova embalagem, e ser relançado no mercado
com algo como "nova fórmula", ou como
aqueles botecos que costumam colocar uma faixa
"sob nova direção". Não dá para
fazer o mesmo com pessoas. Se eu for um
profissional incompetente e ficar conhecido por
isso, como poderei tentar voltar ao mercado
dizendo que agora tenho uma "nova
fórmula" ou que estou "sob nova
direção"?
O networking é importante não só para
os negócios, mas também para aumentar a rede de
contatos, o que vale tanto quanto um bom
currículo. Qual é a sua dica para alguém que
está com problemas em administrar a sua rede de
contatos?
Mario Persona - Grande parte das
contratações ocorre por indicação, não por
anúncios em jornais. A referência é sempre uma
ferramenta que garante um certo grau de
segurança para quem contrata, daí a necessidade
de se manter uma boa rede de relacionamentos.
Porém é difícil criar uma rede artificial se o
profissional é de convívio complicado.
Comportamento e atitude são coisas que realmente
criam networking.
Muita gente pensa que só consegue criar um bom
networking ou rede de relacionamentos quem vai a
todas as festas, toma todas as cervejas ou
pratica todos os esportes. Não é bem assim.
Você pode ser uma ostra em seu convívio, mas se
as pessoas com as quais convive perceberem que
você é leal, honesto, dedicado, empreendedor,
habilidoso e cheio de outras qualidades, elas
vão se lembrar disso quando chegar a hora. Hoje
há grandes profissionais que eram verdadeiros
nerds em seus tempos de estudante, mas que
tiveram portas abertas tão logo saíram da
faculdade, ou até antes, porque tinham uma
conduta que deixava uma marca positiva por onde
quer que passassem.
Muitos estudantes estão, neste exato momento,
perdendo uma grande oportunidade de criar redes
de relacionamento nas salas de aulas das
universidades. Aquele colega ao lado pode ser, em
um futuro muito próximo, seu cliente, empregador
ou parceiro de negócios. A maneira de alguém se
conduzir na sala de aula ajudará a criar sua
marca pessoal - boa ou ruim - que será lembrada
depois pelos colegas quando todos tiverem deixado
o cenário acadêmico para circular pelo cenário
profissional e empresarial.
Em seu livro "Dia de Mudança",
você fala da possibilidade de grandes
empreendedores alcançaram o sucesso nos
negócios a partir de um hobby. Como uma
atividade que começa sem maiores pretensões,
pode crescer e virar um grande negócio?
Mario Persona - Pessoas que fazem o que
gostam de fazer costumam fazer bem feito. E ontem
mesmo ouvi um amigo dizer que ele acredita que
isso seja até o segredo da longevidade de alguns
profissionais e empresários que continuam na
ativa com mais de oitenta anos de idade. Um hobby
é algo que você tem tanto prazer em fazer que
já nem considera aquilo como trabalho.
Eu, por exemplo, tenho meu melhor momento quanto
termino de escrever uma crônica. É um prazer
muito parecido ao que eu tinha quando terminava
um quadro no tempo em que desenhava e pintava. O
mesmo acontece com uma palestra, um curso, um
treinamento. Eu não trabalho, eu me divirto.
É claro que para chegar a ponto de poder
trabalhar fazendo o que gosto - ensinar,
escrever, ler e traduzir - precisei engolir
muitos sapos em diferentes carreiras, empregos e
profissões nem sempre fáceis de digerir. Mas
hoje toda essa experiência serve de matéria
prima para o trabalho que desenvolvo. Muita gente
conseguiu isso, foi capaz de transformar seu
hobby em profissão, ou fazer de sua profissão
um hobby.
O problema é que às vezes interpretamos mal o
conceito de hobby e achamos que isso só deve ser
aplicado ao colecionador de selos, ao
aeromodelista ou à bailarina, que abrem sua loja
de selos, aeromodelos ou curso de dança. Uma
pessoa que adora carros e abre uma oficina
mecânica está transformando seu hobby em
profissão. Conheço uma contabilista que adora
números, coisa que odeio. É o hobby dela,
jamais seria o meu.
A ressalva que faço em meu livro está
relacionada ao problema da maioria dos hobbistas
que, por não fazerem aquilo por dinheiro, acabam
levando para a profissão a mesma idéia liberal
e se dão mal. É preciso separar muito bem as
coisas e saber administrar o hobby como negócio
na hora em que o primeiro se transforma no
segundo.
Você acredita que quando se abre um
negócio pensando apenas em ganhar muito dinheiro
e com muita ambição em jogo é possível
prosperar? Por quê?
Mario Persona - É difícil afirmar
isso, pois não basta ser ambicioso para
progredir e vencer em um negócio ou profissão.
Há pessoas que se acham ambiciosas, mas cuja
ambição não passa de inveja. A ambição de
ter ou ser pode cegar aquele que não percebeu
que só se chega a algum lugar fazendo, e não
apenas pensando positivamente em prosperidade ou
sendo ambicioso. Não sei se foi Thomas Edison ou
Einstein quem disse que um gênio é 1%
inspiração e 99% transpiração, ou algo assim.
Eu concordo.
Qual é o valor da educação no
empreendedorismo?
Mario Persona - Educação simplesmente
não transforma alguém em um empreendedor.
