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Linguagem corporativa
Dominar os termos técnicos da profissão é
visto como um processo natural e necessário no
meio corporativo. O profissional deve se
preocupar em trazer estes termos para seu
vocabulário diário?
Mario Persona - Sim, todo profissional
deve conhecer o vocabulário do segmento onde
atua, porque há diferenças entre as áreas.
Alguém que trabalhe no mercado financeiro terá
um vocabulário diferente de alguém que
trabalhem em qualidade ou marketing, por exemplo.
O profissional tem obrigação de dominar os
termos relacionados à sua área, em especial
aqueles em outros idiomas.
Mas ele não deve obrigatoriamente usá-los
quando isso não for necessário. O objetivo da
comunicação não é falar difícil ou falar
bonito, mas fazer com que a mensagem seja
compreendida pelas pessoas, portanto o
profissional deve avaliar as circunstâncias e o
público de sua comunicação.
Os termos devem ter a função apenas de
simplificar a comunicação entre pares, porque
às vezes um termo breve, técnico ou em outro
idioma, substitui toda uma sentença, contanto
que o outro entenda.
Não é porque um engenheiro químico atua em um
segmento com um vocabulário técnico específico
que ele necessariamente irá sempre trazer esse
vocabulário. Se estiver com pessoas de outros
segmentos, ou com um grau de escolaridade e
compreensão menor, ele deve traduzir e adaptar
sua comunicação para que os ouvintes entendam a
mensagem.
Muitos profissionais fazem questão de usar um
tipo de "letra de médico" em sua fala,
achando que ao torná-la rebuscada e cheia de
termos estrangeiros, que podem ser até em latim
como no caso dos advogados, isso agregará status
à sua comunicação e mostrará que são
entendidos no assunto.
Geralmente é o contrário que sucede. Você
encontra essa tendência mais em jovens e
principiantes numa carreira do que naqueles com
anos de experiência que já não sentem essa
necessidade de impressionar seu público. Ralph
Waldo Emerson escreveu: "É prova de alta
cultura dizer as coisas mais profundas do modo
mais simples". Portanto, quem fala difícil
não é quem sabe mais. Quem fala de modo simples
e direto demonstra poder de síntese e capacidade
de comunicação. É o que todos deveriam buscar.
Incorporar os jargões da profissão (em
geral, termos em inglês) ao dia-a-dia faz com
que a pessoa esteja mais integrada em seu meio
profissional? Ou esse hábito pode trazer consigo
algumas ciladas para o profissional?
Mario Persona - Eu particularmente acho
que deve existir naturalidade e flexibilidade na
comunicação. Nem um, nem outro extremo é bom.
Tem gente que adora falar expressões em inglês
no elevador para impressionar, mas acho isso um
pouco de prepotência lingüística, uma certa
insegurança que parece exigir que a pessoa
revele uma certa dose de conhecimento.
Comunicação é uma ferramenta, não uma
plumagem, e quem realmente domina o assunto é
capaz de traduzir bem o que diz para cada
audiência. Obviamente sempre há aqueles que
avaliam o livro pela capa e esperam ouvir algum
estrangeirismo como forma de avaliar se o outro
é do mesmo time. O bom comunicador deve ser
capaz até de identificar esse tipo de pessoa
para dar a ela a dose de estrangeirismo que seja
suficiente para estabelecer rapport com essa
pessoa. Viu como se faz?
É claro que nem sempre podemos evitar que leigos
participem como ouvintes de um diálogo que
deveria ser entre pares. Lembro-me do caso de um
amigo dentista que, durante um atendimento a
pessoas carentes nos tempos de faculdade, recebeu
do professor o conselho para que tomasse cuidado
na extração de um dente superior da paciente.
Quando o professor alertou meu amigo, dizendo,
"Cuidado para não perfurar o seio",
referindo-se ao "seio maxilar", a
paciente imediatamente fechou o decote.
É possível não tornar o
"corporativês" seu língua oficial ou
isso acaba sendo inevitável?
Mario Persona - Eu não gosto muito de
"corporativês", mas às vezes é
preciso usá-lo até para simplificar a
comunicação. É preciso ter este objetivo em
mente para não torná-lo apenas uma plumagem.
Tem gente que incorpora um monte de expressões
corporativas, a maioria delas em inglês, e nem
sabe o que está falando. Às vezes é até
engraçado fingir ignorância e pedir para algum
jovem profissional explicar o que quer dizer
aquela palavra difícil que ele acabou de dizer.
Em comunicação existe também o elemento
surpresa, o inusitado que pode criar interesse.
Por isso, quando estou falando a um público de
especialistas em uma determinada área, costumo
usar suas expressões, mas mudando o tom de voz,
como quem está esnobando. Ou então usar de
propósito a versão leiga de suas expressões
apenas para causar surpresa na comunicação,
porque faço isso de modo que eles saibam que é
de propósito, não por ignorância.