Pessoas empreendedoras são pessoas com
iniciativa. O empreendedor é aquele que percebe
que a lâmpada está queimada e providencia a
troca, joga no lixo a casca de banana que alguém
deixou na calçada porque sabe que vai causar um
acidente ou aprendeu que dinheiro não é para
gastar, é para investir. Estas são apenas
algumas qualidades de um empreendedor.
A educação, evidentemente, irá ajudá-lo a
refinar suas qualidades, mas não será capaz de
torná-lo um empreendedor, pois isso depende de
atitude. Muitos grandes empreendedores jamais
passaram do primeiro grau e hoje empregam
doutores em seu rol de funcionários. É
importante estudar, mas é muito mais importante
saber usar na prática aquilo que você aprendeu,
na escola e fora dela.
Você faz palestras em empresas com a
finalidade de manter os profissionais bem
informados e capazes de vencer a concorrência em
um mercado cada vez mais competitivo. Quais os
pontos principais que o escritor, consultor e
estrategista Mario Persona aborda em suas
palestras, seminários e workshops?
Mario Persona - Procuro trabalhar
bastante a questão do comportamento, e isso
relacionado ao tema da palestra ou do workshop,
que pode ser vendas, estratégia, comunicação,
criatividade etc. Quando aprendemos a nos
comportar e a ler comportamentos damos um grande
passo na aplicação daquilo que aprendemos de
diversas fontes.
Dois dos pontos que considero os mais importantes
para qualquer profissional ou empresa é
comunicação e marketing. Tudo, em todas as
profissões, gira em torno dessas duas áreas,
além da especialidade propriamente dita. Um
médico pode ser um gênio, mas se não souber
comunicar sua genialidade ou identificar e
atender as necessidades e expectativas de seus
clientes, jamais sairá da estaca zero. Sua
medicina não passará de uma era linha digitada
em seu currículo.
Em seu site é possível encontrar
crônicas que abordam os mais diferentes temas.
Você acredita que a Internet seja um grande
aliado na valorização da comunicação escrita?
Mario Persona - Eu não estaria atuando
hoje da forma como atuo, não teria os livros que
tenho e nem minha agenda ficaria como tem ficado
se não fosse a Internet. E na Internet minha
grande ferramenta de comunicação são meus
textos. Ainda que alguém alegue que o futuro é
dos vídeos, alguém precisa escrever o que vai
ser dito ali. Mas, para poder dominar a Internet
eu precisei vencer muitos paradigmas e derrubar
preconceitos que tinha contra as novas
tecnologias.
Usar o computador na década de oitenta foi meu
primeiro grande desafio, já que odiava aquilo.
Para entender aqueles sistemas operacionais e
programas antigos era preciso uma boa dose de
lógica, e nunca fui muito amigo da lógica ou da
racionalidade. Foi só quando fiz do computador
um hobby que consegui domesticá-lo e utilizá-lo
para meu benefício. A Internet veio como
conseqüência disso e estive entre os pioneiros
no Brasil no uso da Internet para contar minhas
histórias.
Hoje ainda encontro pessoas da minha geração
que são resistentes às novas tecnologias, mas
isso não me assombra tanto quanto encontrar
jovens cuja familiaridade com novas tecnologias
não passa do celular. É importante ser amigo da
tecnologia, estar familiarizado com ela. Você
não precisa saber para que servem todos os
botões de seu controle remoto, mas é preciso
saber usar bem os botões que servem para você.
Lemos muito sobre planejamento
estratégico no que tange as corporações. E
planejamento estratégico pessoal, você acredita
que seja um processo para a construção de um
futuro?
Mario Persona - Planejamento não é
algo estático, mas dinâmico. E esse dinamismo
vai aumentar cada vez mais à medida que o
progresso continuar a nos surpreender. Em 1978,
quando saí da faculdade, eu jamais poderia
pensar que iria fazer o que faço hoje, e muito
menos com as ferramentas que utilizo. Portanto,
um planejamento estratégico pessoal ou de
carreira de longo prazo naquela época teria sido
fútil. Antigamente as empresas tinham
planejamento de dez anos, depois de cinco anos,
de três... Hoje muitas não têm certeza se
daqui a algum ano estarão fazendo o que fazem
hoje, tamanha a velocidade das mudanças.
Acredito, sim, que seja preciso ter alguma meta
em mente, mas o caminho até lá, ou mesmo a
própria meta, precisa ser flexível o suficiente
para você ir corrigindo sua rota ao logo do
tempo, ou até dar saltos em direções jamais
sonhadas. Hoje o profissional precisa ter visão;
um mapa muito detalhado pode até atrapalhar.
Muita gente já bateu o carro tentando ler o mapa
e dirigir ao mesmo tempo. Do jeito que as coisas
andam, um binóculo pode ser mais útil do que um
mapa.
Entrevista concedida ao portal
eMiolo em 13/11/2007 para uma matéria sobre
planejamento de carreira, marketing pessoal e
empreendedorismo.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba publicado. Eventualmente são aproveitadas
apenas algumas frases a título de declarações
do entrevistado. Para não perder o que disse na
hora e posso nunca mais conseguir dizer, costumo
gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra
do que foi falado você encontra aqui.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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