Mas isso é uma característica pessoal, pois sou
muito brincalhão e irreverente no modo de me
comunicar. Acaba sendo até uma diversão
encontrar meios de fazer com que pessoas que
insistem em andar de salto alto percam o
equilíbrio ou percebam o papel ridículo que
estão fazendo usando linguagem rebuscada na hora
errada.
Uma de minhas preferidas é perguntar, com
expressão séria, o significado da palavra
"estranha" que o que fala
"corporativês" acabou de introduzir
numa conversa de maioria leiga. Depois de dois ou
três pedidos de tradução o outro acaba
guardando seu léxico de
"corporativês" e passa a falar o
idioma dos simples mortais..
O uso de estrangeirismo e jargões da
profissão deve ser um critério do profissional
ou as empresas devem se preocupar em orientá-los
sobre como usá-los e com qual freqüência?
Mario Persona - Eu acho que é uma
questão pessoal, se estivermos falando de
linguagem deliberadamente rebuscada. É claro que
um químico poderá conversar em fórmulas com
outro químico, e talvez fale H2O em lugar de
água, mas isso é natural. O que não é natural
é rebuscar e tornar a comunicação mais
difícil apenas para tentar mostrar que está um
patamar acima do cidadão comum. A empresa deve
orientar sua equipe a se comunicar de maneira
eficaz, pois a falha na comunicação pode trazer
problemas.
Há anos li uma crônica muito engraçada sobre
uma reunião de condôminos que discutiam uma das
cláusulas do regulamento para o condomínio.
Enquanto uns defendiam que devia ser vedado o
armazenamento de fogos de artifício, outros não
concordavam porque achavam que isso devia ser
proibido.
Muitos enxergam nos estrangeirismos uma
ameaça à língua nacional. O senhor concorda
com este tipo de visão? As empresas deveriam
procurar traduzir termos e estimular os
profissionais a utilizá-las?
Mario Persona - Depende daquilo que
estamos defendendo. Se a idéia for defender o
idioma, mantê-lo intacto, então precisaríamos
eliminar imediatamente os estrangeirismos que já
foram incorporados, como folclore, por exemplo. E
deveríamos parar de pedir pizza no restaurante.
Porém, se considerarmos o idioma como ferramenta
de comunicação, é inevitável que os
estrangeirismos acabem incorporados, porque essa
é uma das características de qualquer idioma,
adaptar-se para tornar a comunicação eficaz.
O idioma português já é uma língua derivada
do latim, portanto, um idioma já adaptado a uma
nova realidade. Quem usa computador todos os
dias, ou "ficheiro" em Portugal, já
incorporou verbos como "deletar" e
"zipar", porque isso é muito mais
fácil do que dizer remover e compactar. No
inglês já se usa o verbo "to google",
e nem por isso Shakespeare se revirou no túmulo.
Um idioma precisa ser como uma ferramenta,
moderno e afiado para atender as necessidades de
quem o utiliza, e não o contrário. Já viu
aqueles saudosistas que continuam usando máquina
de escrever ou régua de cálculo? Assim é o
apego exagerado ao idioma.
Acho até que é uma lei universal que tudo acaba
indo em direção à simplificação e à
amalgamação, uma espécie de erosão das
coisas. Assim é com o idioma. Não é possível
acreditar que vamos viver em um mundo globalizado
sem que ocorra uma amalgamação dos idiomas.
Algo como aquelas massinhas coloridas de modelar
que, de tanto brincar, você termina com uma
massa cinza. Sim, ela é mais feia do que as
coloridas originais, mas esse foi o risco que
você correu ao colocá-las em contato.
Os idiomas acabarão se mesclando e as pessoas
irão adotar os termos e expressões mais
simples, como até mesmo dentro do idioma
acontece. Hoje falamos "tá" para
"está", por exemplo, e se você
escrever uma mesma frase, do jeito que ela é
falada de sul a norte de nosso país, acabará
com uma série de frases que parecerão idiomas
diferentes.
A globalização irá continuar erodindo os
idiomas, mas acredito que o risco maior esteja
com o idioma inglês. Em breve teremos a maior
população do mundo tendo, como segunda língua,
um "chinglês", como já existe nos
Estados Unidos um "espanglês". Vai ser
engraçado ver o que vai sobrar do idioma de
Shakespeare daqui a algumas décadas.
Entrevista concedida para o site Bolsa
de Mulher em 18/04/2008.
Entrevistas como esta costumam ser feitas para a
elaboração de matérias, portanto nem tudo
acaba sendo publicado. Eventualmente são
aproveitadas apenas algumas frases a título de
declarações do entrevistado. Para não perder o
que eu disse na hora, costumo gravar ou dar
entrevistas por escrito. A íntegra do que foi
falado você encontra aqui.
Mario
Persona é consultor, escritor e palestrante.
Veja em www.mariopersona.com.br
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